África do Sul ganha primeira batalha contra midiático fugitivo tcheco

  • Por Agencia EFE
  • 29/08/2015 14h00

Marcel Gascón.

Johanesburgo, 29 ago (EFE).- Com uma vida que faz parecer simplórias as histórias mais ambiciosas de qualquer thriller de ação, o fugitivo tcheco Radovan Krejcir está há quase uma década pondo em xeque as autoridades sul-africanas, que conseguiram esta semana, pela primeira vez, sua condenação pela Justiça.

“Não sou um anjo, mas também não sou o diabo”, afirmou Krejcir sobre ter se tornado um personagem lendário, um “empreendedor” – como define a Wikipedia – que inclusive inspirou uma saga de filmes em seu país.

Seu episódio mais novelesco ocorreu em novembro de 2013 no estacionamento de sua própria loja de compra e venda de ouro em Johanesburgo.

Mais de uma dezena de armas de fabricação caseira, ativadas por controle remoto e escondidas atrás da placa traseira de um carro, abriram fogo contra o automóvel de Krejcir, que tinha saído do veículo momentos antes.

“Toda minha vida é ao estilo de James Bond”, disse, após se salvar. A este tcheco de 46 anos são atribuídas as morte de vários de seus parceiros, e foi considerado culpado na última segunda-feira pelo Tribunal Superior de Johanesburgo de sequestro, tentativa de assassinato e posse de drogas.

À espera de saber a pena que receberá, a condenação representa a primeira vitória da promotoria sul-africana contra Krejcir, que conseguiu adiar várias vezes a decisão sobre sua extradição para seu país, a República Tcheca, onde diz que sua vida corre perigo, apesar de se tratar de um Estado democrático da União Europeia.

A peripécia internacional de Krejcir começou em 2005, quando fugiu de sua casa durante uma operação da polícia tcheca que ia prendê-lo por fraude.

Este polêmico empresário, que nega os vínculos com o crime organizado e denuncia um complô contra ele, conseguiu escapar de bicicleta até a Polônia, e encontrou refúgio nas ilhas Seychelles após escalas na Ucrânia, na Turquia e em Dubai.

“Segunda-feira vou pescar; na terça-feira fazer snorkel. Na quarta-feira mergulho; e na quinta-feira, oh, pesco outra vez”, declarou fazendo os jornalistas rirem durante uma audiência recente, ao ser perguntado por sua vida na paradisíaca ilha.

A vida aborrecida das Seychelles, mas sobretudo a ameaça da extradição ao seu país – onde foi condenado à revelia de fraude, sequestro e chantagem -, o levaram em 2007 a escapar de novo, desta vez à África do Sul.

Apesar de ter começado com o pé esquerdo e ser detido em seguida por atravessar a fronteira com um passaporte falso, Krejcir tinha conseguido, até agora, adiar – com bons advogados e graças à galopante corrupção da administração sul-africana – a resposta do país ao pedido de extradição da República Tcheca.

Longe de manter um perfil mais discreto enquanto ganhava tempo de liberdade, o fugitivo tcheco foi um habitué dos noticiários de seu novo país de adoção, onde, segundo a expressão da imprensa local, “se empilham corpos ao seu redor”.

Alguns dos mortos que tinham tratos com Krejcir são o “tuneador” alemão de carros de luxo, Uwe Gemballa, o magnata de clubes de strip-tease, Lolly Jackson, o consultor de segurança do tcheco, Cyril Beeka, e o traficante de drogas libanês, Sam Issa, por cujo assassinato também está sendo julgado.

Jornalistas tchecos assistiram na segunda -feira a audiência em que foi condenado, em mais uma prova da fama que tem tanto na África do Sul como em sua pátria.

Para evitar possíveis novos incidentes à la James Bond, membros das forças especiais fortemente armados faziam guarda, como a cada dia do julgamento, na sala.

Nem sequer durante sua estadia na prisão, onde espera a conclusão do caso, já que os juízes consideram que existe risco de fuga, deixou de atrair a atenção midiática que tanto o agrada.

Em março deste ano, um precário vídeo do fugitivo divulgado pelas televisões sul-africanas foi visto por milhões de pessoas no mundo todo.

Nele, Krejcir aparecia jogando futebol contra uma parede em uma quadra de cimento da prisão central de Pretória com um companheiro de prisão bem conhecido: o atleta paralímpico Oscar Pistorius, condenado pelo homicídio de sua namorada. EFE

mg/cd/rsd