Boxeadoras derrotam o machismo no Quênia

  • Por Agencia EFE
  • 20/03/2015 10h31

Jèssica Martorell.

Nairóbi, 20 mar (EFE).- Mulheres que vivem na favela de Kariobangi, nos arredores de Nairóbi, tornaram-se autênticas heroínas, um exemplo a ser seguido pelos meninos e meninas do país, pois graças ao boxe conseguiram a confiança necessária para enfrentar o machismo, muito enraizado na sociedade local.

Às 9h30, 20 jovens estão prontas para o treino diário oferecido pela BoxGirls, organização que aposta neste esporte como opção de defesa física e estímulo para superar obstáculos.

“Me sinto segura, porque não só tenho a força em meus músculos, mas tenho a força dentro de mim mesma. Agora tenho a confiança necessária para enfrentar as coisas, tanto as ruins como as boas”, contou à Agência Efe Florence, uma jovem queniana de 21 anos que começou a fazer boxe há quatro.

Em uma pequena sala no meio de um grande campo aberto, o grupo enrola fitas nas mãos e nos punhos e coloca as luvas: preparadas para demolir os estereótipos de gênero que permanecem de pé em sua comunidade.

O treino é duro: flexões, exercícios de corda, saltos e socos contra sacos que são pendurados no teto para fortalecer os músculos. A sessão é comandada com voz firme por Sarah Achieng, que com 27 anos é campeã de boxe feminino da África do Leste e Central.

“Muita gente considera que este tipo de esporte é só para meninos, mas as meninas boxeadoras estão rompendo estes estereótipos e inclusive demonstrando que podemos fazer muito melhor que eles”, afirma com orgulho a preparadora à Agência Efe.

Sarah começou no boxe porque este foi o único mundo que lhe deu uma oportunidade. “Normalmente o povo tem medo de dar oportunidades. O boxe foi quem me deu uma oportunidade como pessoa, como mulher esportista”, acrescenta.

Mas o boxe não é só um esporte para estas meninas, é uma ferramenta com a qual ganham confiança para enfrentar os problemas de Kariobangi: os estupros e a gravidez precoce que acabam com o futuro das mais jovens.

“Mulheres fortes. Comunidades seguras” é o lema da BoxGirls, fundada há nove anos pelo boxeador queniano Alfred Analo. O objetivo é fazer com que as jovens aprendam a se defender das agressões sexuais, muito frequentes no bairro.

O esporte, no entanto, não só fez com que os criminosos tenham mais respeito, mas além disso com que a comunidade mude sua percepção sobre elas.

“Agora estas meninas são líderes em sua comunidade porque têm responsabilidades, desafios e tomam decisões. Inclusive se transformaram em celebridades do bairro, admiradas e celebradas por seus triunfos”, destaca Analo.

Prova disto é que, durante o treino, muitos jovens se amontoam nas janelas para contemplar com admiração os diretos cheios de força que são proferidos por estas meninas contra os sacos de areia.

Quando termina a sessão, de duas horas, a luta ainda não acabou. As meninas da BoxGirls se dividem em grupos e trabalham com escolas de vários subúrbios da capital queniana, como Kibera e Mathare, para contar sobre os valores do esporte às criancas.

Para Florence, esta é a melhor parte do dia. “Vamos às escolas para ensinar as técnicas do boxe, mas também ensinamos sobre nutrição, hábitos saudáveis e valores de respeito ao próximo”, explica.

A organização também inaugurou uma livraria móvel para familiarizar com a literatura as crianças que vivem nos subúrbios, onde o acesso aos livros é muito limitado. E para as jovens oferece aulas de informática gratuitas.

No total, cerca de 650 meninas de diferentes comunidades de Nairóbi participam dos programas oferecidos pela organização, tudo para fortalecê-las e conseguir que se transformem em mulheres capazes de mudar suas comunidades.

“O boxe mudou minha vida. Agora tenho a força para poder lutar pelos direitos de outras meninas como eu e ensinar aos menores estes valores”, afirma Florence, que antes de começar a treinar era tão tímida que quase não conseguia falar em público, confessa.

Embora nem todas queiram se transformar em boxeadoras profissionais no futuro, estas jovens já triunfaram, inclusive antes de subir em um ringue, porque ganharam o respeito de suas comunidades e a confiança necessária para lutar por seus sonhos. EFE

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