A revolução de um povo contra a tirania

  • Por Agencia EFE
  • 16/12/2014 16h08

Brahima Ouedraogo.

Ouagadogou, 16 dez (EFE).- Após três dias de grandes manifestações, o povo de Burkina Fasso conseguiu o que muitos consideravam impensável: derrubar uma tirania de quase 30 anos liderada por Blaise Compaoré e implantar uma transição que permitirá a realização de eleições em novembro de 2015.

A revolta começou no dia 28 de outubro, quando milhares de cidadãos foram às ruas para protestar em Ouagadogou, capital do país, gritando “27 anos é o suficiente” em referência ao tempo de permanência de Compaoré no poder.

O estopim do movimento foi a tentativa do presidente de mudar o artigo 37 da Constituição, que o impedia de ser candidato pela quinta vez à reeleição.

Mas a manifestação esteve longe de ser algo pontual. Os burquineses permaneceram nas ruas do país. Depois, acabaram tomando e incendiando o parlamento para impedir a votação da medida.

Durante os protestos, 24 pessoas morreram e 625 ficaram feridas, segundo informações divulgadas pelo governo do país recentemente.

Por trás do clamor dos cidadãos contra presidente, estava a lembrança de Thomas Sankara, político conhecido como “Che Guevara africano” que liderou o país até 1987, quando foi assassinado durante o golpe de Estado que colocou Compaoré no poder.

“A revolução deve continuar onde Sankara a deixou”, repetiam os burquineses nas ruas e nas redes sociais, onde a revolução foi noticiada, especialmente via Twitter, minuto a minuto.

Assim, internautas de todo o mundo acompanhavam o incomum levante popular que obrigou a Compaoré a renunciar e abandonar o país no dia 1 de novembro.

Aproveitando-se do estado de caos, o exército tomou o poder e o tenente coronel Yacouba Isaac Zida se proclamou como novo presidente do país.

Os burquineses, também contrários à ação, permaneceram nas ruas para protestar contra o golpe do comando militar e exigir uma transição guiada por um líder civil.

A sequência dos protestos populares, junto à pressão da comunidade internacional, obrigou o exército a elaborar, após acordo com a oposição, grupos civis e líderes religiosos, uma carta de transição que estabelecia as bases de um novo governo.

Depois da aprovação da carta, Zida abandonou o cargo, mas manteve os militares no comando da transição, mesmo com os pedidos da comunidade internacional e da oposição de que, em um primeiro momento, o grupo tivesse um caráter estritamente civil.

A pressão seguiu. Dessa forma, em 18 de novembro, o diplomata e ex-embaixador de Burkina Fasso na ONU, Michel Kafanfo, foi nomeado por consenso como o presidente da transição até a realização das eleições.

Por outro lado, Zida, muito ligado ao governo de Compaoré por ser o “número dois” de sua guarda presidencial, foi nomeado primeiro-ministro e assegurou que quatro ministérios fossem ocupados pelo alto escalão do exército.

Paradoxalmente, quando o tenente-coronel foi proclamado pelos militares chefe de Estado disse: “O poder não nos interessa (ao Exército), unicamente os interesses da nação”.

As demais forças políticas optaram por não se opor à presença militar no governo em favor da estabilidade do país. Nenhum dos atuais ocupantes dos cargos – incluindo o presidente e o primeiro-ministro – poderão participar do pleito do próximo ano.

Apesar de Burkina Fasso ter conseguido em só um mês derrubar um dos chefes de Estado mais antigos da África, aprovar um governo interno e convocar eleições de maneira exemplar, a forte presença do exército no novo Executivo mancha um processo desencadeado pelo povo.

O sucesso desses protestos populares, pouco frequentes na África Subsaariana, levou muitos a pensarem, inclusive, que Burkina Fasso – que significa “terra dos homens íntegros” nas línguas locais – era o avanço da Primavera Africana.

A revolta burquinesa lembrou a Primavera Árabe, o fenômeno sócio-político que sacudiu o mundo árabe e conseguiu derubar ditaduras aparentemente intocáveis: Ben Ali na Tunísia; Kadafi na Líbia, Mubarak no Egito; e Ali Salem no Iêmen.

Só o tempo comprovará se a explosão de um país inteiro contra seu regime servirá de exemplo para outros países africanos, onde líderes seguem agarrados ao poder enquanto a sociedade avança e exige novas formas de governar. EFE