Opostos? E daí? Como Audax e Leicester desafiaram a lógica e peitaram gigantes

  • Por Bruno Landi/Jovem Pan
  • 28/04/2016 17h02

Grêmio Osasco Audax e Leicester têm assombrado em seus respectivos campeonatos

Grêmio Osasco Audax e Leicester têm assombrado em seus respectivos campeonatos

Um, na elite há apenas três anos, é finalista do Campeonato Paulista. O outro, que há uma temporada lutava para não cair, está a apenas três pontos do título inglês. É impossível não se arrepiar com o que Grêmio Osasco Audax e Leicester City têm feito neste primeiro semestre de 2016. Times pequenos e com muito menos recursos que seus principais concorrentes, ambos desafiaram a lógica para surpreender favoritos e peitar gigantes. E o detalhe: com filosofias de jogo completamente opostas. Se o Audax batalha por cada metro de campo para ficar com a bola, o Leicester simplesmente abre mão dela para se fechar ser competitivo. Como é possível que dois estilos tão distintos sejam igualmente eficientes? 

A explicação é simples: tanto Audax quanto Leicester trabalharam duro para desenvolver modelos em que a coletividade valesse mais que a qualidade individual. Tudo bem, Tchê Tchê, Camacho e Ytalo, pela equipe de Osasco, e KantéMahrez e Vardy, pelos Foxes, são exemplos de atletas qualificados, capazes de fazer a diferença. Mas é inegável: eles têm o trabalho facilitado por sistemas que, apesar de distintos, são igualmente bem definidos. O importante é que tanto o Audax, com a sua obsessão pela posse de bola, quanto o Leicester, com a sua vocação pelo jogo direto, sabem o que têm de fazer entre as quatro linhas. 

Um jogo que tem 11 atletas de cada lado sempre foi coletivo, mas isto fica cada vez mais importante agora, em que os espaços são cada vez menores. Hoje, a ocupação de espaço, que é feita de forma coletiva, é fundamental. Isso não quer dizer que o talento individual não tenha importância, mas eu o coloco como um diferencial de um time bem arrumado, opinou Bruno Prado, comentarista da Rádio Jovem Pan. “Você precisa ter jogadores de qualidade, óbvio, mas, para um time ser bom, não precisa ter necessariamente um MessiNeymar ou Cristiano Ronaldo. Uma coisa complementa a outra. Tão fundamental quanto ter atletas de boa qualidade é ter um coletivo forte“, acrescentou.

O trabalho coletivo, então, é a fórmula do sucesso de Audax e Leicester. Mas isto não soa um tanto quanto superficial? Sem dúvidas. É necessário se aprofundar em cada caso. O time paulista surgiu como Pão de úcar Esporte Clube. Depois de alguns anos, virou Audax e se associou ao Grêmio Osasco, tornando-se o atual Grêmio Osasco Audax. Aqui, é necessário ressaltar a importância de Mário Teixeira, executivo ligado ao Banco Bradesco e que sempre apostou no esporte da cidade de Osasco. Ele é o dono do Audax, clube-empresa que tem ótima estrutura e sempre pagou os seus atletas em dia. 

Dentro de campo, o time é comandado pelo técnico Fernando Diniz, que tem apenas 42 anos e, desde os tempos de jogador, é um estudioso do futebol. Diniz está no Audax desde 2013 e tem como missão fazer a equipe jogar um futebol competitivo. Mas ele não optou pelo caminho mais comum. O jovem ousou e montou um time que adota uma filosofia um tanto quanto rara no Brasil. “O Audax é um time que quer ter a bola, que quer jogar no campo de ataque e quer ser protagonista da partida mesmo sem ter jogadores com a mesma qualidade dos que atuam em grandes clubes“, explicou Bruno Prado. 

Mas a equipe de Osasco não é somente aquela que “não dá chutões”, “sai jogando até com o goleiro” e “toca a bola sem parar”. Ela preza a manutenção da posse de bola, é verdade, mas só consegue fazer isto porque seus atletas não guardam posição, jogam muito próximos uns dos outros e se movimentam em sincronia absurda. Quando todos os jogadores atacam e defendem com a mesma intensidade, é sinal de que muitas horas de treino foram gastas. Não à toa, o Audax comete poucas faltas, finaliza muito e passa a bola com extrema qualidade. Trata-se de um futebol vistoso? Sim. Mas que, acima de tudo, também é competitivo  prova disto é que o time eliminou São Paulo e Corinthians para chegar à final do Paulista.

Se o sucesso do Audax é fruto de um trabalho de médio prazo, que se desenvolve há pelo menos três anos, o do Leicester beira o acaso, de tão surpreendente e fulminante. Depois de dez temporadas longe da elite nacional, o time inglês voltou à primeira divisão em 2014/15. A experiência foi traumática: os Foxes lutaram incessantemente contra o rebaixamento e só se salvaram porque fizeram uma reta final de Premier League estrondosa – com sete vitórias nos últimos nove jogos. Para a temporada seguinte, o italiano Cláudio Ranieri, então em baixa e com 63 anos, foi contratado. A missão dele? Segurar o time na primeira divisão por pelo menos mais um ano. 

O treinador, contudo, conseguiu superar qualquer expectativa. Depois de 35 rodadas, o Leicester é o líder isolado da Premier League e está a apenas três pontos de, pela primeira vez na história, sagrar-se campeão nacional. “O Leicester é uma surpresa muito maior do que o Audax. Pelo campeonato que ele disputa, que é muito rico, e por se destacar em uma competição de pontos corridos, disputado em 38 rodadas... É uma zebra enorme. Eu diria que, nos últimos 20, 30 anos, não me lembro de uma zebra deste tamanho no futebol europeu“, afirmou Prado. 

Para chegar ao topo, o Leicester apostou num modelo extremamente pragmático – em oposição ao Audax, que optou pela ousadia para conseguir rivalizar com os grandes de São Paulo. O time inglês abusa das bolas longas, não hesita em dar chutões para se livrar de situações complicadas e adota uma ideia basicamente defensiva – embora eficiente. “Em quase nenhum jogo o Leicester tem mais posse de bola que o adversário. Ele não quer a bola. A estratégia dele é deixar a bola com o adversário, fechar-se bem, não necessariamente no campo de defesa, e contragolpear. As linhas de jogadores estão sempre muito próximas e o contra-ataque é muito rápido, muito forte, avaliou Bruno Prado, fã da intensidade da equipe inglesa. 

Mas não pense que tal ideia dará certo em qualquer equipe pequena. Para o comentarista da Rádio Jovem Pan, o sucesso do Leicester é, também, consequência da forma como a Inglaterra joga futebol atualmente“O jogo inglês é muito direto, de muita correria, e, às vezes, isto iguala times desiguais. Como as partidas na Inglaterra são muito lá e cá, o time que é melhor tem chances, é claro, mas também dá muitas oportunidades ao rival, mais fraco“, avaliou Bruno Prado. 

Dificilmente a gente vê no Campeonato Inglês um time dominando o jogo, tomando conta da posse e não deixando o adversário criar. É uma partida muito corrida, então o grande ataca, o pequeno contra-ataca, e fica uma infinidade de chances para os dois lados. É legal de assistir, mas não dá para perceber a superioridade do grande contra o pequeno, acrescentou. “O título do Leicester, sem querer tirar o mérito dele, vai servir como um alerta aos grandes clubes da Inglaterra. Bastou uma equipe ter o mínimo de organização para conseguir fazer sucesso“, finalizou.

Mas e daqui para frente? Será que Grêmio Osasco Audax e Leicester vão continuar fazendo bonito nos campeonatos que disputarem? Com a palavra, Bruno Prado: “Audax tem condição, sim, de crescer. E, aqui, crescer não é ganhar o Paulista. O Ituano também ganhou em 2014 e pouca coisa aconteceu desde então. Eu falo em âmbito nacional. Talvez subir de divisões, chegar à Série B do Campeonato Brasileiro“, apostou, antes de fazer uma ressalva. 

Mas tem uma coisa: o Audax depende muito de um cara, que é o seu Mário Teixeira. Se ele deixar de investir e se ninguém continuar com este trabalho, a tendência é que o time acabe ou pare de jogar em alto nível. É diferente do Red Bull, por exemplo, que chegou duas vezes às quartas de final do Campeonato Paulista e tem uma empresa por trás. Se sai um presidente, entra outro, e a filosofia continua. A tendência é que o futuro do Red Bull seja até mais promissor do que o do Audax, opinou. 

Sobre o Leicester, Bruno é mais pessimista ainda – principalmente por causa da chegada de um certo técnico espanhol que promete revirar a filosofia de jogo inglesa. “Provavelmente o time vai perder alguns jogadores e, com a chegada do Guardiola à Premier Leaguepara treinar o Manchester City, muita cosia vai mudar. Esse jogo muito rápido, muito direto, que costuma igualar as forças entre grandes e pequenos, deve mudar. É bem provável que não só o City, como ooutros times ingleses, sigam este modelo de protagonismo, de querer ter a bola, e aí vai ficar ainda mais difícil que alguma equipe de menor porte surpreenda“, encerrou. 

É bom, então, que desfrutemos o máximo possível deste momento histórico. Não é todo dia, afinal, que clubes como Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Manchester UnitedChelsea e Arsenal são obrigados a ceder espaço nos noticiários para zebras do calibre de Audax e Leicester. É diferente? Sem dúvidas. Mas, ao mesmo tempo, espetacular.