Ano de negociações infrutíferas deixa Sudão do Sul preso ao conflito

  • Por Agencia EFE
  • 27/12/2014 21h08

Omer Redi.

Adis-Abeba, 27 dez (EFE).- Um ano depois que o Sudão do Sul, a nação mais jovem do planeta, se enredasse em um conflito que causou a morte e a fuga de milhares de pessoas, as conversas para alcançar uma paz definitiva se estagnaram, sem sinais de esperança para um país condenado já em seu nascimento.

Após conquistar a independência do Sudão em julho de 2011, a curta vida de seu vizinho do sul foi truncada pela crise que explodiu em 15 de dezembro de 2013, quando o presidente, Salva Kiir, denunciou uma suposta tentativa de golpe de Estado liderada pelo ex-vice-presidente Riek Mashar.

Em pleno Natal, o bloco dos países da África Oriental pediu às duas partes em conflito para deixar as armas e tentar buscar uma solução para suas desavenças.

Hoje, um ano depois, os líderes de Etiópia, Sudão, Quênia, Uganda, Somália e Djibuti, integrados na Autoridade Internacional para o Desenvolvimento (Igad, na sigla em inglês), conseguiram arrancar o compromisso do presidente sul-sudanês de dialogar com o líder rebelde.

Mas aquela promessa se diluiu com a passagem dos meses, de sucessivas tréguas violadas por ambas partes e de crises humanitárias e de violência imparáveis no país.

Essa mesma desesperança se percebe no tom das mensagens que tanto os atores do conflito como os líderes regionais e das negociações emitiram durante estes dias, nos quais se insistiu na necessidade de buscar uma paz que não chega.

“Embora siga havendo questões importantes para resolver, não são motivo suficiente para continuar a luta”, declarou em entrevista coletiva o chefe dos enviados especiais da Igad, Seyoum Mesfin.

Ao longo deste ano, a Igad tentou reconciliar as partes enfrentadas, mas nenhum de seus esforços parece ter conseguido êxito.

O bloco regional promoveu várias rodadas de negociações e cúpulas que levaram à assinatura da cessação de hostilidades que nunca chegaram a concretizar-se, já que governo e rebeldes voltaram a violar os pactos após trocar acusações e despejar desculpas para continuar o conflito.

A última rodada de negociações, que começou no último dia 18 com o compromisso de ambas partes de cumprir a proposta definitiva da Igad – iniciar um governo de união nacional de transição -, foi suspensa apenas três dias após começar, para depois do Natal.

As conversas se realizaram sem “progressos convincentes”, admitiu Mesfin, entre rumores que ambas partes se preparam para uma grande batalha que introduziria o Sudão do Sul em seu segundo ano de guerra.

“Se o que estamos ouvindo – que as partes enfrentadas estão se preparando para ações militares maiores após comprometer-se à cessação das hostilidades – for verdade, é realmente triste e decepcionante”, reconheceu Mesfin.

Os rebeldes de Mashar se mostraram favoráveis a integrar-se em um eventual governo partilhado com Kiir sob as condições da denominada Resolução Pagak, que estabelece a estrutura do possível Executivo conjunto.

No entanto, a Igad teme que Kiir evitará ceder parte de seu poder a seu oponente e bloqueará o acordo, motivo pelo qual o bloco negociador finalmente deverá impor sanções contra ambas partes, como advertiu se não se chegasse a um acordo antes do final do ano.

As disputas internas entre os principais líderes do Movimento de Libertação Popular do Sudão (SPLM, em inglês) – grupo rebelde convertido em partido governante após a independência do Sudão do Sul – explodiram publicamente em meados de dezembro do ano passado.

A rivalidade entre Kiir, de etnia dinka, e o nuer Mashar escalou rapidamente até o nível de um enfrentamento étnico, no qual se estima morreram dezenas de milhares de sul-sudaneses, sem que até hoje exista uma apuração oficial precisa.

Enquanto a ONU também não informa o número de vítimas mortais, o observatório International Crisis Group eleva esta cifra a pelo menos 50.000 pessoas.

“Milhões de pessoas estão deslocadas no interior do Sudão do Sul e nos países vizinhos. Milhões mais estão lutando para sobreviver. E a guerra segue cobrando as vidas dos combatentes e dos civis inocentes”, lamentou o porta-voz da Igad. EFE