Moradores do Jacarezinho simulam precariedade da saúde pública em protesto

  • Por Agencia EFE
  • 10/05/2014 13h53

Rio de Janeiro, 10 mai (EFE).- Uma simulação na qual foi retratado o precário atendimento em hospitais públicos brasileiros, com pessoas morrendo nas filas de espera e pacientes atendidos no chão, marcou neste sábado um protesto contra a realização da Copa do Mundo no Rio de Janeiro.

O setor de emergências de um hospital público, com macas, remédios, seringas, estetoscópios e pessoas vestidas como médica ou enfermeira, foi encenado em uma das estreitas vielas da Favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio.

Os próprios moradores da comunidade simularam o funcionamento do hospital. Havia pessoas fazendo fila para serem atendidas, portas fechadas, macas no corredor, médicos sem condições de atender, enfermeiros sem remédios, familiares chorando e outras cenas comuns de alguns precários hospitais públicos do país.

A encenação, promovida pela ONG Rio de Paz e que atraiu dezenas de jornalistas e curiosos, foi montada sobre uma viela que os moradores do Jacarezinho haviam decorado previamente como tradicionalmente fazem na época de Copa, com bandeirinhas, pinturas nos muros e outros artigos e imagens referentes ao evento.

“Decorar a rua para o Mundial faz parte da cultura brasileira. Mas hoje, pela primeira vez, a população de uma comunidade pobre decidiu decorá-la de uma forma diferente e dar um sentido político: ao lado das bandeirinhas e do solo pintado, montamos a emergência de um hospital público para protestar contra essa inversão de valores”, declarou o presidente da ONG, Antonio Carlos Costa, à Agência Efe.

A maioria das manifestações contra a Copa do Mundo, que começa em 33 dias, cobra que serviços básicos como saúde e educação recebam o mesmo investimento milionário dos estádios construídos no “padrão Fifa”.

“Trata-se de uma clara inversão de valores. O governo, sem consultar o povo, fez investimentos milionários em uma competição esportiva de quatro semanas, que não terá nenhum retorno para a população, especialmente a mais pobre, enquanto mantém abandonadas as escolas e os hospitais”, acrescentou Antonio Carlos.

O líder da ONG destacou que a população do Jacarezinho participou em peso e com entusiasmo da chamativa e pacífica manifestação, motivados pela histórica falta de acesso a saúde e educação.

“Todos aceitaram participar, pintaram a rua e quiseram ser atores. Eles entendem claramente que o governo não podia desperdiçar tanto dinheiro público na Copa e esquecer dos pobres”, afirmou.

Antonio Carlos disse que a Rio de Paz escolheu o Jacarezinho para seu protesto por se tratar de uma favela que é conhecida como local de conflitos entre policiais e traficantes. EFE

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