Como funciona e o que mede o Índice de Percepção da Corrupção
O Brasil teve, em 2025, a segunda pior nota da série histórica no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), divulgado pela Transparência Internacional na terça-feira (10). O país obteve 35 pontos, em uma escala que vai de 0 a 100 — quanto maior a nota, menor a percepção de corrupção —, e permaneceu na 107ª posição entre 182 países avaliados. O resultado ficou apenas um ponto acima do pior desempenho já registrado, em 2024, indicando estagnação.
O índice é calculado a partir da avaliação de especialistas e executivos sobre a corrupção no setor público. Não mede o número de casos ou valores desviados, mas comportamentos corruptos no serviço público e mecanismos de prevenção da corrupção.
O presidente do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC), Roberto Livianu, explica que o principal objetivo do levantamento é permitir uma comparação internacional. “Esse estudo acontece há mais de três décadas – começou em 1992 -. Ele tem uma virtude importante, que é a comparação entre o que ocorre em termos de corrupção, entre quase todo mundo”, afirmou.
Ele reforça que o IPC não mede a corrupção de forma objetiva. “Não é um índice de medição objetiva da corrupção. E não há como medir a corrupção do ponto de vista objetivo”, disse. Segundo ele, muitos casos sequer chegam ao conhecimento público. “A grande parte dos casos de corrupção não é notificada (…) essa massa de casos não notificados, aqui e em todo o mundo, ela é desconhecida. Sendo desconhecida, ela não é mensurável.”
Falta de avanço
Com 35 pontos e na 107ª posição, o Brasil permanece abaixo da média global, que é de 42 pontos. Na avaliação de Livianu, o resultado reflete a ausência de medidas concretas no período analisado.
“A conclusão é que esse índice deriva do fato de que não tivemos, no ano que se passou, nenhum movimento significativamente relevante no sentido de demonstrar o enfrentamento corajoso à corrupção”, declarou. Para ele, é possível interpretar o cenário como “uma situação de estagnação do Estado brasileiro em relação ao combate à corrupção”.
Livianu cita dois casos para a estagnação do Brasil:
- A falta de conclusão da regulamentação do lobby;
- A não aprovação de um Código de Conduta para os tribunais superiores;
“Se nós tivéssemos tido (…) a implantação de um Código de Conduta para os tribunais superiores, eu tenho a impressão que esse resultado poderia ter sido melhor”, afirmou.
Ele também criticou o crescimento das emendas parlamentares, que já ultrapassam R$ 60 bilhões no orçamento aprovado para 2026, e classificou como “absolutamente inadmissível” a permanência de práticas associadas ao chamado orçamento secreto, por considerar que criam brechas para desvios.
Impacto de escândalos na percepção
O relatório da Transparência Internacional destaca que 2025 foi marcado por casos de macrocorrupção em grande escala. Entre eles, o escândalo no INSS, revelado pela Operação Sem Desconto, atingindo centenas de milhares de aposentados e pensionistas. Também ganhou destaque o caso Banco Master, alvo da Operação Compliance Zero. O relatório menciona ainda suspeitas de influência sobre autoridades dos três Poderes.
No estudo divulgado, o diretor-executivo da Transparência Internacional – Brasil, Bruno Brandão, afirma que os episódios ajudam a explicar o desgaste. “O Brasil chocou o mundo com casos de macrocorrupção em escala inédita, como INSS e Master, impunidade generalizada mesmo para corruptos confessos e condutas desmoralizantes de ministros do próprio STF”, afirmou.
Segundo ele, “a corrupção também corrói profundamente a democracia e o Brasil precisa, urgentemente, resgatar e priorizar o enfrentamento deste problema”.
O cientista político pela Universidade Presbiteriana Mackenzie Rodrigo Prando destaca que operações policiais e escândalos amplamente divulgados podem influenciar a percepção captada pelo índice. “Quando você tem uma profusão de operações acontecendo, combatendo a corrupção, e isso ganha mídia, a pessoa vai ter uma percepção de que tem muita corrupção. Agora, ela tem essa percepção porque está sendo noticiado”, explicou.
Ele ressalta que o IPC “serve como um termômetro” e é útil para analisar tendências de médio e longo prazo, mas não mede a corrupção real em números absolutos. Ainda assim, a repetição de 35 pontos mostra que “o Brasil precisaria melhorar muito”.
Crime organizado
A Transparência Internacional também aponta um agravamento da infiltração do crime organizado no Estado, especialmente no sistema financeiro e na advocacia.
Para Roberto Livianu, o país enfrenta um problema estrutural. “Nós nunca tivemos na história brasileira uma política pública anticorrupção que existisse independentemente de governos e de governantes”, afirmou.
Ele também citou tentativas de enfraquecimento de instituições como Ministério Público e Polícia Federal. “O relatório do Sr. Guilherme Derrite, que foi apresentada há poucos meses a primeira versão, propunha de maneira muito clara o enfraquecimento, o amesquinhamento do Ministério Público e da Polícia Federal. O Ministério Público só poderia investigar se fosse caso, e que a Polícia Federal só poderia investigar com a aquiescência do governador”, afirmou.
Livianu continuou dizendo que “são coisas que a gente estaria retrocedendo ao tempo das cavernas. E isso estava sendo proposto por um indivíduo que era secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Estamos falando de alguém amador, alguém que tinha experiência de ter gerenciado a segurança pública da maior e mais relevante unidade da Federação”.
Rodrigo Prando acrescenta que a corrupção é um fenômeno complexo, que envolve dimensões individuais, institucionais e culturais. Segundo ele, o Brasil combina “alta percepção de corrupção” com “baixa percepção de confiança” nas instituições. “O brasileiro confia muito na família, mas desconfia das instituições”, disse.
Países como referência
Dinamarca e Finlândia lideraram o ranking, com 89 e 88 pontos, respectivamente. De acordo com Rodrigo Prando, esses países combinam “instituições muito profissionais, são países com pouca discricionariedade e alta transparência nas decisões relacionadas a gastos, licitações ou nomeações para cargos, e isso reduz a oportunidade de corrupção e de captura por grupos privados”.
Entretanto, o cientista político explica que, como em outros países, existe corrupção na Dinamarca. Contudo, a diferença é que “a corrupção é controlada”.
Para os especialistas, a reversão do quadro brasileiro passa por medidas concretas:
- Fortalecimento das instituições;
- Mais transparência;
- Regulamentação do lobby;
- Aprovação de códigos de conduta;
- Controle rigoroso sobre recursos públicos.
Sem isso, alertam, a percepção de complacência pode permanecer. “Sem uma tomada de posição que mostre efetividade na luta contra a corrupção, as pessoas vão assimilando uma imagem de que há uma certa complacência com a corrupção. E isso mina a credibilidade das instituições”, concluiu Livianu.


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