‘Foi um funeral’, diz Vovó Tricolor, testemunha ocular do Maracanazo, há 70 anos

Maria de Lourdes tinha sete anos quando viu a vitória do Uruguai sobre o Brasil

  • Por Jovem Pan
  • 16/07/2020 07h00
EFE/Antonio LacerdaMaria de Lourdes ganhou o ingresso para o jogo por acaso, no internato onde estudava

Maria de Lourdes Silva tinha 8 anos de idade quando foi testemunha ocular do Maracanazo, que completa 70 anos nesta quinta-feira. A decisão da Copa do Mundo de 1950, vencida de virada pelo Uruguai sobre o Brasil, é um dos episódios mais dolorosos da história da seleção brasileira.

A torcedora conseguiu superar a tristeza que sentiu no fatídico dia, e se tornou uma das torcedoras mais famosas de todo o Brasil. Conhecida como “Vovó Tricolor”, ela é hoje uma das mais emblemáticas torcedoras do Fluminense, e bate cartão no Maracanã quando o time joga.

Segundo a senhora de 78 anos, a partida decisiva da Copa do Mundo de 1950, que o Brasil perdeu para o Uruguai por 2 a 1, emudecendo um Maracanã lotado, foi o primeiro jogo que ela assistiu em um estádio. Felizmente, a decepção não a afastou do futebol.

“Conheci o Maracanã em 1950, quando assisti ao jogo entre Brasil e Uruguai. Foi muito bonito, com uma multidão muito animada. E, no final… o Brasil perdeu. E o Maracanã ficou triste, foi um funeral, muito triste. Os brasileiros aplaudiram muito, mas a festa acabou”, disse a torcedora. Anos mais tarde, Maria de Lourdes ficaria famosa por levar para o estádio galos batizados com os nomes das maiores estrelas do Tricolor das Laranjeiras.

Gol de Ghiggia: o goleiro Barbosa foi tratado por anos como um ‘vilão’ pela derrota

“Aquele dia foi uma tristeza total, eu só via pessoas chorando. Oh, meu Deus. Foi uma grande tristeza. Era como se o Maracanã tivesse desabado. Foi uma grande tristeza. Foi realmente muito triste. Todos estavam esperançosos, gritando ‘Brasil! Brasil!’, e acabaram em silêncio total. Silêncio total”, lembra.

Em 16 de julho de 1950, o Uruguai derrotou o Brasil diante de cerca de 200 mil pessoas. Era um público inédito em um jogo de futebol até aquele dia, em um estádio inaugurado um mês antes, especialmente para o evento, e motivo de orgulho por ser, na época, o maior do mundo.

O Brasil chegou como amplo favorito à partida decisiva. Apesar do que sempre foi dito, não se tratava de uma final nos moldes atuais. Um quadrangular final decidia o campeão. A seleção havia goleado a Suécia por 7 a 1 e a Espanha por 6 a 1, enquanto os uruguaios tinham empatado com os espanhóis em 2 a 2 e suado para bater os suecos por 3 a 2.

Dessa forma, um empate seria suficiente para garantir o título inédito para o Brasil. Boa parte da imprensa e da torcida fazia um carnaval fora de época para comemorar a provável conquista. O auge da festa foi o gol de Fiança, que abriu o placar aos dois minutos do segundo tempo. O que quase ninguém esperava é que Juan Alberto Schiaffino empatasse aos 21 minutos. Aos 34, o balde de água fria veio dos pés de Ghiggia, em finalização que passou por baixo do braço esquerdo do goleiro Barbosa. Embora tenha sido um dos melhores brasileiros da posição, o arqueiro ficou marcado pelo lance.

A ‘Vovó Tricolor’, como é conhecida, foi ao jogo quase que por acaso. Aluna de um internato feminino, ouviu da diretora que ganharia um ingresso devido ao bom comportamento na instituição. “Fui criada em um colégio interno e fui muito bem comportada. E a diretora me disse que me daria de presente um passeio ao Maracanã, e eu nem sabia o que era, mas eu disse: ‘tudo bem’. E fui esperando uma vitória, mas acabei saindo triste. A diretora também ficou triste, mas me falou que coisas melhores viriam”, lembrou.

Dona Maria de Lourdes foi uma das últimas a deixar o estádio. Muito criança, ela lembra que não entendia muito bem porque todos estavam tristes e chorando. “Eu me perguntava o que havia acontecido. Eu era uma estreante no Maracanã na época”, afirmou.

Ela não deixou que a experiência ruim impedisse o surgimento de um amor pelo estádio na zona norte do Rio de Janeiro. “Sempre digo que o Maracanã é minha casa. O Maracanã é legal”, conta. Ela lamenta a extinção da geral após uma das várias reformas às quais o estádio foi submetido. O setor, cujos ingressos eram sempre os mais baratos, acabou após as obras para os Jogos Pan-Americanos de 2007.

“Era para onde eu ia. A torcida era maravilhosa. Podia ser um Fla-Flu, eu ficava no meio da galera e nunca tinha uma briga. Na época, eles me chamavam de ‘A Geraldina’. Agora está mudado. Eles colocam cadeiras, e eu não posso mais pular, nem dançar”, queixou-se.

A assiduidade no Maracanã veio durante sua adolescência. Sempre que podia, via a seleção brasileira e, principalmente, o Tricolor. A torcedora admite que viveu outros momentos tristes no estádio, com destaque para a derrota do Fluminense para a LDU, de Quito, nos pênaltis, na final da Taça Libertadores de 2008. Nenhum se compara ao Maracanazo, diz Maria de Lourdes.

“Quando perdemos para a LDU, fiquei triste, mas depois fiquei animada. Eu sempre digo que o Fluminense ganhará depois. Para mim, o futebol é alegria. O que me faz feliz no Maracanã é quando o Fluminense marca um gol e todos me abraçam e me beijam. Se perdemos, não tem problema, sempre tem o próximo jogo”, declarou.

* Com EFE