Funcionários apontam fatores que podem ter facilitado corrupção na Petrobras

  • Por Agência Câmara Notícias
  • 10/06/2015 21h02
Petrobras

CPI da Petrobras ouviu, nesta quarta-feira (10), os depoimentos de seis funcionários e ex-funcionários da estatal, com passagens por vários setores da empresa. Eles negaram irregularidades em suas respectivas áreas, mas apontaram fatores que podem ter facilitado a ocorrência de sobrepreço e aumento de custos em obras.

Os trabalhadores foram convocados a pedido do deputado Altineu Côrtes (PR-RJ), sub-relator responsável pela investigação do superfaturamento na construção de refinarias. Como não eram acusados de irregularidades, foram ouvidos na qualidade de testemunhas – e, como tal, obrigados a dizer a verdade.

O engenheiro Maurício Guedes, gerente-executivo de Engenharia de Abastecimento da estatal, admitiu que um contrato de R$ 3,8 bilhões para a construção de uma unidade de hidrogênio do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) foi assinado sem licitação.

Guedes foi o coordenador da comissão de negociação nomeada pela Petrobras para definir o custo da obra com o consórcio designado para construir a unidade, formado pelas companhias Toyo, UTC e Odebrecht. Ele atuou na negociação do preço, depois que o consórcio já tinha sido escolhido pela Diretoria Executiva da estatal.

Pressa e prazo reduzido
O engenheiro atribuiu o aumento dos custos das obras da Refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco, à pressa e aos prazos reduzidos do projeto. A refinaria foi orçada inicialmente em 2,5 bilhões de dólares, valor que subiu para 18,5 bilhões de dólares ao final.

“Na época, precisava-se de um prazo menor. Então, a Petrobras adquiriu centenas de equipamentos para as obras. A estatal ficou encarregada de fazer os projetos executivos – e não as empresas contratadas”, explicou Guedes. “Os equipamentos nem sempre se ajustavam ao planejamento. O problema foi a pressa e não a maturidade do projeto”, completou.

Em resposta ao deputado Antonio Imbassahy (PSDB-BA), o engenheiro informou que a competência para definir os prazos das obras da Rnest e do Comperj era da Diretoria Executiva da Petrobras, “a partir de pauta da Diretoria de Abastecimento”. A diretoria de Abastecimento era ocupada na época por Paulo Roberto Costa, um dos delatores da Operação Lava Jato.

Ação em conjunto
Guedes afirmou ainda não acreditar que o ex-gerente de Tecnologia Pedro Barusco tenha agido sozinho no esquema de corrupção e propinas na estatal. Barusco, em acordo de delação premiada com a Justiça Federal, disse ter recebido 97 milhões de dólares em propinas entre 1997 e 2010.

Segundo o engenheiro, os procedimentos internos da Petrobras preveem muitas instâncias decisórias, em esquema colegiado, o que dificulta uma ação isolada. “Nesse ponto, eu compartilho com o que declarou aqui a ex-presidente da Petrobras, Graça Foster”, disse, em referência ao depoimento de Foster à CPI.

Licitações
O engenheiro Heyder de Moura Carvalho, ex-gerente de Compras para Empreendimentos da Área de Abastecimento, também admitiu falhas nos procedimentos da Petrobras. Para ele, a estatal cometeu erros ao contratar empresas para realizar obras que ainda não estavam bem definidas.

Outra fragilidade foi apontada pelo engenheiro Marcos José Pessoa de Resende, gerente responsável pela construção de unidades de produção da Abreu e Lima. Segundo ele, as empresas que iam disputar cada um dos contratos eram previamente selecionadas pela área de Engenharia da Petrobras.

Resende explicou que as concorrentes para cada um dos contratos da refinaria eram definidas em documentos internos chamados Documento Interno do Sistema Petrobras (DIP), emitidos pelos gerentes-executivos das áreas de Abastecimento e Serviços, respectivamente, Venina Velosa e Pedro Barusco, bem como pelo então gerente-geral da refinaria, Glauco Legatti.

“Isso significa que as empresas podiam combinar entre si quem ia ganhar as licitações em cada contrato”, concluiu o deputado Izalci (PSDB-DF).