Guerra, pisco e provocações: rivalidade entre Chile e Peru extrapola as 4 linhas

  • Por Pedro Sciola
  • 03/07/2019 07h14
EFEVidal e Sánchez comemoram o segundo gol da seleção chilena

Chile x Peru não é um clássico tão famoso e badalado quanto um Brasil x Argentina. Ainda assim, o duelo desta quarta-feira (3) entre os semifinalistas da Copa América possui uma rivalidade que transcende as delimitações de um campo de futebol e tem origem no século XIX, quando ambas nações se enfrentaram na Guerra do Pacífico.

De 1879 a 1883, Peru e Bolívia se juntaram para batalhar contra o Chile, em disputa pelo Deserto do Atacama, região localizada no norte do território chileno.

“O conflito todo tem a ver com a Guerra do Pacífico (1879 – 1883). Envolveu Chile, Peru e Bolívia. Eles disputaram o deserto do Atacama, que era rico em nitrato (estavam começando a utilizar na agricultura). O Chile saiu vitorioso. A maior perda foi da Bolívia, que ficou sem uma saída para o mar”, explica o professor de história Milton Tamarosi em entrevista à Jovem Pan.

A rivalidade começou em meio às disputas territoriais após o processo de independência da América espanhola. As consequências do conflito, no entanto, foram piores para os bolivianos.

“Para a Bolívia foi mais traumático. Eles não têm acesso direto ao Oceano Pacífico e toda vez eles têm que negociar com o Chile. Já no Peru desenvolveram um culto aos heróis do conflito”, continuou Milton.

Mesmo assim, a intriga se estende até os dias atuais. Em um dos últimos confrontos entre as seleções válido pelas Eliminatórias da Copa do Mundo, os chilenos tiveram o hino vaiado antes da partida realizada em Lima. No fim, os visitantes venceram por 4 a 3 e deram o troco com um recado no vestiário.

“Respeito! Por aqui passou o campeão da América”, dizia uma pichação no vestiário dos peruanos.

A verdade é que a “briga” existe até para definir quem é o verdadeiro inventor do pisco, bebida feita a partir do vinho. Ex-bartender, o brasileiro Eduardo Souza mora em Santiago e explica o motivo da discussão.

“O pisco é considerado chileno aqui. Historicamente, quem começou a fazer primeiro foi o Peru, mas os peruanos chamavam de aguardente. Inclusive, aqui em Santiago só pode ser vendido pisco peruano como aguardente, nunca pelo nome de pisco. Porque pela denominação de origem, todo pisco é chileno”, contou.

De acordo com Eduardo, o Peru só teria patenteado o pisco depois do Chile, causando mais intriga entre as duas nações.

“Aqui, os piscos são feitos de maneira completamente diferente dos do Peru. As uvas e os processos são diferentes. Por exemplo, aqui as uvas passam por mais filtragens e, se for falar do pisco sour, o chileno não usa clara de ovo e nem de amargo angostura”, explicou.

Em busca do Tri

O embate desta quarta-feira vale, para ambas seleções, uma vaga na final em busca do tricampeonato da Copa América. Enquanto o Chile venceu seus dois títulos nas últimas edições (2015 e 2016), o Peru tenta ganhar o torneio sul-americano após 44 anos. Os Incas conquistaram o campeonato em 1939 e 1975.

Pela Copa América, os chilenos possuem um retrospecto favorável diante do rival. São 8 vitórias, 6 empates e 6 derrotas para o Peru.

O último confronto entre as seleções no torneio foi justamente em uma semifinal. Em 2015, atuando em casa, o time de Vidal e companhia bateu os peruanos por 2 a 1 e avançaram à final.

Quem vencer, enfrenta na decisão o Brasil, no domingo (7), às 17h, no estádio do Maracanã.