Rodízio, Libertadores e mercado: por que futebol do SP “murchou” em 45 dias

  • Por Jovem Pan
  • 29/06/2016 11h55

São Paulo venceu apenas três dos últimos dez jogos disputados na temporada

São Paulo venceu apenas três dos últimos dez jogos disputados na temporada

Não é mera impressão: o São Paulo que, em 18 de maio, não se aguentou de felicidade e voltou ao gramado do Estádio Independência para celebrar a vaga à semifinal da Libertadores não é o mesmo São Paulo que saiu do Pacaembu abatido pela incontestável derrota para o Santos, no último domingo, pelo Campeonato Brasileiro. Os jogadores escalados por Edgardo Bauza nas duas ocasiões não foram os mesmos, é verdade, mas não dá para ignorar que, durante os 45 dias que separaram o Horto do Pacaembu, o futebol do time tricolor encolheu  em aspectos anímicos, táticos e técnicos. 

Seria ingenuidade comparar o espírito de uma equipe pilhada por uma emocionante classificação na Libertadores com a aura de um time que, desde então, só entrou em campo para disputar partidas de um campeonato de pontos corridos. Mais ingênuo ainda seria fechar os olhos para a nítida queda de rendimento dos comandados por Edgardo Bauza durante este período. Desde a doce derrota por 2 a 1 para o Atlético-MG, em Belo Horizonte, foram dez partidas disputadas pelo São Paulo e uma grande marca: a inconstância. Na última dezena de partidas, o Tricolor acumulou três vitórias, três empates e quatro derrotas. Um mísero aproveitamento de 40%. 

O momento, definitivamente, não faz o torcedor são-paulino ter a segurança de que o time será finalista da Copa Libertadores daqui a algumas semanas. Mesmo tendo perdido jogadores importantes desde a classificação à semifinal, no mês passado, o Atlético Nacional, da Colômbia, ainda põe pulgas atrás das orelhas tricolores. Muito, é claro, por causa da involução do São Paulo nos últimos 45 dias. O próprio clube paulista admite que vive um perigoso momento de irregularidade às vésperas das partidas mais importantes da temporada.

Em entrevista exclusiva a Beetto Saad para o Plantão de domingo, da Rádio Jovem Pan, o auxiliar-técnico do São Paulo, Pintado, revelou que Edgardo Bauza se incomodou com a queda de rendimento do time e até convocou uma reunião com os integrantes da comissão técnica tricolor para falar sobre o tema nos últimos dias. Os motivos da piora são-paulina foram, então, discutidos. E eles passam por três fatores.

O primeiro deles é o rodízio que, por opção ou necessidade, Bauza se viu obrigado a fazer. Seja por lesões, desgaste, suspensões, problemas pessoais ou convocações, o técnico argentino só conseguiu repetir a escalação do São Paulo uma vez nos últimos dez jogos. O time titular, que superou Toluca e Atlético-MG nos dois últimos embates da Libertadores, não foi mandado a campo nenhuma vez desde 18 de maio.  

Internamente, acredita-se que o São Paulo se prejudicou muito por não ter conseguido manter uma escalação-padrão no último mês e meio. Em condições ideais, Bauza optaria por mexer o mínimo possível na equipe, que, entãoganharia mais entrosamento e, por que não, um certo repertório. Mas não foi possível. Os problemas se amontoaram, e o time apresentou tantas caras nos últimos dez jogos, que, agora, corre o risco de chegar sem nenhuma para os confrontos com o Atlético Nacional. 

Já é certo, por sinal, que, da equipe-base que jogou o mata-mata da Libertadores, Kelvin não terá condições físicas de entrar em campo ao menos no jogo de ida das semifinais. Maicon foi mantido no clube após longa e cansativa negociação com o Porto, é verdade, mas as preocupações ainda existem. Afinal, nos 40 dias que teve pardar ainda mais rodagem ao timeBauza não conseguiu escalar os 11 jogadores que praticaram o melhor futebol da equipe na temporada. 

“Ter de trocar o time a todo momento, por necessidade, é muito complicado”, admitiu Pintado. “O São Paulo tem uma equipe-base que rende muito bem, é estável e consegue gerar mais confiança a todos nós. Mas ela é muito jovem… Com as modificações necessárias por contusão, calendário e planejamento para a Libertadores, perdeu um pouco de força e acabou tendo dificuldades em jogos contra grandes rivais“, acrescentou. 

O segundo fator que explica a queda de rendimento do São Paulo nas últimas semanas diz respeito à própria Copa Libertadores da América. A parada de mais de um mês do torneio por causa da realização da Copa América Centenário fez com que o time praticamente abrisse mão de dez rodadas do Campeonato Brasileiro para se preparar apenas ao próximo compromisso continental. Pintado admite que, dentro de campo, o clube só pensa na competição organizada pela Conmebol – o que certamente explica a irregularidade da equipe nas dez partidas disputadas desde 18 de maio, todas pelo Brasileirão. 

“O Brasileiro é muito importante, e o São Paulo sabe que jogar uma competição deste nível demanda sempre uma grande responsabilidade… Mas é impossível que os atletas e funcionários do clube se esqueçam de que estão em uma semifinal de Libertadores, vivendo um momento especial para o clube e para o torcedor… A Libertadores é, sem dúvidas, o momento mais importante para a gente”, confirmou Pintado, embora ciente de que existe, sim, o risco de o time não conseguir recuperar o padrão de antes da parada. 

Se o rodízio e a priorização à Libertadores contribuíram para a visível involução são-paulina no último mês e meio, as negociações nas quais o clube se envolveu recentemente também ajudaram a tornar turbulento o ambiente tricolor, tão marcado por problemas políticos nos últimos anos. A permanência de Maicon mobilizou torcedores, dirigentes, jogadores e até custou o cargo de diretor de futebol a Luiz Cunha; o lento processo de renovação de Paulo Henrique Ganso movimentou ainda mais os bastidores são-paulinos; e a polêmica anulação da contratação de Getterson também atraiu holofotes desnecessários ao clube nos últimos dias.  

Internamente, fala-se em “dia-a-dia intenso e “muitos problemas a serem resolvidos” no São Paulo. Nenhum deles, contudo, pode se sobressair ao que começará a ser encarado pelo tricampeão da América no próximo dia 6 de julho, no Morumbi. Se esbanjou irregularidade e abusou da inconstância nas últimas semanas, o São Paulo não poderá se permitir ter altos e baixos tão impactantes diante do Atlético Nacional, pela semifinal da Libertadores. Caso contrário, o sonho do tetra vai escorrer pelos dedos e se esvair pelo ar.