Autor de fotobiografia diz que Oswaldo Aranha poderia ter sido presidente

  • Por Jovem Pan
  • 03/08/2017 18h31 - Atualizado em 03/08/2017 18h44
Autor afirmou que "a corrupção pessoal não era a marca" de Oswaldo Aranha

Advogado, diplomata e ministro de relações exteriores, Oswaldo Aranha “poderia ter sido presidente”. Essa é a opinião de Pedro Corrêa do Lago, autor da fotobiografia e neto de um dos grandes políticos do Brasil. Apesar do parentesco, o livro “Oswaldo Aranha – Uma Fotobiografia” mostra bem o porquê da opinião do autor de que Aranha poderia ter alcançado o maior cargo político do país.

“Teve várias oportunidades e muitos historiadores acham que ele não teve empenho suficiente. É muito difícil você especular em que momento. Eu acho que ele tinha competência pro cargo, era profundamente democrata, profundamente crente das possibilidades infinitas do Brasil. Ele dizia que o Brasil seria grande até contra a nossa vontade”, contou Lago a Augusto Nunes, no Perguntar Não Ofende.

Além das características citadas, o neto afirma que o avô era livre de algo que é bastante comum de se ver no Brasil atualmente: a corrupção. De acordo com ele, nos tempos de Aranha, existiam valores e um idealismo que hoje não são mais correntes. “A corrupção pessoal não era a marca dele.”

“Havia talvez menos corruptores, menos tentações, havia, provavelmente, corrupção em níveis mais baixos, mas quando você chegava a ministro de Estado, presidente da República…pode se dizer qualquer coisa, e tudo já se disse, sobre Getúlio Vargas, menos que ele enriqueceu de forma escusa”, disse.

Momentos marcantes

No livro, Lago acredita que pôde reviver muito do que se passou no Brasil no período da década de 30, 40 e 50. Segundo ele, Oswaldo Aranha teve atuação decisiva para que a revolução de 1930 acontecesse.

Para o autor, o Brasil teria uma evolução política muito diferente caso o golpe de Estado não funcionasse. “Getúlio tinha muito a perder se não desse certo, e só se avançou porque ele (Oswaldo Aranha) tinha certeza da vitória.”

O outro momento que Lago credita a Oswaldo Aranha uma importante participação foi na atuação como ministro de Relações Exteriores, de 38 a 44. De acordo com o autor do livro, o diplomata havia aceitado o cargo porque via uma resistência “germanófila” (admiradores dos alemães) no entorno de Getúlio Vargas.

“Os chefes militares Monteiro, Dutra, que depois foi presidente da República, o ministro da Justiça, o Francisco Campos, o Filinto Muller, chefe da polícia…todo mundo era ‘germanófilo’, como já dizia na época. E ele, que já tinha sido embaixador nos EUA, era um profundo admirador da democracia americana. E os EUA naquela época representavam um exemplo de democracia”, contou.

Lago disse ainda que o acompanhamento da posição dos aliados trouxe vantagens enormes para o País, tanto econômicas como em termos de posicionamento internacional. Para ele, se não fosse a morte do presidente americano Roosevelt, o Brasil teria feito parte de um grupo com direito a veto na ONU. “Teríamos feito parte de grandes potências, que acabou não se fazendo por uma série de detalhes. Mas eu acho que ele teve uma atuação realmente muito importante nessa altura.”

Falta de ajuda aos judeus

O neto de Oswaldo Aranha comentou um assunto polêmico sobre o ex-ministro de relações exteriores, de que ele tinha impedido a entrada de judeus no Brasil na época da Segunda Guerra Mundial. História prontamente desmentida por Lago.

“Foi um trabalho muito pouco embasado, mas que teve muita repercussão na época, porque era assinado por uma historiadora. Depois mostraram que ela tinha lido todos os documentos errados. Então ela chegou a conclusões totalmente opostas à realidade.”

De acordo com Lago, o avô foi um dos grandes responsáveis por juntar as famílias de judeus que estavam no Brasil com os que queriam imigrar da Europa para cá. “Entraram 10 mil judeus no Brasil. Quer dizer, foi o País que mais acolheu judeus em relação a sua população”, contou.

Duas famílias

Pedro Lago falou também sobre a história de que Oswaldo Aranha tinha tido um filho fora do casamento. De acordo com ele, todos os homens sabiam do caso, mas as mulheres não tinham conhecimento.

Para o autor da fotobiografia, este inclusive pode ter sido um dos principais motivos que tenha desencorajado Aranha a forçar uma candidatura à Presidência da República, já que, por ter uma relação muito boa com a sua esposa, ele sabia que ela não aceitaria que esse fato fosse sabido por todos. “Eu acredito que ela tenha morrido sem saber”, opinou.

Relação com Getúlio Vargas

Lago conta que sua mãe tinha uma relação quase de filha com Getúlio Vargas, muito amigo de Aranha, e conviveu muito com o ex-presidente do Brasil. Segundo a sua mãe e filha do protagonista do livro, em muitas ocasiões Vargas não agiu da maneira mais íntegra com o amigo. Mas a “sacanagem” que mais a incomodou foi um “puxão de tapete”.

“No final da guerra, quando já era claro que os aliados iam ganhar, e o campeão da causa dos aliados do governo era o Oswaldo Aranha, que tinha se fortalecido demais, e ameaçava o poder do Getúlio. Era o sucessor natural, um pouco forte demais aos olhos de Getúlio, e aí ele puxou o tapete, como puxou em várias outras oportunidades”, revelou.

Para o autor, Vargas e Aranha tinham uma relação de irmãos, mas como em muitas amizades, havia um desequilíbrio clássico. “Eu acho que o Oswaldo Aranha era mais amigo do Getúlio do que o contrário”, afirmou.

A fotobiografia de Oswaldo Aranha possui mais de 500 depoimentos e 600 fotografias, sendo que 80% delas são inéditas.