“Eu espero que quando terminar isso aqui alguém peça desculpas”, disse Lula à PF

  • Por Jovem Pan
  • 14/03/2016 11h49
EFE - Fotos Lula Luiz Inácio Lula da Silva ex-presidente

No final do depoimento de 109 páginas que Lula deu à Polícia Federal no último dia 4 após condução coercitiva, Lula exigiu um pedido de desculpas: “Eu espero que quando terminar isso aqui alguém peça desculpas. Alguém fale: “Desculpa, pelo amor de Deus, foi um engano”. Em seguida, os advogados do ex-presidente pediram para encerrar o depoimento. Lula classificou o final da fala como um “desabafo”.

Lula disse seis vezes um palavrão. Veja aqui.

Lula também fez fortes críticas à imprensa (especialmente à Globo e à Revista Veja) e ao promotor paulista Cássio Conserino, que viria a pedir sua prisão preventiva ainda na semana passada (veja mais abaixo). Lula disse estar “de saco cheio”.

O ex-presidente aparentemente começou a ficar irritado quando questionado sobre seus conhecimentos em relação à atuação de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, preso na Lava Jato e condenado a 15 anos de prisão por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Vaccari teria recebido pelo menos R$ 4,26 milhões em propina de contratos da Petrobras.

Lula é o “declarante”. Veja o contexto da irritação de Lula, na última página do depoimento:

Delegado da Polícia Federal:- Tenho, mas é rápida. Conversando com o Vaccari Neto, tentando ver se a gente podia, se ele ia se declarar sobre todas as acusações que pesam sobre ele, e ele se colocou na postura bem firme, e eu respeito isso acima de tudo, que ele ia manter o silêncio dele, que é um direito constitucional. Eu trabalho atrás da verdade, é o que me motiva no trabalho da polícia. Tive oportunidade de ouvir alguns desses colaboradores ou delatores, não importa o nome que se dê na situação, e muitos deles realmente colocaram e atribuíram uma determinada responsabilidade ao João Vaccari Neto pra recebimento de valores decorrentes de fechamento de contrato de percentual. Isso é assunto da justiça, vai ser provado com as provas que tem. A minha pergunta para o senhor: o senhor tinha conhecimento disso, nunca teve conhecimento disso, acredita que isso é possível sem o conhecimento do senhor?

Declarante:- Eu tinha conhecimento que o Vaccari era um companheiro extraordinário, foi um grande dirigente sindical e foi um grande dirigente do PT. Eu não acredito que o Vaccari tenha acertado percentual com empresa pra receber, não acredito, não acredito. Acontece que no Brasil nós estamos vivendo um período, desde o Mensalão, que as pessoas não tem que ser culpada, ele não será condenado pelo julgamento apenas, ele será condenado pelas manchetes dos jornais. As manchetes dos jornais amedrontam a Polícia Federal, amedrontam o Ministério Público, amedrontam a Suprema Corte, amedrontam todo mundo, todo mundo. Você vê gente dar declaração que votou contra tal coisa porque passou uma faixa na porta da casa dele dizendo isso. Você entra com um processo defendendo um cidadão, que ainda não foi julgado, portanto ainda não é criminoso, a rede social amedronta a pessoa, ligando, passando coisa pra família. É esse país que a gente está vivendo. Então, o que eu acho que nós estamos vivendo, nós estamos vivendo uma situação em que as pessoas são condenadas antes de serem julgadas. No caso do Mensalão porque não tinha prova, veja, começou com a maior denúncia de corrupção da história da humanidade, terminou com 175… com alguns milhões da Visanet, que não era empresa pública e que o dinheiro foi pago por meio de comunicação. Mas como tinham adotado a teoria da lei do domínio do fato, que foi utilizada para punir (incompreensível) na Alemanha, era preciso condenar. Então o José Dirceu e outros companheiros estavam condenados mesmo que fossem liberados, estavam condenados. Não poderiam entrar num restaurante, não poderiam sair na rua, não poderiam ir pra lugar nenhum. É o que estão tentando fazer comigo agora, só que o que estão tentando fazer comigo vai fazer com que eu mude de posição, eu que estou velhinho, estava querendo descansar, vou ser candidato à Presidência em 2018 porque acho que muita gente que fez desaforo pra mim, vai aguentar desaforo daqui pra frente. Vão ter que ter coragem de me tornar inelegível. Porque, é o seguinte, eu tenho uma história de vida, eu tenho uma história de vida, a minha mulher com 11 anos de idade já trabalhava de empregada doméstica e minha mulher prestar um depoimento sobre uma porra de um apartamento que não é nosso?! Manda a mulher do procurador vir prestar depoimento, a mãe dele. Por quê que vai minha mulher? Por que as pessoas não levam em conta a família que está lá, a molecada frequenta escola. Então, eu quero te dizer o seguinte: eu ando muito puto da vida, muito, muito zangado porque a falta de respeito e a cretinice comigo extrapolou. E olha que eu tenho me comportado, tenho tentado manter a linha, vou cumprir tudo que eu acho que tem que ser cumprido, porque nesse país ninguém cuidou mais de fazer lei pra cobrir a corrupção do que nós, ninguém, ninguém. Ninguém. Eu lembro que quando houve a denúncia das Ilhas Cayman, o diretor da polícia foi afastado, imediatamente. No nosso caso, no nosso caso, duvido que um delegado tenha sido afastado pra investigar, e tem que ser assim, por isso é que eu defendo instituição séria. Agora, eu acho que era importante que todo mundo assistisse um pouco “Doze Anos de Escravidão”, pra ver como é que se constrói uma mentira e se condena um inocente.

Delegado da Polícia Federal:- Por isso que eu estou perguntando sobre o Vaccari, que eu humildemente…

Declarante:- Eu sou amigo do Vaccari, gosto de Vaccari. Não, agora veja, qual é a tese? A tese da compulsão, que é a tese que está prevalecendo na delação premiada, a tal da advogada que ganhou não sei quantos milhões na delação premiada, está em Miami agora. Os empresários estão numa situação muito confortável, eu chego lá falo o seguinte “Olha, eu não tenho nada, foi o X que me forçou, ele que me pediu, ele que não sei das quantas.” Está condenado o cidadão. Qualquer bandido que for prestar delação premiada fica manchete de jornal. Não tem lá um tal de Fernando Baiano que vocês citaram aqui, que foi lá e falou “Porque não sei que disse que o José Carlos Bumlai deu 2 milhões e 400 pra nora do Lula” E eu tenho quatro noras e agora eu quero saber quem foi que pegou esse dinheiro. Então, esse depoimento do Delcídio ontem, essa delação premiada, ou seja, nós estamos vivendo que situação nesse país? Ou seja, não existe mais a política, não existe mais a justiça, ou seja, existe uma quantidade de mentiras.

Delegado da Polícia Federal:- Eu, pessoalmente, presidente, eu estou atrás da verdade pessoalmente. Ouvi todos os colaboradores…

Declarante:- Se você está atrás da verdade, você mande prender um cidadão do Ministério Público, que diz que o apartamento é meu,  mande prendê-lo.

Delegado da Polícia Federal:- Eu ouvi uma grande quantidade de colaboradores e fui ouvir João Vaccari. Quando gostaria de pedir que o João Vaccari me explicasse sobre essas situações ele falou: “Não vou falar nada” E eu respeito isso, de verdade. Eu acho mesmo que o Estado é que tem que provar, eu concordo com isso. Se da parte do senhor, ex-presidente, falou: “Olha, eu não tinha conhecimento e não acredito que ele tinha”, eu vou respeitar essa posição, não é a tese que, pessoalmente, acredito, mas é a tese que eu vou respeitar.

Declarante:- Está ótimo. Eu espero que quando terminar isso aqui alguém peça desculpas. Alguém fale: “Desculpa, pelo amor de Deus, foi um engano”.

Delegado da Polícia Federal:- O que estiver errado dos meus atos…

Declarante:- Porque, veja, um picareta de um deputado do PSDB, vai ao Janot e faz uma entrega com denúncias e, ao invés de você ter alguma conversa, a primeira coisa que você faz é aceitar? Não, eu, sinceramente, eu acho bom que seja pra cima de mim, eu acho bom que…

Defesa:- Deixa eu só fazer uma pergunta, está encerrado já, né. Já falou tudo já…

Declarante:- Já está encerrado, aqui é só desabafo mesmo.

Delegado da Polícia Federal:- Não, senhor. Está gravando ainda.

Declarante:- Aqui é só desabafo.

Defesa:- Então nós podemos encerrar, né?

Delegado da Polícia Federal:- Ainda está gravando. Se os senhores quiserem encerrar…

Defesa:- Por isso que ele já havia encerrado, que teve uma pergunta que ele respondeu. Só pra ficar mais à vontade.

Delegado da Polícia Federal:- É, desliga ali tudo.

Declarante:- Eu até acabei de ver o que eu gravei aqui, porque eu realmente, realmente, é…

Defesa:- Ele está desabafando, então não é…

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“SACO CHEIO”

Sobre as reformas no sítio de Atibaia, Lula criticou fortemente o promotor do Ministério Público de São Paulo Cássio Conserino e órgãos da imprensa. Lula é tratado como “declarante”. Veja:

Defesa:- Doutor, o objeto da investigação o senhor pode esclarecer qual é?

Delegado da Polícia Federal:- Sim. Como eu já adiantei para o ex-presidente, ele envolve reformas e aquisição e registro da propriedade do sítio em Atibaia, eventuais reformas e registro de propriedade do flat…

Declarante:- O senhor deveria estar entrevistando o Ministério Público, trazer o Conserino aqui e fazer pergunta para ele, para ele dizer que é meu, para ele dizer que o apartamento é meu, para ele dizer que eu paguei o apartamento, ele que tem que dizer, não eu.

Delegado da Polícia Federal:- O que interessa para nós…

Declarante:- Que o cidadão conta uma mentira e eu sou obrigado a ficar respondendo a mentira dele.

Delegado da Polícia Federal:- Mas se o senhor não responder quem vai responder?

Declarante:- Um cidadão que é membro do Ministério Público, que fica a serviço da Globo, do Jornal Globo, da Revista Veja, fazendo insinuações e eu tenho que responder? Ele que diga, ele que prove, no dia que ele provar que o apartamento é meu alguém vai me dar o apartamento, ou o Ministério Público vai me comprar o apartamento ou a Globo me compra o apartamento, ou a Veja me compra o apartamento, ou sei lá quem vai me comprar o apartamento, o que não é possível é que a gente trabalhe tanto para criar uma instituição forte nesse país e dentro dessas instituições pessoas que não merecem estar nessa instituição estejam a serviço de degradar a imagem de pessoas, não sou eu que tenho que provar que o apartamento é meu, ele é que vai ter que provar que é meu, ele vai ter, eu espero que ele tenha dinheiro para depois pagar e me dar o apartamento, eu já estou de saco cheio disso, essa é a verdade, estão gravando aqui para ficar registrado. Eu estou de saco cheio de ficar respondendo bobagens.

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PEDALINHO

Lula também mostrou irritação ao ser questionado sobre os pedalinhos do sítio em Atibaia.

Delegado da Polícia Federal:- É, tá certo. O senhor tem conhecimento se a dona Marisa ou algum familiar seu comprou algum bem como, volto a dar o exemplo, o barco, e mandou entregar no sítio?

Declarante:- Não sei.

Delegado da Polícia Federal:- Recentemente foi noticiado que tinha pedalinhos com inscrições.

Declarante:- Ela comprou, certamente que ela comprou.

Delegado da Polícia Federal:- E o barco…

Declarante:- Certamente que a dona Marisa adoraria ver os netos dela e outras crianças que fossem lá possivelmente passear naquilo.

Defesa:- Doutor, o senhor me permita uma intervenção, se a linha de investigação é que o sítio é do presidente e não dos reais proprietários, isso é prova documental, ou seja, o senhor tem aí a escritura, o senhor tem o cheque que comprou o sítio. O fato de frequentar, de ter pedalinho, de ter barco? Nós somos profissionais do direito, isso não transfere propriedade, isso a imprensa pode explorar, mas nós, operadores do direito, não podemos explorar isso.

Delegado da Polícia Federal:- Eu preciso dar oportunidade ao investigado pra que ele esclareça…

Defesa:- Qual seria o crime que o senhor estaria investigando por ter um barco e um pedalinho?

Delegado da Polícia Federal:- O mesmo que eu falei desde o início, que apura o registro da propriedade do sítio, e aqui o ex-presidente está esclarecendo…

Declarante:- Eu fico, acho que não é legal, eu fico constrangido de você me perguntar de pedalinho e de me perguntar de um barco de 3 mil reais, sinceramente eu fico…

Defesa:- Há uma questão muito importante nessa resposta agora, delegado.

Declarante:- Eu acho que depõe contra, não sei, depõe contra mim. Fica bem pra Veja, mas desde então…

Delegado da Polícia Federal:- Eu só estou lhe dando oportunidade de esclarecer o que tem sido publicado e o que realmente é verdade.

Defesa:- Delegado, uma questão só, uma questão, é que na ordem das perguntas há uma mistura temporal, por exemplo, ele falou só soube em janeiro, aí o senhor pergunta do pedalinho e tal, como se aquilo fosse à época, antes de ele sair da presidência. Então isso poderá, amanhã, numa tradução, imaginar o seguinte: ele, presidente, sabia que havia pedalinho como se fosse dentro da época que ele não tinha conhecimento. Então só vamos tentar esclarecer, deixar nas perguntas pra ficar explicado isso também, correto?

Delegado da Polícia Federal:- Sim. Todo momento que pode haver esse tipo de dúvida ou confusão temporal, os senhores têm toda a liberdade de pedir pra que seja esclarecido.

Defesa:- Vou só deixar esclarecido então que a questão do pedalinho e do barco é bem posterior, é coisa de 1, 2 anos atrás, não se misturando com os fatos que eram de 2010, final de 2010, 2011.

Declarante:- E a imprensa foi atrás da nota do pedalinho.

Delegado da Polícia Federal:- Sim, sim. Mas esse é o momento para a gente esclarecer. E os senhores têm toda a liberdade de pedir pra que seja esclarecido.

Declarante:- Eu fico chateado de ver um Delegado de Polícia Federal se preocupar com pedalinho (ininteligível).

Delegado da Polícia Federal:- Eu só tenho uma preocupação aqui, é lhe dar oportunidade para o senhor responder isso.

Declarante:- É o pedalinho.

Defesa:- É o que eu acho, doutor, me desculpe, a questão da propriedade, quer dizer, então existe uma escritura do sítio onde constam duas pessoas, “Ah, quem pagou?”, na escritura consta o cheque que pagou, então se tem esse caminho, quer dizer, a menos que haja algum tipo de vício nessas declarações, o fato de ter um pedalinho, de ter um barco, de ter o que for lá dentro, não pode tornar o ex-presidente proprietário. Então, eu acho que, assim, o que eu pediria é que nós pelo menos levássemos em consideração que há esses documentos, que são públicos, têm fé pública, certo? Então fazer perguntas em torno de aspectos que não podem contribuir…

Delegado da Polícia Federal:- Doutor, as perguntas que estão sendo feitas é para esclarecer justamente documentos que ainda não foram esclarecidos e isso só ajuda ao seu cliente a esclarecer. Isso chama ampla defesa. Então se eu estou com uma dúvida e eu estou conduzindo uma investigação, eu sou obrigado a perguntar, o seu cliente não é obrigado a responder.

Defesa:- Eu sei disso, eu só estou colocando esta questão pra lembrar ao senhor de que há esses documentos que têm fé pública…

Declarante:- Agora, se eu não responder mais é porque eu me sinto envergonhado de falar no pedalinho.

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Foi divulgada mesta segunda (14), no decorrer das investigações da Operação Lava Jato, a íntegra do depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no último dia 4. Lula foi levado em condução coercitiva a depor à Polícia Federal no aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo.

Lula é suspeito de ter recebido benefícios deR$ 30 milhões de empreiteiras por meio de seu Instituto Lula e de sua empresa de palestras, o LILS Palestras. Em depoimento de meia hora logo após a ação da polícia, Lula se disse “indignado e magoado” com a ação.