A grande muralha que separará o Quênia da Somália

  • Por Agencia EFE
  • 28/09/2015 21h23

Jèssica Martorell.

Nairóbi, 28 set (EFE).- Quênia e Somália, dois países vizinhos que são unidos por muito mais do que uma fronteira, podem ficar separados por um muro, afastando povos e famílias que durante anos não souberam o que é nacionalidade, para melhorar a segurança e evitar o terrorismo.

O governo queniano planeja construir esta barreira de concreto que cobrirá os 700 quilômetros de fronteira, apesar das múltiplas advertências sobre o grande impacto e as novas tensões que gerará entre a população.

Esta nova grande muralha separaria a zona fronteiriça entre Quênia e Somália, uma área majoritariamente árida e de chuvas imprevisíveis, onde a maioria de sua população é nômade.

“Se levantarem uma barreira, eles morrerão de fome. É extremamente provável que ocorra uma crise alimentícia”, advertiram à Agência Efe fontes da Organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

O pastoreio permitiu, desde tempos ancestrais, fazer frente à variabilidade climática para diminuir o risco e aproveitar ao máximo seus sistemas de produção.

A fronteira é só uma linha artificial para os quenianos e somalis da região, que durante anos viveram como parte de uma mesma comunidade que compartilha tradição e cultura sem entender o significado de ter um passaporte, explicou à Efe o coordenador da rede de pastores no Quênia, Michael Ole Tianpati.

A outra cara da moeda desta porosa fronteira – que oficialmente esteve fechada nos últimos oito anos – é o crescente número de ataques pelo controle da região.

O último massacre ocorreu em abril, quando os terroristas de Al Shabab assassinaram 148 pessoas na Universidade de Garissa, no norte do Quênia e muito perto da fronteira.

Apesar de o Quênia ter adotado drásticas medidas com o pretexto de combater o terrorismo, sua efetividade foi posta em dúvida por muitos. O muro é outra delas.

“Não vai servir de nada. O inimigo não está do outro lado da fronteira, está dentro do Quênia”, garantiu à Efe um analista em segurança regional que prefere manter o anonimato.

De fato, um dos terroristas que atacaram Garissa foi o queniano Abdirahim Abdulahi, filho de um político local da cidade nordeste de Mandera e um promissor advogado.

“Se eles querem evitar a passagem fronteiriça, o muro teria que contar com um grande apoio logístico: mais militares, tecnologia para coordenar os 700 quilômetros de fronteira… E o Quênia não está pronto para isso”, acrescentou, ressaltando que por isso “duvida que o governo finalmente realize seus planos”.

Do que não há dúvida é o impacto social “catastrófico” que representará esta grande muralha, advertiu o especialista, que dividirá em duas a vida de milhares de pessoas às quais restam poucas alternativas para sobreviver.

A falta de mobilidade fará com que muitas comunidades fiquem sem acesso a certos recursos naturais, o que poderia gerar novas tensões.

Muitos terão que emigrar a outras áreas e os que ficarem terão uma situação de extrema pobreza que favorece a radicalização e gera uma desordem sobre a qual Al Shabab lança suas redes de recrutamento, segundo alertam os especialistas.

“A população local está muito preocupada pela insegurança na fronteira, mas não acham que a construção do muro seja a solução. O pior é que o governo tomou esta decisão sem consultar o povo, que é o que realmente vive ali e sofrerá as consequências”, lamentou Ole Tiampati. EFE