Armas são vendidas até por WhatsApp

  • Por Estadão Conteúdo
  • 20/06/2016 08h42
Armas

“Você já pensou em comprar armas de fogo na internet, com total sigilo e recebê-las em casa?” O anúncio, feito há um mês em uma página pública no Facebook, revela como o comércio ilegal de armamentos acontece abertamente nas redes sociais, sem qualquer fiscalização. A reportagem entrou em contato com o vendedor anônimo por meio de um número de WhatsApp divulgado na rede social. Em poucas mensagens trocadas ao longo de quatro horas, negociou a compra de dois revólveres calibre 357, de uso restrito, com cem munições, anunciados por R$ 2.640.

O vendedor, que administra a página Venda de Armas e Acessórios, exigiu apenas um comprovante de residência e disse que entregaria as armas em domicílio, em até quatro dias, “via transportadora de confiança”, após o depósito bancário. Questionado sobre a situação dos armamentos, o comerciante relatotu que ambas não têm registro. A reportagem não efetuou a compra.

Por lei, o comércio de armas pode ser feito apenas por fábricas e lojas especializadas e cadastradas ou entre pessoas que têm posse ou porte de arma em dia e, mesmo assim, mediante autorização da Polícia Federal ou do Exército. O comércio ilegal dos produtos, assim como a exposição, é crime com pena de até oito anos de prisão e multa. 

No Facebook, porém, as regras são desrespeitadas. Na última sexta-feira (17), a mesma página de vendas, cujo administrador diz morar no Jardim São José, zona norte de São Paulo, oferecia revólveres e pistolas de calibres 22, 32, 38, 375, 380 e 9mm. Além do aplicativo de celular, as compras podem ser efetuadas por e-mail “sem burocracia”.

Somente no último mês, dez pessoas demonstraram interesse em comprar as pistolas em anúncio. A reportagem tentou contato com dois dos getsores da página pelo próprio Facebook, mas não obteve retorno. O autor da página também não respondeu à mensagem e e-mails enviados também na passada sexta-feira.

“A observação que a gente faz é que o processo de transferência, venda ou doação pela internet deve seguir rito semelhante à aquisição em uma loja de armas, que inclui a apresentação de todos os documentos requeridos. O vendedor precisa pedir com antecedência à Polícia Federal a emissão de uma Declaração de Intenção de Venda, sendo a própria instituição que vai autorizar ou não essa venda para que, depois, o produto seja repassado”, explica o diretor executivo do Instituto Sou da Paz, Ivan Marques.

No domingo último (19), a reportagem revelou que páginas e grupos fechados e secretos nas redes sociais anunciam e negociam a compra de armas, munições e acessórios controlados pelo Exército e pela PF. Questionados sobre a prática, a PF, a Polícia Civil de São Paulo e o Exército se eximiram de responsabilidade pela investigação do comércio de armas de fogo pelo Facebook. 

Menos burocracia

A Império Armas, empresa que fica em Atibaia, na região da Mantiqueira, interior de São Paulo, e se descreve como especializada em assessoria em processos junto ao Exército e à PF “com o objetivo de diminuir a burocracia dos órgãos responsáveis pela legalização de armas no Brasil”, também divulga armamentos com preços em sua página no Facebook e nos grupos fechados, como uma carabina de calibre 40 e uma espingarda de calibre 12.

Procurada pela reportagem, uma funcionária, que se identificou apenas como Gabrieli, disse que a empresa não vende armas, apenas anuncia produtos de parceiros. Segundo ela, não há irregularidade na prática. “Não somos uma loja de armas. Nós vendemos assessoria documentais. Geralmente, quando é uma coisa ilegal, o próprio Facebook barra”, justifica.

Estímulo

Para Renato Sérgio de Lima, vice-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), as páginas estimulam a compra de armas na contramão do que prega o Estatuto do Desarmamento, de 2003. “Estudos mostram que, quando as polícias fortalecem ações de apreensões de armamentos, os crimes, como homicídios, caem”, pontuou.