Fraude em bilhetes eletrônicos seria usada para controlar e manter esquema de propina no transporte do Rio

  • Por Jovem Pan
  • 25/08/2017 11h44 - Atualizado em 25/08/2017 11h48
A movimentação financeira da Riocard é de cerca de R$ 6 bilhões ao ano

Em mais uma ação da Operação Ponto Final, desdobramento da Lava Jato no Rio, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal fizeram buscas na sede da Riocard, empresa responsável pelos bilhetes eletrônicos usados no transporte público da maior parte das cidades fluminenses, no centro do Rio de Janeiro, na manhã desta sexta-feira (25).

Os indícios são de que a Riocard se juntava à Fetranspor (Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro) e a RioPar, que desenvolve o sistema de bilhetagem eletrônica no Estado, para desviar dinheiro para propina.

Segundo a PF, a Fetranspor utilizaria o controle sobre os dados dos bilhetes para gerenciar a arrecadação de dinheiro pelas empresas de ônibus e o repasse de propina a políticos e agentes públicos, a fim de manter privilégios no setor.

Duas pessoas que trabalham no escritório da Riocard, um diretor administrativo e outro funcionário, foram presos em flagrante pela PF nesta sexta ao tentar esconder a CPU de um computador que poderia conter provas.

O juiz federal Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, autorizou os mandados de busca e apreensão.

Já foram presos na Operação Ponto Final, que desvendou um esquema de corrupção milionário no ramo de transportes, o “rei do ônibus” Jacob Barata Filho (ex-presidente da Fetranspor, solto por Gilmar Mendes), Rogério Onofre, ex-presidente da Detro, entre outros empresários do ramo, também libertos da cadeia por habeas corpus concedido pelo ministro do STF Gilmar Mendes.

André Nolte, diretor financeiro da Fetranspor, informou ao MPF que a Fetranspor gere de maneira centralizada o dinheiro que vem da bilhetagem eletrônica e, depois, ressarce as empresas responsáveis. Nolte disse que a movimentação financeira da Riocard é de cerca de R$ 6 bilhões ao ano.

Investigações

Em 5 de julho, quando foi deflagrada a Ponto Final, Luiz Carlos Bezerra já era apontado pelos investigadores como operador financeiro de Sérgio Cabral, e confessou voluntariamente que recolhia propina na sede da empresa Flores em São João de Meriti Bezerra admitiu também que codinomes como “Jardim”, “Flowers” e “Garden” constantes de anotações de contabilidade feitas em agendas, apreendidas durante a deflagração da Operação Calicute, em novembro de 2016, eram referentes à Companhia Viação Flores, cujo sócio administrador é o empresário José Carlos Reis Lavouras – sócio também de mais 13 empresas ligadas ao ramo de transporte. Lavouras também figura como membro do Conselho de Administração da Riopar Participações SA (Bilhete Único e Riocard) juntamente com o empresário Jacob Barata Filho (na condição de presidente) e Lélis Marcos Teixeira (como secretário da mesa apuradora).

Para o Ministério Público Federal, o esquema de corrupção encontra-se organizado a partir de quatro núcleos básicos: núcleo econômico, formado pelos executivos das empresas organizadas em cartel; o núcleo administrativo, composto por gestores públicos do governo do Estado, os quais solicitaram/receberam propinas; núcleo operacional cuja principal função era promover a lavagem de dinheiro desviado; e núcleo político, integrado pelo líder da organização Sérgio Cabral.

A Operação Ponto Final decorre das investigações das Operações Calicute e Eficiência.
A Ponto Final investiga pagamento de mais de R$ 260 milhões a políticos e agentes públicos.

De acordo com as investigações, entre 2010 e 2016, Sérgio Cabral recebeu R$ 122,85 milhões. Já Rogério Onofre, ex-presidente do Detro, recebeu R$ 44,1 milhões em propinas pagas pelas empresas de ônibus.