Carnaval de rua de SP cresce, mas ainda esbarra em problemas de estrutura
Blocos reclamam de falta de diálogo, enquanto prefeitura comemora os números da festa na capital paulista
O Carnaval de rua de São Paulo enfrenta problemas no ano de 2026. Com o crescimento no número de blocos que surgiram na cidade, surgem questões sobre a organização e o preparo da metrópole para lidar com a folia.
Os organizadores dos blocos reclamam do trato que a prefeitura tem dado aos cortejos, principalmente da falta de comunicação. Gustavo Leman, organizador do Bloco Tatuapé, comentou o assunto.
“O que falta é diálogo com a gente. A gente sabe que consegue colaborar muito. Como a gente fazia na gestão do Bruno Covas. Tinha acesso”. Ele também comentou que esses blocos estão nas ruas faz anos, e eles sabem o que funciona ou não, mas que a comunicação é muito difícil. “O que a gente não quer é virar coadjuvante”, disse Leman.
Leman também afirmou que diversos blocos na Zona Leste, inclusive outro que ele administra, o Bloco Tatuzinho Kids, bloco infantil, ficou sem banheiros químicos, que é de responsabilidade da prefeitura. A reportagem procurou a SPTuris, empresa de turismo em que a prefeitura é sócia majoritária, sobre essa questão e aguarda resposta. A companhia é responsável pelo Carnaval de rua em São Paulo.
Zé Cury, coordenador do Fórum de Blocos, apontou a falta de organização da administração de Ricardo Nunes (MDB). “Essa administração para o lado cultural do carnaval da cidade, zero esquema”, disse.
Os dois coordenadores também questionaram os valores repassados pela prefeitura para os blocos. “Eu não posso dizer que a Prefeitura fomenta o Carnaval”. Segundo o Cury, os 100 blocos beneficiados, recebem no máximo R$ 25 mil.
“A prefeitura trabalha com números a favor dela para engrandecer a atividade. E os blocos trabalham com prejuízo”, disse. “A impressão que dá é que a gente virou funcionário não remunerado da prefeitura”, afirmou Leman.
Os blocos com mega atrações com artistas internacionais também são preocupações dos organizadores, inclusive o que trouxe Calvin Harris no último domingo. “Esse bloco do rapaz escocês foi anunciado dois meses depois que as inscrições de blocos acabaram,” disse Cury, que também questionou a realização do evento. Leman acredita que esse tipo de ação está afastando o publico de blocos mais tradicionais.
“Isso não é um bloco de Carnaval. É um trio elétrico porque é um sistema de som ambulante, mas ele não é”, completou. Cury também observou que o tipo de fechamento das ruas, feitas com grades, é uma “bestialidade”, e sugeriu que o método usado no carnaval de Salvador, em que as ruas são fechadas com tapumes, deveria ser adotado.
“O prefeito criou uma gaiola de luta livre, com a pancadaria liberada e com os inocentes sendo esmagados pelo deslocamento da multidão que não quer participar”, disse.
O horário da dispersão dos blocos também tem sido um ponto comum de reclamação. “Economicamente falando não é interessante”, diz Leman. “O que a gente entende é que essa gestão faz é querer liberar a via às 19h a qualquer custo”, completou.
“Tudo isso pode dar certo no horário e pode atrasar. Então, três horas para duas multidões dispersarem era muito pouco. Já era tragédia anunciada”, disse Cury em relação à confusão de domingo.
Falta de organização e estrutura
A organização da estrutura é o principal problema que a prefeitura tem que resolver, segundo o professor de arquitetura e urbanismo do Mackenzie Valter Caldana.
Ele indicou que a prefeitura teria capacidade e conhecimento o suficiente para lidar com grandes massas, com, por exemplo, em finais de campeonato de futebol, que a confusão que ocorreu na Rua Augusta no último domingo, quando dois grandes blocos se encontraram, poderia, talvez, ser evitada.
Caldana também falou sobre a diferenciação entre as expressões populares culturais da cidade e eventos patrocinados com outras grandes atrações, que poderiam ser realocadas para evitar o grande número pessoas no mesmo local, assim como os organizadores.
“A junção do Baixo Augusta com o show do DJ [Calvin Harris] é o que aparentemente gerou o problema. Aí cabe a pergunta: Será que o DJ deveria estar na Consolação?”, questionou. Também sugeriu que a ação poderia ter ocorrido em outro local, com o Vale do Anhangabaú ou na Avenida Paulista.
“Essas hipóteses não foram consideradas até as últimas consequências”, disse. O escoamento das pessoas durante a passagem dos blocos foi indicado com ponto de melhoria, principalmente nas vias que são fechadas para a passagem do público.
“O tipo de controle desses nós, desses cruzamentos, vai precisar certamente ser melhor definido por quem é responsável por isso para que esse seja mais ligado a controle, do que simples fechamento”. Para o arquiteto, a cidade passa por um período de adaptação ao aglomerado de blocos em São Paulo.
“Precisamos tomar cuidado para não mercantilizar tudo e priorizar o aspecto mercantil. Continua sendo fundamentante uma expressão cultural”, terminou.
“Sucesso”, diz Nunes
O prefeito Ricardo Nunes (MDB), afirmou que o primeiro fim de semana do pré-carnaval foi um “sucesso”. Mesmo com os tumultos e a superlotação dos dois megablocos que aconteceram em horários parecidos na região da Consolação.
Houve diversos foliões que passaram mal, e as grades de proteção foram derrubadas. ‘Se considerarmos a quantidade de pessoas e as poucas ocorrências, a conclusão é que foi um sucesso”, disse Nunes em entrevista à GloboNews.
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A Prefeitura afirmou no dia que “o recorde de público em bloco na Rua da Consolação fez com que a administração liberasse as vias de acesso como áreas de escape e também determinou a retirada de gradis para melhorar a mobilidade dos foliões”.
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