Inca prevê 582 mil novos casos de câncer em 2018; estilo de vida e prevenção falha incitam aumento

  • Por Thiago Navarro/Jovem Pan
  • 02/02/2018 13h44 - Atualizado em 02/02/2018 13h46
PixabayHábitos que levam ao câncer, como fumar, costumam ser adquiridos na adolescência e prevenção do governo deveria focar essa faixa etária, diz oncologista Fernando Maluf

Estudo do Instituto Nacional do Câncer (Inca) divulgado nesta sexta-feira (2) apontou que 1,2 milhão de novos casos da doença devem surgir no país entre 2018 e 2019. Apenas neste ano, a expectativa é de que surjam mais de meio milhão (582 mil) de novos casos.

Em entrevista ao Portal Jovem Pan, o médico oncologista e diretor do Instituto Vencer o Câncer, Fernando Maluf, explicou que o aumento de casos de câncer “não é uma surpresa”.

“Isso não é uma característica do povo brasileiro, mas do mundo como um todo”. Entre os motivos, estão o aumento da expectativa de vida da população, “e câncer e idade avançada muitas vezes são associados”, os métodos diagnósticos mais eficazes e hábitos modernos, “estilos de vida” que aumentam a incidência da doença.

Estilo de vida

Os dados do Inca apontam que, em cada 10 casos, três estão relacionados ao estilo de vida que as pessoas levam, como tabagismo, consumo de álcool, sedentarismo, obesidade e exposição excessiva ao sol, que gera o tipo mais comum de câncer, o câncer de pele.

Para Maluf, o número de três casos em 10 está subdimensionado. Em sua experiência, o médico estima que de seis a oito casos de câncer a cada 10 têm relação com o estilo de vida. Ele cita exemplos: “a obesidade infantil vem crescendo dia a dia em nosso país e a dieta infelizmente piora”.

Por outro lado, o índice de fumantes no Brasil caiu de cerca de 15% nos últimos 10 anos entre homens e mulheres. “Mas o consumo de álcool vem aumentando, além da poluição e da falta de cuidado em relação à exposição solar”, lamenta Maluf. “As questões do estilo de vida são muito importantes e vêm jogando mais contra nós do que a favor. Há indivíduos que se cuidam muito bem, mas eles são a exceção”.

Ações preventivas do governo

Depois do câncer de pele, os mais comuns, segundo a pesquisa, são o de próstata e o de mama. Os pesquisadores dizem que um terço dos tipos de câncer identificados no País podem ser evitados.

Para o oncologista, as ações preventivas do governo deveriam focar na população mais jovem, “o que não é feito de um modo efetivo e intenso”.

“Os maiores fatores de risco para câncer começam na infância e na adolescência”, diz Maluf. Eles poderiam ser evitados, por exemplo, por meio de vacinação adequada, hábitos saudáveis de nutrição e a reeducação na questão do cigarro, cita o médico. “Uma boa parte de obesos eram obesos desde crianças e a obesidade infantil tem aumentado gradativamente”, cita. “Além disso, 90% dos fumantes começaram a fumar antes dos 19 anos de idade”.

“Nessa fase, vários fatores de risco já permeiam crianças e adolescentes e existe a possibilidade de, ou não aderir a um hábito ruim ou de conseguir bloqueá-lo e modificá-lo, muito mais que em um adulto”, pondera o oncologista.

A segunda ação que o Maluf sugere para o governo é melhorar a adequação dos programas de rastreamento no País, informando a população sobre os exames necessários e “que as pessoas consigam ir ao seu médico sem pegar filas imensas e ter suas consultas atrasadas”.

Por último, vem a necessidade de um tratamento “pronto e rápido” para os que possuem a doença. “Não adianta ter o diagnóstico de um câncer se você demora um ano, dois anos para ser tratado idealmente”.

A líder do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, Merula Steagall, concorda: “O maior desafio que o paciente enfrenta atualmente é conseguir acesso a médicos especialistas, exames sofisticados, diagnóstico precoce e tratamentos modernos”, afirmou Steagall, ressaltando também a necessidade de ampliar a consciencialização da população.

Lado positivo

Apesar do aumento dos casos de câncer no Brasil e a deficiência de ações governamentais preventivas, Fernando Maluf vê uma boa perspectiva.

“Apesar de os índices de câncer virem aumentando em termos de incidência, os índices de cura, através das melhorias dos tratamentos vem aumentando para vários tumores”, disse. “O horizonte em termos de incidência não é bom, mas em termos de perspectivas de cura é bastante otimista”.

Ouça a entrevista completa com Fernando Maluf:

Mais dados da pesquisa

Considerado menos letal, o câncer de pele não melanoma deve ter cerca de 165 mil novos casos diagnosticados por ano. Se esses casos não forem levados em consideração, as mulheres brasileiras terão como tipos de câncer mais incidentes o de mama (59 mil casos), de intestino (com quase 19 mil) e o de colo de útero (16 mil).

Entre os homens, a próstata é a parte do corpo que deve ser mais acometida pela doença, com 68 mil casos, seguida pelo pulmão, com 18 mil, e o intestino, com 17 mil.

O perfil da incidência de câncer no Brasil varia de acordo com a região, se assemelhando mais a países desenvolvidos nas Regiões Sul e Sudeste, com mais tumores de intestino e menor incidência de câncer de colo de útero em mulheres e estômago em homens.

Nas regiões Nordeste e Norte, o câncer de estômago tem uma incidência maior entre homens, e o câncer de colo de útero ainda está mais presente entre as mulheres. Esses dois tipos de câncer são mais associados a infecções, possuem maior potencial de prevenção e têm maior incidência em países menos desenvolvidos.

Os homens devem apresentar mais casos de câncer que as mulheres em 2018, com cerca de 300 mil casos, enquanto elas devem ter 282 mil novos casos.

“Fake News”

Ao apresentar os dados, o Inca exibiu vídeos de pessoas que se curaram de câncer e reforçou a campanha contra a estigmatização da doença, que tem como slogan “o câncer não pode acabar com a vontade de viver”.

O instituto reforçou também a necessidade de combater a desinformação sobre a doença, promovendo um debate sobre fake news, saúde e câncer. A diretora-geral do Inca, Ana Cristina Pinho Mendes destacou que as notícias falsas podem afastar as pessoas do tratamento correto e gerar frustrações.

“A proliferação de mensagens falsas e incompletas leva muitos a seguir conselhos que na maioria das vezes são desprovidos de qualquer embasamento científico”, disse a diretora ao destacar que um terço dos casos de câncer podem ser evitados, por serem associados a fatores como o tabagismo, a inatividade física, a obesidade e infecções como o HPV.

Com informações complementares da Agência Brasil