Recuperar a credibilidade: a desafiadora missão do novo presidente da Fifa

  • Por Luiz V. Andreassa/Jovem Pan
  • 24/02/2016 23h15
Novo presidente da Fifa terá muito trabalho para consertar a imagem da entidade

Escândalos, prisões, suspensões, renúncias. A Fifa vive, desde o dia 27 de maio de 2015, o momento de maior turbulência de sua história, quando diversos dirigentes foram presos pelo FBI e pela justiça da Suíça. Por conta da “bomba” que estourou naquele dia, meses depois o presidente Joseph Blatter renunciou ao cargo e anunciou a realização de uma eleição para escolher seu substituto. O dia dessa eleição (quase) chegou: nesta sexta-feira, as federações nacionais ligadas à Fifa escolherão o novo comandante da entidade entre cinco candidatos: Gianni Infantino, Jérôme Champagne, Ali Bin Al-Hussein, Salman bin Ebrahim Al-Khalifa e Tokyo Sexwale.

Uma vez escolhido, o presidente da Fifa terá sua grande missão bem definida: recuperar a credibilidade da instituição que comanda o futebol no mundo. “O principal desafio é conseguir resgatar a credibilidade do futebol. As pessoas não querem só um espetáculo de qualidade, querem saber da procedência dele. Eu comparo (esta situação) com o que aconteceu com a Igreja Católica com o Papa Francisco. Tínhamos um cenário com dúvidas, as pessoas viam a entidade fechada, e agora as que tinham se afastado da Igreja voltam pela figura agregadora do Papa”, afirma Roberto Braga, coordenador na Universidade do Futebol.

A que a missão é mais fácil na teoria do que na prática, até porque a Fifa não se meteu no buraco em que está por conta da ação de um ou dois dirigentes. “É uma cultura institucional, a Fifa está nesse modelo há muito tempo. O candidato eleito vai estar fora da estrutura viciada? Caso esteja, será que vai ter força para combater as resistências internas? Estamos falando da presidência, de secretários, de altos cargos, de representantes das federações”, aponta Anderson Gurgel, especialista em comunicação esportiva e professor de jornalismo esportivo. Ele ainda cita a CBF como exemplo dessa dificuldade, pois “continua como uma caixa fechada, quase impassível perante o clamor de mudanças”.

Além do uso do futebol, e do esporte em geral, como área para a prática da corrupção, o próprio jogo político envolve interesses complexos. “Quando é uma esfera global, de pessoas de culturas e contextos diferentes, como no futebol, agregar é muito difícil. São países completamente diferentes. Por exemplo: como conciliar o futebol de Angola, da França e da Guiana Francesa? Fazer esse tipo de proposição, de trazer as pessoas, é muito difícil. A pluralidade talvez seja o grande desafio”, completa Roberto Braga.

A pressão para mudar a imagem da Fifa, entretanto, não vem apenas do público. Na verdade, o que mais pesou até agora foi o posicionamento dos patrocinadores da entidade. “O momento-chave da queda do Blatter foi quando essas empresas começaram a pressionar, porque a imagem delas estava sendo afetada. Neste momento (o que importa) é muito mais a força econômica do que a política. As estruturas são muito mais sensíveis em relação à perda de dinheiro”, explica Anderson Gurgel.

Mas isso não quer dizer que a pressão da opinião pública não possa surtir efeito. Neste sentido, Roberto Braga se mostra otimista. “Nós temos ferramentas, temos pessoas no mundo inteiro, o futebol é o esporte mais aclamado do planeta. E há pessoas com condições de fazer isso, fazer uma estrutura para que isso seja aplicado. Não é fácil, mas sou otimista. Com mudanças pontuais, as possibilidades são muito grandes de mudanças positivas no futebol”, prega.

Além do que os olhos podem ver

Entretanto, recuperar a credibilidade e a confiança junto ao público e aos patrocinadores não é a única tarefa que o novo presidente da Fifa terá de realizar, até porque “resgatar a credibilidade, no mundo ideal, nem deveria ser necessário”, conforme observa Roberto Braga. Outra missão apontada pelos especialistas é desenvolver o futebol como ferramenta de desenvolvimento social.

“(É preciso) Melhorar tudo que tange ao futebol, tanto campeonatos quanto ligas. Se aproximar das pessoas, pensar em formas de promover uma gestão mais descentralizada, que mais pessoas possam colher os frutos. Fazer com que os jovens queiram estar juntos, semeados pelo futebol. No Brasil foi feita uma pesquisa segundo a qual a prática do futebol é superada pela ida à academia e atividades físicas mais individuais e não esportivas. É um desafio mundial, fazer com que pratiquem futebol de forma social”, afirma o coordenador da Universidade do Futebol.

Outro ponto que merece atenção é a realização da Copa do Mundo. “Talvez seja possível melhorar a relação dos comitês com a sociedade, investir menos em luxo. O discurso em 2014 era de legado para a população, mas o legado foi o lucro da Fifa. Nesse modelo não tem como a Fifa ficar com uma imagem melhor. Todo mundo ama a Copa, mas ela tem de ser mais sustentável. Os Jogos Olímpicos têm essa preocupação de mudar o modelo. Um dos desafios é buscar um modelo de relações com os países mais social, ético e sustentável”, aponta Anderson Gurgel.