Albinos africanos sofrem com risco de morte por seu valor para bruxaria

  • Por Agencia EFE
  • 20/09/2015 15h59

Jéssica Martorell.

Nairóbi, 20 set (EFE).- Negros de pele branca, os albinos africanos, que sofrem de um transtorno genético, são perseguidos e assassinados para que partes de seu corpo sejam utilizadas em rituais e poções na Tanzânia.

As redes de traficantes que atacam os albinos para abastecer à bruxaria começam a agora a se estender para outros países da região.

O mercado negro que trafica partes de corpos de albinos movimenta milhares de euros porque, em pleno século XXI, a crença de que seus ossos têm poderes mágicos continua muito arraigada em vários países africanos.

Uma extremidade de um albino pode custar mais de 3 mil euros, e por todo o corpo esse valor chega a 60 mil euros, segundo os últimos dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

As redes de traficantes que abastecem os bruxos tanzanianos já se estendem por vários países da região, entre eles o Quênia, onde a comunidade albina vive atemorizada, especialmente nos últimos meses, quando houve uma dezena de ataques.

“Estamos muito preocupados. É difícil se sentir seguro porque nossas vidas estão em jogo”, admitiu à Agência Efe o coordenador da Sociedade de Albinismo no Quênia, Isaac Mwaura.

O último destes ataques aconteceu semana passada no oeste do Quênia, quando três homens atacaram de noite a casa de um albino de 56 anos e tentaram cortar suas mãos e pés.

Felizmente, ele conseguiu escapar e compartilhar sua terrível experiência no hospital, onde se recupera dos cortes em seu pescoço, orelhas, braços e dedos.

“Eu vivi de perto estes ataques. Há pouco tempo tentaram sequestrar uma das crianças albinas que vivem comigo. Por sorte, está tudo bem”, relatou Mwaura, visivelmente transtornado com a violência.

Este ano pode ser o mais duro para a comunidade albina, já que a realização das eleições gerais mês que vem na Tanzânia já provocou um “notável” aumento dos ataques contra albinos, segundo a ONU.

Embora o governo tanzaniano tenha proibido a bruxaria em janeiro e esteja investindo em campanhas para acabar com esta barbárie, alguns políticos continuam a recorrer a ela durante a campanha eleitoral para conseguir vantagem sobre outros candidatos.

Em um país como a Tanzânia, um dos mais pobres do mundo, políticos e grandes empresários são as poucas pessoas capazes de pagar grandes somas de dinheiro para conseguir ossos, cabelos ou extremidades de albinos.

Embora neste ano centenas de curandeiros tenham sido detidos por estas práticas e dezenas condenados – alguns deles à morte -, o drama persiste pelo desconhecimento dos nomes de seus clientes.

Inclusive o parlamento tanzaniano abordou esta questão, e pediu aos seus membros que não recorram à bruxaria para tentar vencer nas urnas.

Apesar da maioria dos ataques se concentrar na Tanzânia, o país africano com maior índice de albinismo, o drama está estendendo a outras nações, como Malawi, Burundi e Quênia, onde estão surgindo preocupantes surtos violentos.

Os albinos não só têm que enfrentar as altas possibilidades de morte prematura por câncer de pele, mas precisam lutar diariamente para sobreviver em um ambiente em que são marginalizados e perseguidos.

“Temos muito medo. Pedimos às autoridades do país que nos protejam”, acrescentou Mwaura que, apesar das dificuldades, conseguiu se transformar no primeiro albino no parlamento queniano. EFE