Petraglia critica Globo, celebra eleição de Bolsonaro e prevê Athletico candidato ao título mundial

  • Por Jovem Pan
  • 14/12/2018 17h16
Giuliano Gomes/Estadão ConteúdoMário Celso Petraglia é o atual presidente do Conselho Deliberativo do Athletico Paranaense

“Nós queremos uma identidade própria. Era o nome do Atlético-MG, a camisa do Milan, o escudo do Flamengo… O Athletico Paranaense, hoje, tem de ser tão forte quanto os outros.”

Mário Celso Petraglia, definitivamente, não gosta do papel de coadjuvante. Polêmico e ousado, o homem que de fato comanda o atual campeão da Sul-Americana é, acima de tudo, corajoso. Tem coragem para alterar o escudo e nome de um clube quase centenário, tem coragem para peitar Globo e CBF, tem coragem para “boicotar” o Estadual e, principalmente, tem coragem para fazer uma arrojada previsão.

Em entrevista exclusiva ao comentarista Mauro Beting, da Rádio Jovem Pan, o ex-presidente do Athletico e atual comandante do Conselho Deliberativo rubro-negro afirmou: “nós, o Athletico, estaremos, até 2024, sendo avaliados como um dos possíveis campeões do mundo.”

E não só isso…

Petraglia também criticou Globo e CBF, instituições que, na sua visão, “monopolizam” o futebol brasileiro há 40 anos; celebrou a vitória de Jair Bolsonaro e a derrota do “conservadorismo da esquerda” nas eleições de outubro; e revelou que, desde a classificação sobre o Bahia, nas quartas de final, sabia que o Furacão conquistaria o título da Copa Sul-Americana.

Confira, abaixo, a entrevista exclusiva de Mauro Beting com Mário Celso Petraglia:

O que o senhor pode falar sobre as mudanças do Athletico? No nome, no escudo, no uniforme… Qual é a intenção do clube?

“Nós queremos uma identidade própria. Era o nome do Atlético-MG, a camisa do Milan, o escudo do Flamengo… O Athletico Paranaense, hoje, tem de ser tão forte quanto os outros. E o nome não mudou. Nós simplesmente alteramos a grafia, recuperamos a história do clube.”

O senhor acreditava na conquista da Sul-Americana nessa temporada?

“Você sabe que eu tenho uma intuição muito forte, né? E, quando nós passamos pelo Bahia com aqueles dois gols anulados em função do VAR, eu falei: ‘isso é sorte de campeão’. Eu estava extremamente tranquilo, seguro, de que nós venceríamos o jogo (contra o Junior Barranquilla em Curitiba). Seja com facilidade, seja com dificuldade. Foi a primeira vez que tive a segurança de dizer que seríamos campeões. Pelo clima, pela energia… A sorte caminha junto com a competência.”

É um sonho do Athletico ser campeão do mundo até 2024. Isso é, de fato, possível?

“Seria mais fácil para mim inverter as posições e te retornar com um ‘por que não?’. Mas não. Em 1995, nós afirmamos que seríamos campeões brasileiros em dez anos. E fomos em seis. Depois da Copa, quando recebemos jogos do Mundial e revitalizamos o nosso estádio, dissemos que seríamos um dos maiores clubes do nosso continente. Está aí a prova… Acabamos de ganhar a nossa primeira competição internacional. Agora, estamos nos preparando, temos um planejamento em andamento, para estarmos entre os principais clubes do mundo em estrutura, que já somos, e em capital, que iremos buscar. Eu apostaria, se tudo acontecer dentro do que projetamos, que vamos cumprir mais essa etapa. Estaremos, até 2024, ano do nosso centenário, sendo avaliados como um dos possíveis campeões do mundo.”

Quando fala em tornar o Athletico um dos principais clubes do mundo “em capital”, o que o senhor quer dizer?

“Vamos buscar um parceiro estratégico, de capital, para termos condições de manter os nossos talentos e buscar contratações de outros clubes. Porque houve, em função desse monopólio, dos 40 anos em que o Brasil funciona em torno de duas instituições, a CBF e a Rede Globo, uma falência do nosso futebol, com algumas exceções. Estamos nos preparando para mudanças. O Brasil não tem a sua liga, é um dos únicos países do mundo que ainda não tem uma liga independente, dos clubes, em função de uma legislação velha, superada… Ou seja, estamos aguardando aí um novo governo, um novo momento, para fugir desse conservadorismo da esquerda do qual nós felizmente nos livramos depois de 24 anos… Vamos, agora, para uma posição liberal, de abrir os capitais dos clubes, buscar parceiros no mundo.”

O Athletico peita a CBF, a Globo, a Conmebol… O senhor não teme represálias?

“Eu não! Absolutamente… Isso é uma falácia! Os dirigentes, com todo respeito, têm essa preocupação. Mas eu não tenho há muito tempo. É claro que existem os erros de arbitragem, às vezes nos beneficiando, às vezes nos prejudicando, e, aí, quando um erro é contrário, fica sempre aquela espada sobre a cabeça, da submissão… ‘Ah… estamos com medo que nos prejudiquem’. Isso é uma grande bobagem! Ainda mais agora, com a tecnologia, com o VAR, vai ter que se criar uma quadrilha, um grande complô, para que haja um prejuízo voluntário. Temos trinta e tantas câmeras em cada jogo… Eu nunca acreditei nisso! Faz parte desse folclore, dessa cultura do futebol que nós precisamos mudar. Infelizmente, não houve, nas últimas décadas, um trabalho que proporcionasse alguma mudança nesse sentido. Porque ficamos dependentes das instituições que dominaram essa indústria. Infelizmente, estamos pagando um preço muito caro por tudo isso.”

As mudanças recentes no Athletico não foram impostas de cima para baixo? Não faltou uma conversa com a própria torcida?

“Com todo respeito… Não seria desonesto da nossa parte transferir uma responsabilidade para os torcedores sem eles terem nenhum conhecimento do projeto e nenhuma visão mais ampla de para onde caminha o futebol? Obviamente, fica, aparentemente, uma posição autocrata, mas, na continuidade, haverá o entendimento, e é responsabilidade nossa trabalhar para o bem da instituição. Nós nos sentimentos seguros, porque temos certeza de que essas decisões, lá na frente, serão reconhecidas por todos. Eu dou um exemplo muito simples: o caso de pararmos de disputar o Estadual com o time principal. A princípio, a grande maioria da torcida não entendeu. E como nós poderíamos transferir essa decisão para eles, quando sabemos que é uma competição deficitária, que desgasta os principais atletas, que temos o projeto de chegar ao fim da temporada com 50 jogos, no máximo, com o time principal? Hoje, já se fala em modificar os Estaduais, porque não faz sentido desgastar os atletas em campeonatos falidos, deficitários, dos quais nós já sabemos, de antemão, os possíveis candidatos ao título. O futebol se tornou uma indústria que movimenta muito dinheiro. Ele tem de ser tratado como uma coisa séria, e não mais como uma satisfação de entretenimento voltado para as classes mais pobres do Brasil. Não que eu seja elitista, mas o brasileiro não tem condição de pagar o preço que o futebol custa hoje. A gente vê clubes colocando ingressos a R$ 5,00, R$ 10,00… Como é que você paga a conta? Aí, vemos clubes com quatro, cinco meses de atrasos salariais. Isso acontece porque ainda querem conservar o velho em detrimento do novo. Essa realidade tem de mudar.”