Exclusivo: ‘Fiquei lisonjeada’, diz Thaís Oyama sobre reação de Bolsonaro a livro

  • Por Jovem Pan
  • 17/01/2020 19h11 - Atualizado em 17/01/2020 19h49
Jovem PanA comentarista do programa "3 em 1" Thais Oyama é autora de "Tormenta: O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos"

A jornalista e comentarista do programa 3 em 1 Thaís Oyama afirmou à Jovem Pan que ficou “lisonjeada” com as reações do presidente Jair Bolsonaro ao livro “Tormenta: O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos”, que ela lança na próxima semana.

Em uma live no Facebook nesta quinta-feira (16), Bolsonaro criticou Oyama e disse que a imprensa “tem medo da verdade”. “A nossa imprensa tem medo da verdade. Deturpam o tempo todo. Mentem descaradamente. Trabalham contra a democracia, como o livro dessa japonesa, que eu não sei o que faz no Brasil”, afirmou sobre a jornalista.

“Fiquei muito lisonjeada”, disse Thaís. “Se a intenção era desqualificar o livro, o fato de ele usar um argumento dessa natureza quer dizer que ele não achou outro melhor, então fiquei contente com o que ele disse”, explicou, ressaltando que não é japonesa, mas neta de japoneses. A comentarista também respondeu às críticas do chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, general Augusto Heleno, e disse que gosta muito dele. “Acho muito preparado.”

Bolsonaro x Moro

Em “Tormenta”, Thaís Oyama conta os bastidores do primeiro ano do governo Bolsonaro. Para levantar as informações, a comentarista do 3 em 1 ouviu várias fontes ligadas ao presidente. “Muitas informações que tive não publiquei porque não tive uma segunda confirmação”, afirmou, reforçando que tudo que está no livro é verídico. “Se eu não tiver como provar alguma coisa, aquilo sai do livro. Ninguém quer correr o risco de perder na Justiça”, disse.

Um dos pontos mais polêmicos do livro é sobre a relação entre Bolsonaro e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro. Na publicação, a jornalista afirma que o presidente estava convicto a demitir Moro.

Ela explicou que isso aconteceu após a discórdia sobre a manutenção de Maurício Valeixo no comando da Polícia Federal, em setembro. Outro entrevero aconteceu quando Moro foi ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedir ao presidente da Corte, ministro Dias Toffoli, que ele voltasse atrás na decisão de suspender a investigação contra o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ) no caso Fabrício Queiroz.

“A conversa chegou aos ouvidos do Bolsonaro, que ficou bravo”, contou Oyama sobre o pedido do ministro a Toffoli. “Na avaliação do Bolsonaro, quem é ministro dele, está com ele. Ele não faz essa diferenciação entre público e privado. Moro deveria estar mais disponível para ajudá-lo no problema [da investigação de Flávio], que é crucial para o governo.”

Segundo a autora, o general Heleno fez com que Bolsonaro mudasse de ideia sobre a demissão de ministro da Justiça. “Muitos dos apoiadores do Bolsonaro estão lá pela promessa de combate à corrupção e apoio à Lava Jato, que o Moro simboliza”, afirmou.

Ainda sobre Sergio Moro, Thaís Oyama garantiu que o presidente da República tem um compromisso com o ministro de indicá-lo ao STF. “Ele firmou esse trato”, sustentou. O cumprimento, no entanto, está em xeque porque Bolsonaro pensa em indicar outros dois nomes para a Corte: Jorge Oliveira, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, e André Luiz de Almeida Mendonça, advogado-geral da União.

Caso não vá para o STF, Moro pode ser um concorrente do presidente nas eleições de 2022. “Se ele rompe esse trato, Sergio Moro fica livre para fazer o que bem entender da vida. Vai ser uma escolha difícil para o Bolsonaro, que só pensa em reeleição”, afirmou Thaís.

Carlos Bolsonaro

Ainda na entrevista, Thaís comentou a relação entre Jair e Carlos Bolsonaro, outro ponto explorado no livro. A comentarista explicou que o presidente tenta “compensar” o filho por ter feito com que ele disputasse uma cadeira na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro contra a própria mãe, Rogéria Nantes Braga Bolsonaro, em 2000, quando tinha 17 anos.

“Ele ficou um tempo sem falar com o pai porque se sentiu usado e, de alguma forma, deixou o pai com uma culpa que ele tenta compensar até hoje”, disse, reforçando que o vereador tem uma “fragilidade emocional” parecida com a de Jair.

Segundo ela, ambos ainda têm “um fraco tremendo pela teoria das conspirações”. “Tudo que um semeia no outro viceja rapidamente. Quando junta um e outro, a coisa vai para o brejo”, brincou. “Um confirma o outro e por isso ele tem essa influência tão grande. Todos episódios em que aliados antigos acabaram caindo tiveram o dedo forte de Carlos Bolsonaro”, garantiu Thaís, lembrando das demissões do ex-Secretário-Geral da Presidência Gustavo Bebianno e do ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo general Santos Cruz.

Em “Tormenta”, a autora detalha que Jair Bolsonaro teve pessoas diferentes no entorno no primeiro e segundo semestre do ano passado. No começo do governo, o presidente estava cercado por militares, principalmente generais, que tinham carta branca para criticá-lo. Aos poucos, ele passou a se cercar de pessoas mais ligadas à ideologia dele e que o bajulavam.

“Esses primeiros conselheiros eram gente de patente superior, que tinha autoridade para criticá-lo, e ele aceitou isso por um tempo. Esse segundo grupo tem como característica o fato de criticar muito menos”, explicou. Ela ainda destacou que Bolsonaro se preocupa muito com a popularidade nas redes sociais e, por isso, se aproximou de pessoas que têm uma forte presença na internet. “Se há alguma coisa que o presidente sente, é a reação das redes sociais. Ele monitora, acompanha, recebe feedbacks diários e leva em consideração, até demais, eu acho.”

Assassinato de Marielle Franco e relação com milícias

Uma das crises do governo Bolsonaro em 2019 teve a ver com o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018. A investigação chegou a associar a família Bolsonaro ao crime, algo que Thaís Oyama acredita ser uma “fantasia”.

“Em um ano de apuração, conversando com gente próxima, adversários, não tive um único indício de que algum dos Bolsonaro tivesse algo longinquamente a ver com o assassinato da Marielle”, garantiu.

Ela, no entanto, acredita que a família tem envolvimento com a milícia — que também é acusada pela execução de Marielle. “Existe uma relação espúria e imoral entre os Bolsonaro e a milícia. A maneira como eles veem a milícia é uma forma completamente diferente de como a gente vê, eles não veem nada errado na forma como os milicianos ganham a vida”, disse. “Os milicianos sempre foram a base eleitoral de todos os Bolsonaro, essa é a relação que eles têm.”

Oyama ainda defendeu que Bolsonaro se acha um homem honesto. “Ele tem uma concepção própria e equivocada do que é honestidade e, na visão dele, ele é um homem honesto”, explicou. “Na visão rigorosa que a gente tem que ter com o presidente, ele escorregou algumas vezes.”