Inventor do spray “joga junto com futebol” e propõe fundo para formação de árbitros

  • Por Bruno Bataglin/Jovem Pan
  • 03/07/2014 22h48

O mineiro Heine AllemagneHeine Allemagne

O nome de Heine Allemagne talvez não soe familiar a muitos, mas ele é o responsável por um dos recursos que mais tem chamado a atenção na Copa do Mundo de 2014: o spray para marcação da barreira. Inventor do Spuni, como antes era chamado, ou do 915 Fair Play, agora nomenclatura oficial, o mineiro teve uma ideia simples, mas que facilitou muito o trabalho dos árbitros.

Em 2000, Heine, ansioso por melhorar sua condição de vida, teve a ideia inovadora e decidiu levar o projeto adiante. Mas ele não esperava que o spray, comum para os torcedores brasileiros, fosse fazer tanto sucesso.

“No ano de 2000 tive a ideia. Foi quando fizeram um desafio para manter a barreira no lugar. Na época, eu pensava em mudar de vida, estava em uma situação difícil. Parei e pensei na marcação provisória. Me inspirei no creme de barbear. Formatei todo o projeto. Teve o aval da própria CBF e começou na Taça BH, em Belo Horizonte”, diz Allemagne, em entrevista ao Jovem Pan Online. “No mesmo ano, foi testado na Copa João Havelange e depois passou a ser obrigatório no Brasil em todas as competições. Foi aprovado no International Board em 2012. Tivemos uma reunião com a Fifa e solicitamos a utilização”, prossegue.

A princípio, podemos pensar no spray somente como um recurso para limitar o posicionamento da barreira em cobranças de falta, mas Heine Allemagne destaca que sua invenção para o jogo de futebol representa muito mais do que isso.

“É mais do que disciplina. A primeira melhoria é o árbitro ter visão liberada na hora das cobranças, ficando com a atenção 100% liberada para observar outras infrações. Em mais de 20 mil jogos entre os que testamos foram constatadas mais ocorrências de gol, quase zero de incidência de cartão por avanço da barreira. É respeito à regra. Reforça a credibilidade do árbitro e estimula o fair play. O tempo de paralisação em cobranças de falta caiu de 48 segundos para 20”, analisa. “Tenho certeza que o spray fiscaliza muito mais o árbitro do que o jogador. É fantástico porque evita que o jogador tome o cartão. No jogo da Argentina (contra a Suíça, nas oitavas de final da Copa), ele fez com que a barreira não andasse (no último lance da prorrogação). É a lógica da faixa de trânsito: quem é que para em cima dela com o guarda do lado?”.

Heine Allemagne frisa que não recebe dinheiro da Fifa pelo uso do 915 Fair Play, alegando que o projeto não é comercial, mas admite ser o dono da patente.

“Em 2000, eu patenteei nos maiores países do mundo. E tenho a patente concedida. Pablo Silva (argentino que também é um dos responsáveis pelo spray) teve uma ideia similar em 2004, mas como eu já estava engajado, tive uma visão maior e uni os dois projetos. Brasil e Argentina jogaram juntos nesta oportunidade”, afirma o mineiro. “O projeto não é comercial. Não ganho nada. Tudo foi feito de forma institucional, não houve transação financeira. O futebol, com a grandeza que tem, não tinha uma solução para isso. Eu joguei junto com o futebol”, exalta.

Além de ter criado o famoso spray, Heine também apoia outros tipos de tecnologias no futebol, mas com certas ressalvas. Para ele, há que tomar cuidado para não prejudicar a igualdade entre os times no esporte.

“O que torna o futebol o mais popular do mundo é o lado humano. O spray não vai contra a regra. Quando se fala em inovações para o futebol, tudo é extremamente saudável. A tecnologia pode ajudar muito. Minha visão é a de que tudo que possa melhorar a análise é válido”, opina. “Não pode ferir a igualdade, separar o futebol profissional do amador. A magia do futebol é essa: não haver um distanciamento”, continua.

Por fim, Heine Allemagne deu sua visão sobre a atuação, em geral, dos árbitros na Copa do Mundo de 2014 e revelou, com exclusividade à Jovem Pan, uma proposta que chegou a apresentar à Fifa. 

“A Fifa está sempre amadurecendo a sua qualidade técnica. Tenho visto que os árbitros estão com mais personalidade. O fator humano é muito pessoal, cada um sente a pressão de um jeito”, pontua. “A posição (de árbitro) sempre foi delicada. Eu cheguei a sugerir à Fifa a criação de um fundo mundial da arbitragem, uma verba especifica para investimento na formação do árbitro, mas não sei dizer se vai ser colocado em prática”, finaliza Allemagne.