Dilma falhou em criar um fato político extraordinário

  • Por Jovem Pan
  • 29/08/2016 11h58
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DF - IMPEACHMENT/SENADO/JULGAMENTO - POLÍTICA - A presidente afastada Dilma Rousseff apresenta sua defesa no processo de impeachment nesta segunda-feira, 29, no Senado Federal, em Brasília. 29/08/2016 - Foto: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO Dida Sampaio/Estadão Conteúdo Dilma discursou por quase 45 minutos no Senado em busca de votos para reverter o processo de impeachment

Aqueles que são mais próximos de Dilma Rousseff costumam dizer que ela cresce nos momentos de adversidade. Na manhã desta segunda-feira, a presidente afastada enfrentou um momento-chave em seu processo de impeachment: a oportunidade para fazer uma defesa de voz própria diante de seus juízes, os Senadores da República. Por quase quinze dias, desde que decidiu que compareceria à sessão de julgamento, Dilma se dedicou à redação do discurso. Acalentava a esperança, juntamente com seus apoiadores, de produzir um fato político extraordinário, que pudesse carrear para sua causa oito dos dez parlamentares que ainda não declararam voto – a petista tem 20 votos no Senado, e precisa de 28 para se livrar da cassação. Mas é difícil acreditar que tenha cumprido esse objetivo.

O que seria um fato político extraordinário? Uma fala de alta temperatura política, ou um argumento técnico surpreendente para deslegitimar o processo de impeachment.

Nenhuma das duas hipóteses se verificou.

Os argumentos contra o impeachment foram os mesmos pisados e repisados por sua defesa formal e por seus defensores políticos desde que o impeachment começou a tramitar, há mais de 100 dias. Já houve farto debate sobre esses argumentos, sobre a questão das pedaladas e dos créditos suplementares. Os senadores puderam formar sua opinião ao longo de meses. Por que os 40 minutos de fala de Dilma, sem nenhuma novidade, teriam o poder de modificar convicções que se consolidaram com o tempo?

Restava a possibilidade de uma jogada brilhante no campo da retórica e da política. Luiz Inácio Lula da Silva, o mentor da agora quase ex-presidente, insistiu muito para que ela privilegiasse essa abordagem no discurso. Diga-se o que se quiser de Lula, é inegável que ele sempre soube muito bem qual o poder de um discurso emotivo.

O histórico de Dilma como oradora, contudo, justificava a descrença na possibilidade de uma fala extraordinária. E as expectativas não foram desmentidas.

A fala de Dilma foi fria. Em um único momento ela se emocionou e chegou às lágrimas. Mas foi ao lembrar de lutas passadas: da tortura que sofreu durante o governo militar e do seu embate contra o câncer. A resistência ao impeachment claramente não desperta nela a mesma paixão e as mesmas convicções.

Seu tom professoral tornou mortiça  até mesmo a indignação que ela possa estar sentindo. Não houve crescendos nem pausas dramáticas, nenhum dos artifícios que os bons oradores usam para capturar a plateia.

Além disso, os entes que Dilma invocou como responsáveis pela suposta “perseguição” que sofreu são abstratos: o conservadorismo, a injustiça, até mesmo a misoginia. Difícil imaginar um senador que se sinta compelido a mudar de opinião nesses termos. Dilma não soube como empareda-los, fazendo com que aparecessem, cada um deles, como responsáveis finais pelo atentado à democracia que ela denuncia – ainda que esse atentado seja uma fantasia.

Houve inclusive um momento patético. Disse Dilma aos senadores: “Votem sem ressentimento. O que sentem contra mim e sentimos uns pelos outros importa menos do que sentimos pela democracia.” Como se um apelo desse tipo fosse capaz de cancelar todos anos de desprezo, muitas vezes temperado com raiva, que Dilma dedicou aos parlamentares. Alguns deles, é bom lembrar, tiveram a dura experiência de servir em seu ministério.  

Fica a impressão, apesar de tudo que se disse em contrário, que antes de subir à tribuna Dilma já havia capitulado, e se conformado a um papel que não servia à preservação de seu mandato, mas apenas à criação da tal “narrativa” que possa ajudar o PT a se manter à tona nos próximos anos. Qual? Aquela do golpe conservador e do desmonte iminente de todo o arcabouço de direitos conquistado pelos brasileiros nos últimos… 500 anos.

Dilma Vana Rousseff, como figura política, claramente não estava à altura do desafio que teve de enfrentar.

A cada minuto que passa é mais certo afirmar que seu tempo na presidência e os treze anos do PT no poder acabaram.

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