Miller nega crimes e amizade com Janot, mas admite “lambança”

  • Por Jovem Pan
  • 29/11/2017 11h52 - Atualizado em 29/11/2017 12h59
Reprodução/TV CâmaraEx-procurador Marcelo Miller fala à CPMI da JBS e nega ser "amigo íntimo" de Janot

Em depoimento à CPMI da JBS, o ex-procurador Marcelo Miller negou que tenha cometido crimes ao se aproximar da J&F, controladora da JBS, e supostamente praticar tráfico de influência durante o acordo de delação premiada da empresa.

O ex-membro da equipe da Lava Jato da Procuradoria-Geral da República (PGR) também negou proximidade íntima com o ex-procurador-geral Rodrigo Janot. Miller ainda disse que não orientou a gravação da JBS do presidente Michel Temer (PMDB) e do senador Aécio Neves (PSDB). Ele negou ser o “gravador-geral da República”. “Pela vida do meu filho, não mandei gravar o presidente, não”, garantiu Miller.

Miller foi convocado porque está no centro da crise que atingiu a PGR à época sob o comando de Rodrigo Janot. O ex-procurador é suspeito de fazer “jogo duplo” e orientar a JBS no acordo de delação premiada, quando ainda era do Ministério Público Federal. Miller deixou o cargo de procurador no MPF no dia 5 de abril e foi trabalhar na empresa Trench, Rossi e Watanabe Advogados, que tinha a J&F como cliente.

Acompanhe a oitiva ao vivo:

“Amigo de Janot? Nunca fui.”

“Há um bocado de mistificação e desinformação em torno da minha relação funcional com o doutor Rodrigo Janot. Achei graça quando ouvi no jornal dizendo que eu era braço direito dele (de Janot). Nunca fui”, garantiu. Miller disse que nem o chefe de gabinete de Janot, Eduardo Pelella, sabia de sua aproximação com a JBS.

“Nunca fui braço direito de Janot, nunca fui amigo próximo dele. A relação era meramente funcional. Amigo, porque a gente trabalhou junto. Ele não tinha nenhuma predileção por mim. Ele me convocou por conta de trabalho que eu tinha feito na Escola Superior do Ministério Público e ele queria aproveitar minha experiência. Depois disso, pouco o vi, até que ele foi nomeado procurador-geral da República”, declarou.

“Eu não era próximo, muito menos íntimo dele”.

Já de Pelella, Miller disse que era amigo, “não íntimo, de ligar no Natal”, mas almoçava frequentemente com o colega procurador.

Aproximação com a JBS e “lambança”

Miller defendeu sua aproximação com a JBS e negou que tenha havido crime nos fatos. “Eu estava preparando e incentivando uma empresa a se limpar”, disse.

“Se ele (Janot) quisesse abordar isso pelo aspecto administrativo, tudo bem. Organização criminosa? Obstrução de justiça? Era o contrário! Era desobstrução de justiça. (O contato) era para que a empresa fosse lá e falasse a verdade”, afirmou.

Miller afirmou que fez uma avaliação da sua atuação junto à J&F, quando ainda era procurador do Ministério Público Federal (MPF), e percebeu um “erro brutal de avaliação” de sua parte. Questionado na CPMI sobre as tratativas que tinha com executivos do grupo, Miller admitiu “lambança” ao responder perguntas sobre o acordo de colaboração negociado pela empresa, mas negou que tenha cometido crime.

“De fato, eu comecei a ter contato com a J&F antes da delação acontecer. Respondia perguntas, refletia sobre o caso, e não estou negando nada disso. Fiz uma avaliação e não cometi crime, espero mesmo que apurem os fatos, mas eu cometi um erro brutal de avaliação. Eu fiz uma lambança”, afirmou Miller aos parlamentares.

“Eu não cometi crime, mas eu fiz uma lambança, e é por isso que eu estou aqui”, disse. “Ao refletir sobre a situação, analisei que não havia crime e não havia ato de improbidade. Não havia ilícito. Mas eu não atentei para as percepções, não atentei para as interpretações que isso poderia suscitar”.

Miller disse ainda que “o maior temor” da J&F era em relação a sanções das autoridades norte-americanas, “que são muito rigorosas”. “E eles (da J&F) não poderiam mentir. Ocultar a verdade é um jogo que beira a insanidade”.

Pedido de prisão

O ex-procurador também criticou o pedido de Janot de prisão contra ele. “Era um disparate completo e o procurador-geral da República tinha meios de ter apurado isso antes de partir para um pedido de prisão”, disse.

Ele explica que o pedido de prisão temporária contra ele pretendia garantir a busca e apreensão em sua residência, “um único apartamento de três dormitórios”, o que, em sua visão, não seria necessário.

Miller também diz que foi chamado a um depoimento, “mas foi um interrogatório”, que “se alongou por 10 horas”. “Durante o interrogatório soube do meu pedido de prisão”, contou, classificando novamente o pedido como um “disparate completo”.

O depoente não quis “especular” por que Janot não recorreu ao plenário de habeas corpus concedido pelo STF a si, como havia feito em outros investigados pela Lava Jato. “Por que ele não recorreu? Não sei. Não vou especular. Talvez ele tenha se convencido. A decisão do Supremo foi muito bem articulada e embasada”, limitou-se.

Saída do MP

Miller também negou que tenha deixado o Ministério Público para ir para a carreira de advogado por “ganância”. Ele explicou que foi chamado a liderar uma equipe de “compliance” na JBS, um “projeto muito grande”, “plurianual”, em que a “questão mais sensível” era nos Estados Unidos.

“Eu não traí o Ministério Público”, afirmou ainda o ex-procurador.

Retaliação

De maioria governista, a CPMI é vista pela oposição como uma forma de retaliar Rodrigo Janot e a PGR por terem denunciado o presidente Michel Temer.

A delação da JBS embasou duas denúncias criminais contra o presidente Michel Temer, por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da justiça. Além dele, o ex-assessor, Rodrigo Rocha Loures, gravado recebendo uma mala com R$ 500 mil de executivo da empresa, o senador e presidente licenciado do PSDB, Aécio Neves, que pediu R$ 2 milhões a Joesley Batista, parte da cúpula do PMDB e outros políticos são investigados ou denunciados.

Com informações complementares de Estadão Conteúdo