Entenda como funciona o golpe do entregador de presente falso
Uma fraude baseada em engenharia social que combina vazamento de dados pessoais com manipulação presencial para realizar transações bancárias indevidas.
O golpe do presente de aniversário falso é uma modalidade de estelionato físico que explora datas comemorativas para furtar dinheiro das vítimas. Diferente de golpes puramente digitais, esta fraude envolve a interação presencial com um suposto entregador. A premissa é simples: a vítima é informada de que recebeu um presente (geralmente flores, chocolates ou cosméticos) de um remetente anônimo, mas precisa pagar uma taxa de entrega simbólica no ato do recebimento. É neste momento que o furto ocorre, através de maquininhas de cartão adulteradas ou aplicativos fraudulentos.
Definição técnica da fraude
Tecnicamente, este golpe é uma variação de vishing (phishing por voz) combinado com engenharia social presencial. Os criminosos utilizam bancos de dados vazados (disponíveis na dark web ou em listas ilegais de marketing) para identificar a data de nascimento, endereço e telefone da vítima.
O sucesso da operação depende da criação de um cenário de urgência e recompensa emocional. Ao receber um presente físico, a vítima tende a baixar a guarda, ativando um viés cognitivo de reciprocidade e gratidão. O fraudador explora essa vulnerabilidade psicológica para justificar a cobrança de uma taxa de transporte, momento em que utiliza dispositivos de pagamento comprometidos para debitar valores exorbitantes, muitas vezes na casa dos milhares de reais, em vez da taxa simbólica anunciada.
Como funciona o golpe do entregador de presente falso
A execução do crime segue um roteiro estruturado para garantir que a vítima não tenha tempo de raciocinar sobre a legitimidade da cobrança. O processo pode ser dividido em etapas claras:
1. Coleta de dados e contato prévio
Os golpistas monitoram listas de dados vazados para encontrar aniversariantes do dia ou da semana. Em muitos casos, entram em contato via telefone ou WhatsApp horas antes da entrega, confirmando o endereço para “liberar o envio” e gerar credibilidade. Eles informam que o presente já foi pago, mas há uma taxa de deslocamento pendente.
2. A abordagem presencial
Um motoboy chega ao endereço da vítima portando o presente físico. O item é real e visível (um buquê ou uma caixa de chocolates), o que serve para validar a história. O entregador geralmente age com pressa, alegando ter muitas entregas, para pressionar a vítima a agir rápido.
3. A recusa do pagamento em dinheiro
Esta é a etapa crítica. Quando a vítima oferece pagar a taxa (geralmente entre R$ 5,00 e R$ 10,00) em dinheiro, o entregador recusa, alegando normas da empresa ou falta de troco. Ele insiste que o pagamento deve ser feito exclusivamente por cartão de crédito ou débito, pois precisa “dar baixa no sistema”.
4. A manipulação da maquininha
Ao inserir o cartão, o golpe se concretiza de uma das seguintes formas:
- Visor danificado: O visor da maquininha está quebrado ou coberto por uma fita, impedindo a leitura do valor.
- Valor alterado: O entregador digita um valor muito superior (ex: R$ 2.000,00) em vez da taxa combinada.
- Software fantasma: Um aplicativo no celular do golpista simula uma transação de baixo valor na tela, mas processa um valor alto em segundo plano.
- Troca de cartão: Em um momento de distração, o entregador troca o cartão da vítima por outro similar e vai embora com o cartão original e a senha digitada.
Sinais de alerta e táticas comuns
Identificar os padrões utilizados pelos criminosos é a principal forma de prevenção. As táticas focam em dificultar a conferência dos dados transacionais.
- Bloqueio visual do visor: O entregador tenta esconder o campo de valor da maquininha com o dedo, adesivos ou alegando que o visor está “queimado” ou com pouco brilho devido ao sol.
- Recusa veemente de dinheiro: A insistência absoluta no uso do cartão, mesmo para valores irrisórios, é o maior indicador de fraude.
- Presente sem remetente claro: O entregador afirma não saber quem mandou ou diz que é uma surpresa anônima, evitando que a vítima ligue para alguém para confirmar o envio.
- Mensagens de erro falsas: O golpista afirma que a transação falhou e pede para passar o cartão novamente ou usar outro cartão, multiplicando o prejuízo.
Riscos financeiros e prevenção
A recuperação dos valores perdidos neste tipo de golpe é complexa. Como a transação é realizada presencialmente com o uso de cartão com chip e senha (autenticação forte), muitas instituições financeiras interpretam a operação como legítima em uma primeira análise, dificultando o estorno imediato.
Medidas de proteção eficazes:
- Recuse pagamentos extras: Se você não solicitou o serviço, não pague taxas de entrega. Presentes enviados legitimamente já possuem o frete pago pelo remetente.
- Verifique o visor: Jamais insira a senha se não puder ler claramente o valor e a modalidade (débito/crédito) na tela da maquininha.
- Notificações em tempo real: Mantenha as notificações do aplicativo do banco ativadas. Se o valor cobrado for incorreto, é possível identificar imediatamente.
- Priorize o pagamento por aproximação (NFC): Embora não seja imune, o pagamento por aproximação (via celular ou cartão) evita entregar o cartão físico na mão do suspeito e reduz o risco de troca de cartão.
Perguntas frequentes
1. O banco devolve o dinheiro roubado neste golpe?
Não é garantido. Como a transação é feita com a senha pessoal, o banco pode alegar que não houve falha de segurança no sistema. No entanto, é possível contestar a compra alegando fraude (artigo 171) e coação, sendo necessário apresentar boletim de ocorrência.
2. Como os golpistas sabem que é meu aniversário?
Através de mega vazamentos de dados que ocorrem periodicamente. Informações como CPF, data de nascimento e endereço circulam ilegalmente na internet e são compradas por quadrilhas para executar fraudes direcionadas.
3. Posso receber o presente sem pagar a taxa?
Geralmente não. O entregador (que faz parte do golpe) se recusará a deixar o item sem o pagamento, pois o objetivo não é a entrega, mas sim o roubo via maquininha. O mais seguro é recusar o recebimento se houver cobrança.
O golpe do presente de aniversário falso exemplifica a evolução dos crimes patrimoniais, unindo tecnologia e manipulação psicológica. A defesa mais robusta reside na desconfiança sistemática de cobranças não planejadas, especialmente aquelas que exigem exclusivamente o uso de cartão presencial. Ao se deparar com um entregador exigindo taxas para liberar brindes ou presentes surpresa, a recusa do pagamento e o contato imediato com familiares ou supostos remetentes anulam a eficácia da fraude.
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