A história por trás da narração do maior gol da vida de Carlos Alberto Torres

  • Por Jovem Pan
  • 25/10/2016 14h14
Estadão ConteúdoCarlos Alberto Torres fez o quarto gol do Brasil na final da Copa de 1970

Clodoaldo rodopia. Trança as pernas. Pedala de dentro para fora. De fora para dentro. Põe quatro italianos para dançar e, só depois, solta a bola para Rivellino, na ponta esquerda do campo. À canhota mais impressionante do Brasil basta um domínio até o lançamento forte, preciso, nos pés de Jairzinho. O Furacão encara um defensor, puxa para o lado e passa de bico para Pelé, que, com a simplicidade do maior de todos, ajeita o corpo, olha para a direita e rola. Mansa, a bola caminha, com açúcar e afeto, pelo lendário gramado do Estádio Azteca. Até que se encontra com Carlos Alberto Torres. Dominar? Para quê? Vai de primeira, mesmo! Uma bomba de pé direito, um silêncio, e o gol. O quarto do Brasil na final contra a Itália. O mais bonito da história dos Mundiais.

O lance que, indubitavelmente, habita a mente de dez entre dez amantes do futebol só foi narrado por um ser-humano na história do rádio brasileiro: Joseval Peixoto. Então principal locutor da Rádio Jovem Pan, o hoje âncora do Jornal da Manhã transmitiu, para todo o País, os 30 minutos finais da decisão da Copa do Mundo de 1970, no México. Nos tempos em que TV era coisa para gente rica, foi o rádio que passou a emoção do tricampeonato mundial para a maior parte das 90 milhões de pessoas que vivam no Brasil. Coube à voz de Joseval Peixoto dar o tom do maior feito da vida de Carlos Alberto Torres, morto nesta terça-feira, vítima de infarto.

Hoje com 78 anos, Joseval lamentou a morte do protagonista da maior jogada que já narrou na vida. “Foi um gol memorável”, limitou-se a dizer o jornalista, abalado pela morte do ex-jogador. “O Carlos Alberto erguendo e beijando a Jules Rimet foi um dos momentos mais espetaculares do esporte. A morte dele deixa uma lacuna imensa. O Carlos Alberto foi um grande capitão. Era um líder respeitado por todos, um comandante extraordinário“, acrescentou, triste também por causa da relação amistosa que possuía com o ex-lateral-direito.

“Tivemos uma convivência bonita em um octogonal que aconteceu em 1968/69/70, quando ele jogava pelo Santos. E na Copa de 1970 convivemos bastante, também”, revelou Joseval, que, curiosamente, foi o primeiro homem a apostar em Carlos Alberto Torres como comentarista esportivo – o Capita morreu como integrante do quadro de comentaristas do Sportv. “Convidei o Carlos Alberto para ser comentarista na época da TV Manchete. Foi por pouco tempo, mas o Carlos Alberto foi um sucesso e nós chegamos a transmitir os jogos da Seleção Olímpica nos Jogos de 1984″, encerrou.

Uma narração para a eternidade

“A deusa de ouro de braços erguidos. Essa deusa tão jovem com velhas histórias erguidas para o alto, para o céu do Brasil”. Foi assim que, em 21 de junho de 1970, Joseval Peixoto descreveu a taça Jules Rimet, que Carlos Alberto Torres levantou após a conquista do tricampeonato da Seleção Brasileira. Um momento de inspiração – típico de locutores esportivos, segundo Joseval – mas que foi possível por uma boa dose de sorte.

Com apenas uma linha física para transmissão da Copa do México, as rádios brasileiras separaram três equipes: Bandeirantes, com Fiori Gigliotti, Nacional, com Pedro Luiz e Jovem Pan (agregada à rádio Record), com Joseval Peixoto, que se dividiam para as transmissões.

“Nós éramos muito amigos, e separamos assim: um abria e fechava a transmissão, um narrava o primeiro tempo e outro o segundo, e assim iríamos revezando”, conta. Mas e se a Seleção Brasileira fosse para a final? Brasil, Uruguai e Itália disputavam a posse definitiva da taça Jules Rimet, com 40 anos de história, que chegou a ficar enterrada em solo italiano durante a Segunda Guerra Mundial.

A solução encontrada foi dividir os 90 minutos de partida em três partes – sendo o final o “filé”, imaginando que o Brasil estaria na disputa –, e coube a Paulo Machado de Carvalho realizar o sorteio. “Eu ganhei os últimos trinta minutos, e ainda tive a vantagem de receber o jogo em 1 a 1. Quem narrou os três gols do Brasil da vitória de 4 a 1 na final fui eu, e só eu, mais ninguém”, relembra.

O momento, segundo Joseval, foi a sua consagração. “Em 50 eu era menino, interno em um colégio presbiteriano, que nem se falava em futebol. Vim a saber da grande derrota brasileira [na Copa de 1950, contra o Uruguai] tempos depois. E coube a mim, 20 anos depois, narrar a final da Copa do Mundo. Foi a realização máxima como narrador esportivo, sem dúvida”, destaca, com emoção.

Histórias de bastidores

O Brasil vivia um período de militarismo durante a disputa da Copa de 1970, e o governo tomou conta da Seleção, com os jogadores “enclausurados” em um castelo medieval no México, e entrevistas permitidas apenas uma vez por semana.

A Jovem Pan, porém, contou mais uma vez com uma dose de sorte. O repórter Geraldo Blota era amigo de Rivelino, e usou a aproximação e a criatividade para conseguir materiais exclusivos da Seleção. “Tinha acabado de ser lançado o gravador a pilha, e o GB [como Geraldo Blota era chamado pelos companheiros] entregava para o Rivelino com as fitas, e ele entrevistava os jogadores na concentração e devolvia para a gente o material”, explica Joseval.

Outro momento engraçado e curioso que o locutor relembra aconteceu durante a semifinal, contra o Uruguai. Leônidas Dias era comentarista da Jovem Pan, e se envolveu em uma confusão com os jornalistas uruguaios durante a transmissão. Joseval conta que antes do confronto a imprensa mexicana relembrou a derrota brasileira para o Uruguai na Copa de 1950, o famoso “Maracanazzo”, e que todos tinham receio da partida, já que os vizinhos sul-americanos tinham um time muito aguerrido.

“A gente começou perdendo, eu narrando o primeiro tempo, e o Clodoaldo empatou aos 44 minutos. No primeiro tempo, os jornalistas uruguaios lá embaixo ficaram gozando, e quando houve o empate o Leônidas avançou nos caras, foi um ‘quiproquó’”, diverte-se.

O adeus ao esporte

Após narrações brilhantes e inesquecíveis, como a da Copa de 1970 e do milésimo gol de Pelé, Joseval Peixoto decidiu que era hora de abandonar a carreira de locutor esportivo, e assumiu então como âncora do Jornal da Manhã, função que exerce até hoje no microfone Jovem Pan.

“Eu tenho muita saudade, mas eu precisava tomar essa decisão, porque sou formado em Direito, e como narrador esportivo não dá pra exercer a profissão, pois em coberturas da Seleção, por exemplo, você fica 40, 50 dias fora”, recorda.

O adeus, porém, fez Joseval perceber o quanto era querido pelo torcedor brasileiro: “eu imaginava que a gente era famoso, mas não imaginava que a gente era amado. Recebi abaixo assinado com mais de 500 assinaturas para não parar”.

A vontade de narrar nunca abandonou Joseval, e até mesmo o histórico 7 a 1 contra a Alemanha na Copa de 2014 ele gostaria de ter transmitido, e relembra que uma de suas maiores narrações envolveu também vaias de torcedores à Seleção.

“O Brasil estava desmoralizado, e a torcida começou a vaiar em um jogo em Minas Gerais. Eu deixei o jogo e comecei a narrar o que era a Seleção Brasileira, a importância para a nacionalidade. Quando se busca o traço de união da nacionalidade, o que distingue é a língua portuguesa, o samba e a Seleção Brasileira. Falei tudo isso na narração e a transmissão cresceu. Não importava o jogo, importava mostrar que estávamos vaiando a própria nacionalidade”, aponta.