Com dificuldades financeiras, cubanos tentam sobreviver no Brasil após fim do Mais Médicos

Profissionais “desertores” do regime cubano reclamam da falta de atenção das entidades brasileiras e recorrem a trabalhos em diferentes áreas para manter o sustento

  • Por Felipe Neves
  • 25/07/2019 07h00
Felipe Neves / Jovem PanKarel Sanchez, de 35 anos, trabalha como pintor e ajudante de obras em São Paulo, enquanto não consegue uma vaga como profissional da saúde

O médico Karel Sanchez, de 35 anos, manteve a mesma rotina por cerca de um ano e meio na cidade paraense de Cachoeira do Arari: atendia pacientes na clínica geral do município todos dias, até o final de 2018. Três meses depois, no entanto, ele estaria carregando malas no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, ganhando menos de um terço do que recebia como profissional da saúde e tendo que bancar um aluguel na maior cidade do país.

A história se repetiu de maneira mais drástica para Raul Duran, de 39 anos, no interior do estado de Sergipe. Do final do ano passado até março de 2019, ele se viu sem salário, teve a energia elétrica cortada e quase passou fome ao perder o emprego como médico na cidade de Indiaroba.

Os dois profissionais são cubanos e fazem parte de um problema ainda sem solução. Egressos do Mais Médicos, parceria promovida entre o governo brasileiro e seu país de origem, eles tentam sobreviver por aqui depois do fim do programa, no último mês de novembro.

Karel e Raul estudaram na Universidade de Ciências Médicas de Holguín, capital da província homônima e quarta maior cidade da ilha caribenha. Os dois possuem especialização em medicina geral. Em 2017, poucos anos depois de terminarem a graduação, embarcaram para o Brasil em busca dos melhores salários oferecidos pelo programa, criado na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

“Passei a ganhar dez vezes mais do que em Cuba, valia muito a pena”, relembra Karel, que acabou deixando dois filhos e mulher na ilha. Ele enviava parte dos R$2900 que recebia para a família, que ainda mora no país. Hoje, a renda caiu para cerca de R$1100.

Impasse

O acordo que mantinha os empregos dos médicos foi rompido logo após a eleição de Jair Bolsonaro. A alegação do regime cubano foi de que “referências diretas depreciativas e ameaçadoras” ao programa pelo então candidato justificariam a saída. Depois de eleito, o presidente havia exigido que os profissionais fizessem testes de capacidade e recebessem salário integral pelo ofício. O repasse do Ministério da Saúde para a Opas, organização que intermediava o contrato, era de R$11.520 para cada profissional. Os cubanos, no entanto, só recebiam os R$2900, o restante ficava com o governo da ilha.

Após o rompimento, o Ministério da Saúde não acompanhou a situação dos profissionais, nem possui números e nomes dos médicos — embora estimativas deem conta de mais ou menos 1800 cubanos ainda no Brasil.

Em nota, a pasta afirmou à reportagem que estuda soluções para realocar o contingente, mas sem prazo definido. Não há nem mesmo a previsão de que os médicos sejam submetidos ao Revalida, prova necessária para que os diplomas de formados no exterior sejam reconhecidos e sirvam para exercer a profissão em território brasileiro.

Quem escolhe ficar por aqui ainda tem de lidar com o rótulo de “desertor” dado pelo regime cubano como retaliação pela permanência. Por oito anos, os médicos não podem voltar ao país de origem, sob risco de prisão. O impasse faz com que os profissionais entrem com pedido de refúgio por perseguição política.

A medida, porém, está longe de ser uma solução a curto prazo. Primeiro, pelo tempo de espera: cada solicitação demora cerca de dois anos para ser emitida pelo Ministério da Justiça. Depois, pela ausência de informações: a pasta também não acompanha a situação específica dos profissionais por aqui desde que o acordo foi rompido.

“Nunca fomos atrás do número específico porque a gestão do programa não é nossa”, argumenta Bernardo Laferté, coordenador do Conare, órgão do Executivo responsável pelos refugiados. “Mas de fato tivemos um pico de pedidos por parte dos cubanos após o fim do Mais Médicos.”

Trabalho

Tanto Karel quanto Raul esperam para obter o status de refugiados enquanto procuram por empregos temporários. O médico que vive em São Paulo passou por vários lugares até conseguir uma vaga de pintor e ajudante de obras em um escritório na Avenida Paulista, região central da capital. Ele foi encaminhado ao serviço através da Missão Paz, entidade ligada à Igreja Católica que acolhe imigrantes na região do Glicério.

“Depois que o Mais Médicos acabou, começamos a receber cubanos aqui em busca de emprego, era um perfil que não tínhamos”, diz Paolo Parise, padre responsável pela obra. “Eles vieram, participaram das palestras que damos e alguns até conseguiram trabalho, mas em áreas completamente diferentes das que costumavam trabalhar.”

Em Indiaroba, Raul conseguiu uma vaga de fiscal sanitário na Prefeitura, mas o contrato temporário termina em agosto. “Não sei o que vou fazer daqui para frente, já tentei trabalhar até com agricultura, mas dizem que minha qualificação é muito alta”, diz. “A gente acaba ficando totalmente excluído aqui, tenho amigos que estão nessa situação e até tentaram suicídio.”

Mesmo longe da família e passando por dificuldades, no entanto, os médicos afirmam que não querem voltar para Cuba. Os problemas econômicos, a falta de liberdade do regime e a promessa de voltarem a exercer a profissão no Brasil ainda pesam na decisão.

“Não ficaria lá, é tudo muito difícil, mesmo aqui também tendo dificuldades”, confessa Karel. “Se me derem oportunidade para voltar a trabalhar como médico aqui, eu volto. O governo disse que vai avaliar e resolver. Mas eu só acredito quando tiver com alguma coisa na mão.”