Volta a Medellín faz Henzel reviver acidente: “era para todos termos morrido”

  • Por Jovem Pan
  • 13/05/2017 11h50

Rafael Henzel voltou a Medellín para transmitir a Recopa eRafael Henzel voltou a Medellín para transmitir a Recopa e

“Foi um milagre. Quando voltei para aquele morro, entendi por que 71 pessoas haviam morrido. Por mais que a gente lamente muito tudo o que aconteceu, foi um milagre gigantesco seis pessoas terem sobrevivido. Era para todos nós termos morrido”. A declaração do jornalista Rafael Henzel, concedida neste sábado, em entrevista exclusiva ao Jovem Pan No Mundo da Bola, dá o tom da emoção que tomou conta dos sobreviventes do acidente da Chapecoense na semana passada. A volta a Medellín, e, em especial, à colina com a qual o avião da LaMia se chocou, fez o filme de 29 de novembro de 2016 repassar pelas cabeças de Rafael Henzel, Neto, Alan Ruschel e Jackson Follmann.

“Eu entendi muita coisa voltando ao local do acidente”, revelou o jornalista de 43 anos, que considera ter nascido de novo no fim do ano passado. “Fiquei ainda mais impressionado, porque não tinha como sobreviver. Era um local muito acidentado, sem iluminação, com muitas árvores… Um tronco poderia ter perfurado o meu corpo, por exemplo. Só Deus, mesmo”.

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O jornalista, que trocou de lugar quatro vezes durante o trágico voo da LaMia, estava na parte de trás do avião quando ele se chocou com El Cerro Gordo – hoje rebatizado de El Cerro Chapecoense. Por isto, foi resgatado ainda na parte de cima do morro, preso entre os galhos de duas árvores – os dois colegas que estavam sentados ao seu lado morreram.

“Eu cheguei a despertar (antes de ser resgatado)… Pensei que era um sonho”, relembrou. “Você está no avião e, um minuto depois, acorda no meio do mato? É um sonho… Só pode ser… Daqui a pouco, vamos pegar um táxi e chegar ao hotel para dormir. Foi quando eu puxei uma perna, a outra, os braços, e descobri que estava bem. Mas, ali, entendi que havia ocorrido um acidente”.

Além de sofrer ferimentos no pé, Henzel quebrou sete costelas e contraiu pneumonia – sem falar nas cicatrizes que nunca o deixarão esquecer o trágico 29 de novembro de 2016. O que conforta o coração do jornalista é que nenhum passageiro do voo da LaMia sofreu nos minutos que antecederam a queda do avião.

“Não houve pânico, absolutamente nada. Ninguém sofreu. A diferença entre os que estão aqui e os que estão no céu é que alguns acordaram, e outros, não. Porque ninguém se lembra do impacto”, garantiu. “Eu cheguei a me assustar quando ouvi que o motor tinha apagado… Só se ouvia o barulho do vento. Mas eu acreditava que o piloto retomaria os motores. Passou um minuto, e eu me tranquilizei, porque pensei que, se fosse para o avião cair, ele teria caído imediatamente. Até falei para o meu companheiro: ‘o pior já passou'”.

Alguns minutos depois, no entanto, o avião caiu de barriga e vitimou 71 pessoas – dentre elas, o piloto Miguel Quiroga, apontado como um dos responsáveis pelo acidente. O boliviano, que também era um dos sócios da LaMia, decolou com quantidade de combustível insuficiente para completar a viagem dentro das normas de segurança – um imprevisto na chegada ao aeroporto de Medellín obrigou o avião a permanecer mais tempo no ar, provocando a pane seca.

“Eu me encontrei com a controladora de voo na semana passada… Ela me falou que o Quiroga só a avisou da pane total dois minutos antes de o avião sumir do radar”, lamentou Henzel. “Eu conversei com ele naquele dia. Como pessoa física, era maravilhoso, simpático, comunicativo… Foi a pessoa jurídica dele que deixou a desejar. Foi o piloto, o empresário, que transformou a exceção em regra. Ele pousou uma, duas, três, quatro, cinco vezes no limite do combustível, mas, daquela vez, não deu”.

A aeronave, de acordo com Rafael Henzel, estava em boas condições. “O avião não era ruim. Pelo contrário: era extremamente confortável. As pessoas associam o acidente ao avião, mas isto não está certo. Ele é tão vitima quanto a gente. Sem combustível, nenhum avião do mundo voa”, decretou, certo de que nunca deixará o dia 29 de novembro de 2016 cair em esquecimento. “Não podemos esquecer. Temos de lembrar sempre. Cada acidente aéreo tem de servir para que outros não voltem a acontecer”.

O acidente da Chapecoense completa seis meses daqui a três semanas, em 29 de maio. Na semana passada, os quatro brasileiros que sobreviveram à tragédia voltaram a Medellín para acompanhar a partida entre Atlético Nacional e Chapecoense, pela Recopa Sul-Americana. Depois de perder o jogo de ida por 2 a 1, em Chapecó, o time colombiano venceu por 4 a 1 e se sagrou campeão do torneio continental.