Especial “Tancredo Neves, o homem da transição”; capítulo 4: os últimos dias e a esperança de fazer uma grande nação

  • 15/04/2015 14h00 - Atualizado em 16/04/2019 18h24
Moreira Mariz/Folhapress 06.03.1985: Tancredo Neves

A madrugada de 15 de março de 1985, dia do enterro da ditadura brasileira, foi de agonia, apreensão e trabalho de bastidores.

O presidente eleito Tancredo Neves tinha sido operado às pressas na véspera. O vice José Sarney recebeu um comunicado: “me comunicam às 03h da manhã que vou assumir a Presidência da República. Aquilo foi um choque brutal. Tudo levava a crer que eu seria um presidente que ia entrar e ser deposto”.

A Constituição também foi cumprida pelos militares. Com a doença de Tancredo, o vice José Sarney tomou posse, aguardando a volta do líder. “Assumi, na impossibilidade, de fazê-lo o senhor Tancredo de Almeida Neves”, disse em discurso.

Com a posse de José Sarney, surgiu no país uma onda de fé pela recuperação de Tancredo Neves. Operado uma segunda vez, o presidente foi transferido para o Incor em São Paulo no dia 26 de março e passou por uma terceira cirurgia. “Está encerrada a cirurgia, propriamente dita, o presidente está bem”, disseram à época.

(Tancredo Neves e José Sarney conversam durante entrevista coletiva)

O secretário de imprensa Antônio Brito tentava demonstrar otimismo. “O meu consolo nisso, é que passados 30 anos, ninguém conseguiu apontar um fato extraordinariamente novo, que à época não tivesse sido revelado”.

As palavras de Antônio Brito registravam dia a dia o agravamento do quadro clínico de Tancredo. A esposa Risoleta Neves fazia um apelo: “peço a cada um, que continuem rezando”.

—related—O Brasil estava em vigília cívica em frente ao Incor, os semblantes eram de preocupação, de dor, de tristeza, mas de fé.

O historiador José Murilo de Carvalho salienta: “foi realmente um momento raríssimo de união nacional em relação à doença e à dor”.

Domingo, 21 de abril de 1985

Trigésimo oitavo dia de internação – eram seis da tarde. “Nas últimas horas, o estado de saúde do senhor Presidente da República passou a apresentar novas dificuldades nas suas condições hemodinâmicas”, falavam os boletins médicos.

O boletim seguinte foi lido às nove da noite. “Neste momento, o quadro clínico é bastante crítico atingindo características de irreversibilidade”, dizia.

Já passavam das dez da noite e a movimentação de autoridades no Incor aumentava – o Antônio Brito transmitia o boletim final. “Lamento informar que, o Excelentíssimo Sr. Presidente da República, Tancredo de Almeida Neves, faleceu esta noite, às 22h23. (…) Com a mesma fé, com a mesma determinação, o Brasil haverá de realizar os ideais do líder que acaba de perder”.

(Jornalista Antônio Britto anuncia morte de Tancredo Neves)

O médico David Uip, da equipe do presidente, temeu pela vida ao deixar o Incor. “Nós fomos praticamente agredidos. Tivemos de sair escoltados, porque as pessoas imputaram as responsabilidades da morte à equipe médica”.

Os dias seguintes foram de homenagens até o sepultamento em São João del Rey em 24 de abril. Antes o corpo passou por Brasília quando, simbolicamente, subiu a rampa do Palácio do Planalto.

No enterro, em Minas Gerais, a promessa de José Sarney: “asseguro à nação, que o legado de Tancredo Neves permanecerá vivo”.

(22/04/1985: Cortejo fúnebre do presidente Tancredo Neves em São Paulo)

Anos depois, uma reflexão do ex-presidente José Sarney: “muitos deram a sua vida pelo Brasil. O Tancredo deu a sua morte”

O legado de Tancredo Neves para a transição democrática é indiscutível. Mas o professor Boris Fausto sabe que a história ficou incompleta: “ele não governou, então a gente fica sem saber o que ele teria feito, qual teria sido o legado, quais seriam os seus erros. Ficou num ponto de interrogação com a morte”.

Apesar das interrogações, Tancredo Neves garantiu o nome na história – o presidente morreu no dia de Tiradentes: os dois eram movidos por esperança: “dizíamos há quase 200 anos, Tiradentes, aquele herói enlouquecido de esperança, ”poderemos fazer deste país uma grande nação. Vamos fazê-la””, disse Tancredo Neves.

Reportagem especial de Thiago Uberreich em razão dos 30 anos da morte de Tancredo Neves. Confira os dois primeiros capítulos:

  • Especial “Tancredo Neves, o homem da transição”; capítulo 1: o nascimento político do conciliador. CLIQUE AQUI.
  • Especial “Tancredo Neves, o homem da transição”; capítulo 2: as Diretas e a esperança democrática. CLIQUE AQUI.
  • Especial “Tancredo Neves, o homem da transição”; capítulo 3: a vitória nas indiretas e a comoção nacional na doença. CLIQUE AQUI.
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