Eventual delação de Cunha pode arrastar PMDB para o centro da Lava Jato

  • Por Marina Ogawa/Jovem Pan
  • 19/10/2016 16h46
Brasília- DF 12-09-2016 Sessão da câmara dos deputados durante discurssão e votação da cassação do deputado Eduardo Cunha. Foto Lula Marques/Agência PTEduardo Cunha - Ag. PT

Preso nesta quarta-feira (19) no âmbito da Operação Lava Jato, o ex-deputado Eduardo Cunha pode implicar grandes nomes da política caso decida propor um acordo de delação premiada. Considerado um dos troféus da operação que apura os desvios na Petrobras, o peemedebista foi preso preventivamente, ou seja, não tem prazo determinado para sair. A previsão é que ele fique detido indefinidamente, segundo Vera Magalhães, comentarista da Jovem Pan.

O ambiente, agora, é propício para um acerto de delação. Esta, no entanto, não depende apenas dele, mas das informações que ele tem a fornecer, bem como da aceitação por parte do Ministério Público.

“Ele vai ter que entregar muita coisa. Existem documentos vindos da Suíça. Existem delações que o citam em outros casos. Ele é uma pessoa contra a qual o MP tem muitas provas e muita vontade de que ele cumpra a pena integral”, lembrou Vera Magalhães.

Portanto, para que o MP aceite um acordo com Cunha é necessário que ele tenha informações que ampliem o que já se sabe nas investigações. “Por isso causa tanto temor uma eventual delação”, disse Vera.

PMDB no olho do furacão

Ex-presidente da Câmara, Cunha é ligado aos caciques do PMDB por ter, supostamente, arrecadado dinheiro em suas campanhas. Mas não seria apenas a delação de Cunha que implicaria o partido. A delação de Fernando Cavendish, da Delta, também pode fazer a Lava Jato fechar o cerco sobre a sigla.

Para o cientista político Rafael Cortez, não há uma tendência a determinado partido sofrer mais riscos, porque a crise política decorrente do desdobramento das investigações mostra um “problema mais sistêmico”.

Ele, no entanto, destacou que os partidos que integraram a base aliada nas gestões de Lula e Dilma a frente do Palácio do Planalto são os que podem acabar sofrendo mais. “Não acho que isso seja suficiente para apontar os partidos que correm mais risco comparado aos demais, já que as práticas perpassam o Governo, independentemente da coloração partidária”, ponderou.

PT alvo de Cunha?

Vera Magalhães destaca que o Partido dos Trabalhadores é um dos principais alvos de Cunha em uma eventual delação. “Cunha é pluripartidário, tem relação com os outros partidos e interesse especial no PT”.

Cunha x Michel Temer

Caso a delação ocorra e o nome do presidente seja citado em irregularidades, Temer contará com mais um fator que pode mexer com as rédeas que, até o momento, parecem estar mais controladas. “A Lava Jato é a principal fonte de instabilidade do Governo e da base aliada no Congresso. A Lava Jato diminui a legitimidade da classe política e atrapalha a condução da agenda reformista da administração Temer, na medida que o tema da prisão de Cunha deve roubar atenção no Legislativo”, disse Cortez.

Em contrapartida, o deputado Rogério Rosso (PSD-DF) destacou em entrevista exclusiva a Jovem Pan Online que a Câmara deve continuar focada na aprovação das reformas e evitou falar em eventual delação de seu aliado.

Impeachment e a tese de golpe

Segundo a comentarista da JP Vera Magalhães, não há efeitos da prisão de Cunha para o processo que afastou definitivamente a agora ex-presidente Dilma Rousseff. “Impeachment seguiu os ritos definidos pelo Supremo Tribunal Federal. Isso tira a força da narrativa do PT de que a Lava Jato só persegue os petistas. Agora está provado que a Lava Jato vai em cima do Cunha também”, explicou.

Sobre a tese de golpe, sustentada durante o processo de impeachment, Vera esclareceu: “que golpe é esse que um dos artífices é preso antes do golpeado? Não tem o menor sentido”.

Boatos durante esta semana davam conta de que o ex-presidente Lula seria preso pela Polícia Federal. No entanto, tal fato não ocorreu, o que segundo Rafael Cortez enfraquece ainda mais o discurso de vitimização por parte dos petistas.