Impedido em 92, Collor defende queda de Dilma: “o rito é o mesmo, o ritmo, não”

  • Por Jovem Pan
  • 11/05/2016 23h31
Senador Fernando Collor (PTB-AL) destaca sua absolvição, pelo Supremo Tribunal Federal, em processo no qual foi acusado dos crimes de peculato, corrupção passiva e falsidade ideológica no período em que ele era presidente da RepúblicaFernando Collor

O ex-presidente Fernando Collor de Mello, 38º senador a discursar sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff, deu a entender que é a favor da saída da petista, apesar de não deixar 100% claro que será favorável à decisão. Collor, que foi o primeiro a passar pelo mesmo processo em 1992, citou uma obra de Rui Barbosa para iniciar seu discurso sobre o afastamento de Dilma. 

“Todas as crises, portanto, que pelo Brasil estão passando, e que dia-a-dia sentimos crescer aceleradamente, a crise política, a crise econômica, a crise financeira, não vêm a ser mais do que sintomas, exteriorizações parciais, manifestações reveladoras de um estado mais profundo, uma suprema crise: a crise moral. Em 1992, esse trecho foi utilizado por Barbosa Lima Sobrinho como introito à denúncia que apresentou contra mim. Ruínas de um governo. É a expressão de Rui Barbosa para invocar as crises que atingiram o Brasil nos anos 30. (…) Chegamos ao ápice de todas as crise. Chegamos às ruínas de um governo. As ruínas de um país”, disse o ex-presidente.

Collor questionou também as diferenças no processo que ele sofreu, em 92, e o atual. De acordo com o senador, o trâmite é o mesmo, mas não é feito de forma tão rigorosa como à sua época de presidente.

“Em 1992, em processo análogo, bastaram menos de quatro meses entre a apresentação da denúncia até a decisão de renunciar no dia do último julgamento. No atual processo, já se foram mais de oito meses. A depender do resultado de hoje, mais seis meses são previstos até o julgamento final. O rito é o mesmo, mas o ritmo e o rigor, não. Basta lembrar: entre a chegada no Senado da autorização da Câmara até o meu afastamento provisório transcorreram 48 horas. Hoje estamos há 23 dias somente na fase inicial nesta casa. O parecer da comissão especial que hoje discutimos possui 128 páginas. O mesmo parecer de 1992, elaborado a toque de caixa, continha meia página, com apenas dois parágrafos. (…) Em 1992 fui instado a renunciar na suposição que as acusações contra mim fossem verdadeiras. Mesmo sem a garantia da ampla defesa pelo Congresso, em todas as fases me utilizei de advogados particulares. Dois anos depois fui absolvido de todas as acusações do Supremo Tribunal Federal. Portanto, dito pela mais alta corte de justiça do país, não houve crime”, comparou.

O ex-presidente revelou ainda ter alertado Dilma Rousseff sobre tudo o que se passava no seu governo, inclusive sobre o atual o momento.

“É crime de responsabilidade, senhor presidente, a mera irresponsabilidade com o país. Seja por incompetência, negligência ou má-fé. Mas não foi por falta de aviso. Desde o início deste governo fui, ao longo dos anos, a diversos interlocutores da presidente para mostrar os problemas que eu antevia, e que desembocaram nessa crise sem precedentes. Falei dentro da minha convicção dos erros na economia, na excessiva intervenção estatal, nas imprudentes renúncias fiscais, falei da falta de diálogo com o parlamento. Nos raros momentos com a presidente, externei minhas preocupações, especialmente após a sua reeleição, quando sugeri a ela uma reconciliação de seu novo governo com os seus eleitores e com a classe política. Sugeri que fosse à televisão pedir desculpas por tudo que se falou na campanha eleitoral, desmentindo depois por seus próprios atos, nos primeiros meses do atual mandato. Alertei sobre a possibilidade de sofrer impeachment, mas não me escutaram”, contou Collor.

Para finalizar o seu discurso, o ex-presidente citou um trecho do livro “Collor Presidente Trinta Meses de Turbulências, Reformas, Intrigas e Corrupção”, do comentarista da Jovem Pan, professor Marco Antonio Villa e afirmou: “a história me reservou esse momento”.

Confira no áudio acima a declaração completa do ex-presidente da República, Fernando Collor de Mello.