Nathalie Moellhausen crava aposentadoria em 2020 e cita ‘missão’ de popularizar a esgrima no Brasil

Em julho, atleta conquistou o primeiro ouro do País em um mundial do esporte

  • Por Pedro Sciola
  • 02/08/2019 07h01
Flavio Florido/Exemplus/COBNathalie Moellhausen, campeã mundial de esgrima em 2019

Nathalie Moellhausen, primeira campeã mundial de esgrima pelo Brasil, no último dia 18, em Budapeste (Hungria), não quer viver apenas de sua glória e busca difundir o esporte no país que a acolheu. Nascida e criada em Milão (Itália), ela é neta de brasileira e começou a disputar pela nação verde e amarela em 2012. Em entrevista à Jovem Pan, a esportista revelou planos para popularizar a modalidade e pediu mais investimento do governo.

A esgrimista vê o esporte engatinhando no Brasil e entende que um trabalho de base precisa ser feito para formar novos campeões. Antes de Nathalie, o Brasil não havia sequer alcançado o pódio em um torneio desta importância.

“Então, no Brasil, precisamos partir nas raízes, nas futuras gerações, que não é a geração da Olimpíada de Tóquio-2020 e nem a de Paris-2024, mas para daqui 10 anos, 12 anos. Eu demorei 14 anos para ganhar um Mundial. Todo mundo pode ter tempo e paciência para esperar que uma pessoa possa ganhar. Mas tem que começar agora! Agora é o momento de preparar as futuras gerações”, disse a atleta de 33 anos, em conversa exclusiva.

“Para isso, acho que precisa de mais interações. Eu e o meu treinador estamos disponíveis para ir ao Brasil e aproveitar para expor mais, inspirando os treinadores brasileiros. Porque tem que se enriquecer do conhecimento da Europa, como fizeram os chineses, os asiáticos, os americanos. Eles não sabiam fazer esgrima, mas não tem problema. Ninguém nasce sabendo fazer. Mas eles se formaram e aprenderam. Eles foram fazer formação com meu treinador, foram à França, à Itália”, continuou.

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I’ve been waiting one year to publish this special picture..This was the image I had printed in my mind every day since you have gone. My dream was actually to live again that moment of glory together on the fencing piste . We had a deal and no matter what I would have respect it. 13 years ago, You have pushed me to move to Paris, to open my mind and feed my person with different cultures, people and experiences out of my sport life. You taught me the art of living on our own way, to get rid of any social rules, and break them to do what others would not do. I follow your philosophy of freedom and become a bird flying out of the flock . You were the first to teach me that everything was in my mind. That it didn’t matter the external world, negative episodes, bad or good people, strong or weak opponent. That is how I start my long journey inside myself, to face those emotions and their origin to grow as a person first and then as a fencer. And finally I proved that you were totally right, that energy flows where attention goes. Love was your battery and you asked me to surrender the mystery of the universe and believe in the Magic. It was not that easy, felt lost in track many times, until you showed me that the more a tennis ball falls down, the more it bounces up. That day I understood I need to wait for my time and accept the process. And the 8th of march 2018, you suddenly disappear, leaving to me your last and best lesson : life is about the present moment, no future to be afraid of, no past to regret. I actually deeply realize we are mortal. Since that day, I enjoy this sense of mortality cause It warns me to be aware on the present moment and fight to survive. I’ve realizes we all have an extra strength we don’t know we have. It is with this sense of surviving that I jump on the piste this time and enjoyed every single touch of my fights. On my last touch of priority to win, I simply took a long breath as it was my last one and let me go. You had already made my life magic when you were alive and now even from the sky. This golden medal is yours, as best father of the world. Thank you to have been part of my journey.

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Nathalie enxerga como fundamental para o desenvolvimento da esgrima no país uma maior interação dos técnicos do Brasil com os europeus.

“A raiz é a formação dos treinadores. Sem isso, é complicado conseguir criar um interesse no país. Tem bons treinadores, mas por causa da falta de inversão neste esporte, eles também não podem ir para a Europa ou chamar os treinadores para o Brasil. A base está pronta, existem treinadores e eles estão motivados, mas agora falta dinheiro para fazer com que esse projeto seja mais forte e tenha mais interações entre a Europa e o Brasil”, analisou.

“Eu comecei na escola. Depois o treinador da escola me detectou como boa esgrimista, e depois eu fui ao clube com oito anos. Agora, o mais importante, que é um projeto que eu já tinha começado a escrever e apresentei ao Comitê Olímpico dos Jogos Olímpicos de 2016, é muito importante a formação dos treinadores. Eu lembro que quem fez a diferença na minha vida foram os treinadores”, completou.

Nathalie cobra investimentos

Pouco popular no Brasil, a esgrima é um esporte pouco acessível e ainda desconhecido. Nathalie espera que sua conquista mude este panorama e pede por mais dinheiro na modalidade. Ela, por exemplo, relata que precisa conciliar o trabalho com os treinamentos para arcar com todos os custos.

“E a minha missão é fazer com que o esporte – graças a este resultado – possa ser mais popular e dar mais possibilidade de desenvolvimento do esporte. Essa é a coisa mais importante para mim. Vou para o Brasil a partir do dia 20 de agosto para poder divulgar junto com meu treinador, dar aula de esgrima, fazer exibições. Acho que um outro projeto interessante é para as empresas. Empresas que não são de esgrimas, empresas de outros produtos, de qualquer coisa e que precisam saber a história de como uma atleta chegou a este resultado. Isso pode ser um conselho de dia a dia, um conselho para qualquer pessoa. Eu estou aberta a poder compartilhar minha experiência pela esgrima e para outras pessoas”, afirmou.

Para Nathalie, falta “coragem” às instituições para investir dinheiro no esporte desde a base. Para ela, o resultado é a longo prazo, o que dificulta o aporte financeiro das autoridades no país. Na visão dela, uma ideia seria tornar a esgrima uma prática acessível nas escolas.

“Se eu fosse ministra do Esporte, seguramente faria todo um projeto que investiria na esgrima e em outras áreas. O problema principal é o medo de investir o dinheiro. Porque investir dinheiro significa: ‘quando eu vou recuperá-lo?’. Eu demorei muito tempo, investi dinheiro do meu bolso e ok. Agora, 14 anos depois, eu estou recuperando. É bom assim. O problema é o investimento para o futuro e ter essa inversão. Acho que é isso que está faltando. Falta coragem de investir. Espero que o meu resultado seja uma demonstração de que tem muito para fazer e muito construir”, cravou.

Emoção após o título Mundial

Imediatamente após vencer a chinesa Sheng Lin, número 13 do ranking mundial, na final, Nathalie foi às lágrimas e não escondeu a emoção de levar o título mais importante da modalidade. Nathalie conta que passou um filme em sua cabeça e lembrou da morte do pai, seu incentivador, que faleceu em março do ano passado.

“Foram muitos anos, muitas expectativas sobretudo depois que eu comecei a lutar pelo Brasil. O meu desejo era realmente ganhar pelo Brasil e poder mostrar que, realmente, o trabalho que eu estava fazendo era para o Brasil. Então, teve essas conjunções de fatores que fizeram com que a emoção fosse muito forte”, detalhou.

“A minha história também, que não foi fácil durante todos esses anos de formação. Eu perdi o meu pai no ano passado e ele era uma pessoa muito importante na minha formação. E eu queria ganhar e dedicar essa vitória para ele”, prosseguiu.

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One week ago at this time my dream became true. ✨?✨ And this happened thanks to all these people : @levavasseurdaniel my fencing master @nataliosimionatochef my husband and chef cuisine. My family : all my sisters ( @n__moellhausen , @maximecla, @gatsbyrobin, @tatum_moellhausen ), my mum, my daddy, my grand mother. And also my special aunt @alessandraferlini. Clement Zabrocki my personal physical traininer @clemenza_ft Bruno reignard, bio – ernergy and karate master Valerie Coruzzi Psicologiste Berni Garcia Nutritionist Michel Temer chiropracteur Jean Christophe and Valerie hosteophates Aurelie Fournier @naki.par.aurelie reki therapiste Monique Majerovick my company @5touches coordinator and right hand Thanks to all my friends who have supported me and believe in me. A special thanks to my best friend Lorenzo Norsa @lonorsa who has been my best fencing advisor . Thanks to all my sparring partners at #teamescrimelevavasseur And thanks to Ville St Maur for training infrastructures. Obrigada a todo o team brasil A Confederação de esgrima brasileira. Ao meu club pinheiros @ecpinheiros pelo apoio E ao Comite Olympico Brasileiro. Thanks to @negrinifencing I hope I didn’t forget anyone. There are so many other persons who has been part of my journey in different phases and they know they have improved my life. So thanks to all of them too.

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Na comemoração, Nathalie beijou uma tatuagem, gesto que indagou muitos torcedores. À Jovem Pan, ela contou que foi uma forma de homenagear o pai.

“Eu fiz a tatuagem na mão esquerda, que é a mão que eu uso nos combates. E fiz do número 8, que era o número preferido do meu pai e qui tinha toda uma simbologia importante na vida do meu pai. Então eu resolvi tatuar esse número porque ele tinha uma visão da vida onde o tempo não é linear, ele é circular. Tipo, não tem diferença no mundo após e no mundo antes da morte. Então, eu fiz essa tatuagem para me dar forças naquele momento de combate – porque eu queria ganhar ainda mais após a morte dele”, disse.

Opção por defender o Brasil gerou revolta 

Nathalie nasceu em Milão, começou a praticar esgrima aos cinco anos de idade e representou a seleção italiana em diversos campeonatos. Pelo país europeu, inclusive, disputando por equipes, ela ganhou Ouro no Mundial de 2009. No entanto, em 2012, ela optou por representar o Brasil e gerou polêmica.

“Olha, como sempre falava Napoleão: falem bem ou falem mal, mas falem de mim. Quando você faz algumas escolhas na vida, é normal algumas pessoas gostar e outras não. E fazer uma escolha significa renunciar outra coisa. Eu renunciei a Itália, algumas pessoas não gostaram. Mas sei que muitas pessoas têm consideração por mim na Itália. Se depois ficaram feridos por isso, entendo, respeito, mas cada um tem que ir em frente na sua vida. Não pode ficar triste pelo o que os outros pensam”, declarou.

Segundo a esgrimista, a escolha pelo Brasil ocorreu justamente por querer fazer parte de um processo de fomentação do esporte no país, além de um pedido de sua avó.

“Na verdade, eu sempre fiquei muito fascinada pelo Brasil. Pelo fato de até os 12 anos eu ia para o Brasil. Então eu sempre fiquei muito fascinada pelo Brasil, sua cultura e todo o país. Minha avó sempre falava para eu fazer isso [representar o Brasil]. Depois, em 2012, eu pensei… Como eu tenho um projeto maior, que é de divulgar a esgrima como arte, projeto social, humano e tudo. Meu compromisso com a esgrima não é ser somente uma atleta, é realmente divulgar a arte para o mundo inteiro. Então eu achei que em 2012 foi um momento chave na minha vida, muita coisa estava mudando e achei que tudo que eu tinha ganhado com a Itália, já tinha acabado”, falou.

Nathalie crava aposentadoria em 2020

Nathalie irá disputar o Pan-Americano, em Lima, neste mês. Ela embarca no próxima dia 5 e inicia os combates no dia 9. Questionada sobre favoritismo, ela admitiu, mas acredita que isso não é o fator importante para definir o vencedor. Além disso, ela revelou que a Olimpíada de 2020 será a sua última competição oficial antes de se aposentar.

Depois, ela tem planos de focar no seu projeto. Empresária, ela fundou Cinco Toques, companhia que tem como objetivo desenvolver o esporte no Brasil de maneiras diferentes.

“Eu, realmente, quero que esse projeto divulgue a esgrima através de formas de comunicação que não são só aquelas do esporte. Por exemplo, o serviço terá cinco categorias: organização de eventos, fitness a domicílio, uma linha de moda, um serviço de ajuda de preparação mental e preparação física. São esses cinco toques. O que eu estou fazendo é um branding. É fazer da esgrima um branding, utilizando a minha imagem de campeã mundial”, finalizou.