Açúcar, o rei da festa no Ramadã do Níger

  • Por Agencia EFE
  • 14/07/2015 06h25

Issa Ousseini.

Niamey, 14 jul (EFE).- O Ramadã combina com açúcar no Níger, país que está entre os mais pobres da África, com 97% da população muçulmana. Esse produto fica no centro da mesa durante a refeição do fim do jejum religioso e é o mais apreciado, tanto que é levado como presente a qualquer casa onde haja um convidado.

Neste Ramadã de 2015, com temperaturas que rondam os 40 graus na sombra pouco depois do meio-dia, a vida “se apaga” na metade da jornada, e só volta a tomar fôlego a partir das cinco da tarde, perante a iminência da refeição de fim do jejum realizada após o pôr-do-sol.

É com o sol descendente quando os mercados enchem, os vendedores de tâmaras e de bebidas frescas saem de sua letargia e quando as grandes panelas com guisados começam a ser cozidas em fogo brando e a alegrar as caras dos que jejuam.

O mês sagrado muda os hábitos alimentícios: come-se menos horas, mas come-se mais com mais variedade: cereais, leite, açúcar, verduras e frutas devem estar presentes em todas as mesas, embora durante o ano algumas delas sejam um luxo.

Para os mais pobres não faltará em sua mesa a sopa de milho e as tâmaras (soltas ou em pasta para os mais pobres), e são estes os dois alimentos que são oferecidos aos carentes nas portas das mesquitas, em um mês em que é tradicional que se multipliquem as obras de caridade.

O kopto é outro dos pratos imprescindíveis do Ramadã: elaborado a partir da sopa de milho, consiste em um guisado feito à base de couve a vapor ou folhas fervidas de moringa, às quais se acrescenta pasta de amendoim e soumbala (sementes moídas de néré típicas de toda África Ocidental).

Quanto à prática religiosa, o Ramadã também representa grandes mudanças para os nigerinos: as mesquitas são tomadas em massa pelos fiéis, especialmente nos primeiros dias do mês de jejum, inclusive por aqueles que não jejuam, como comenta ironicamente o sociólogo Salissou Adamou.

Adamou lembra um fato que compartilha com todo o mundo muçulmano: os que não jejuam não têm vida fácil porque os restaurantes e cafés estão fechados durante as horas diurnas.

No entanto, Adamou lembra que não há lei que obrigue a respeitar o jejum devido ao caráter laico da república e, apesar dos ulemás recomendarem não comer em público “por uma questão de decência”, não há nenhuma sanção legal e nem social contra os que se atrevem a infringi-lo.

Neste mês de piedade e abstinência, no qual paradoxalmente dispara o consumo de alimentos, muitos comerciantes aproveitam a cada ano a forte demanda para impor altas de preços, sabendo que serão pagos de um ou outro modo porque não há algo mais triste que uma mesa desabastecida em uma noite do Ramadã.

De todos os produtos, sem dúvida o mais demandado no Níger é o açúcar, transformado nos últimos tempos em símbolo de abundância: é usado para adoçar as bebidas, tratar com atenção empregados, oferecer aos parentes quando há um convite ou presenteá-lo aos pobres como obra de caridade. EFE