Jornal acusa Dallagnol de montar plano para lucrar com fama da Lava Jato

Segundo a Folha de S.Paulo, procurador queria criar empresa com colega da Lava Jato e colocá-la nos nomes das esposas deles

  • Por Jovem Pan
  • 14/07/2019 09h28
Estadão ConteúdoO procurador da Operação Lava Jato Deltan Dallagnol

O jornal Folha de S.Paulo, em parceria com o site The Intercept Brasil, divulgou neste domingo (14) que o procurador da Operação Lava Jato Deltan Dallagnol teria montado um plano de eventos e palestras para lucrar com a fama obtida com a Operação Lava Jato.

Em um diálogo no fim de 2018, Deltan e um colega da força-tarefa da Lava Jato discutiram a criação de uma empresa na qual eles não apareceriam formalmente como sócios, para evitar questionamentos legais e críticas.

“Se fizéssemos algo sem fins lucrativos e pagássemos valores altos de palestras pra nós, escaparíamos das críticas, mas teria que ver o quanto poderíamos em termos monetários”, comentou Dallagnol no grupo com o colega. eles também discutiram a possibilidade de parcerias com uma empresa organizadora de formatura e outras duas firmas de eventos.

Em mensagem à sua esposa, Deltan se justificou. “Vamos organizar congressos e eventos e lucrar, ok? É um bom jeito de aproveitar no networking e visibilidade”, escreveu ele.

Em outro momento, ele informou à esposa sobre a lucratividade das palestras apurada até setembro do ano passado. “As palestras e aulas já tabeladas neste ano estão dando líquido 232k [R$ 232 mil]. Ótimo… 23 aulas/palestras. Dá uma média de 10k [R$ 10 mil] limpo”, disse ele.

No mês seguinte, o procurador manifestou interesse no fechamento de 2018. “Se tudo der certo nas palestras, vai entrar ainda uns 100k [R$ 100 mil] limpos até o fim do ano. Total líquido das palestras e livros daria uns 400k [R$ 400 mil]. Total de 40 aulas/palestras. Média de 10k limpo”, afirmou Dallagnol.

Segundo a lei, procuradores são proibidos de gerenciar empresas. A legislação permite que essas autoridades sejam apenas sócios ou acionistas de companhias.

Em dezembro de 2018, Deltan e seu colega de na força-tarefa Roberson Pozzobon criaram um grupo de mensagens específico para discutir o tema. O grupo era composto também pelas esposas deles.

“Antes de darmos passos para abrir empresa, teríamos que ter um plano de negócios e ter claras as expectativas em relação a cada um. Para ter plano de negócios, seria bom ver os últimos eventos e preço”, escreveu Deltan nesse chat.

Pozzobon respondeu: “Temos que ver se o evento que vale mais a pena é: i) Mais gente, mais barato ii) Menos gente, mais caro. E um formato não exclui o outro.”

Após meses de discussões, em 14 de fevereiro de 2019, Delta propôs que a empresa fosse aberta em nome das mulheres deles, e que a organização dos eventos ficasse a cargo de Fernanda Cunha, dona da forma Star Palestras e Eventos.

“Só vamos ter que separar as tratativas de coordenação pedagógica do curso que podem ser minhas e do Robito [Pozzobon] e as tratativas gerenciais que precisa ser de Vcs duas, por questão legal”, detalhou Deltan na conversa.

Deltan alertou, em seguida, para a possibilidade de a estratégia levantar suspeitas. “É bem possível que um dia ela [Fernanda Cunha, da Star Palestras] seja ouvida sobre isso pra nos pegarem sobre gerenciarmos empresa”, disse. “Se chegarem nesse grau de verificação é pq o negócio ficou lucrativo mesmo rsrsrs. Que veeeenham”, respondeu Pozzobon.

Deltan sugeriu, no dia seguinte, que uma parceria fosse firmada com a empresa de eventos e formaturas de um dele chamada Polyndia. “Eles [Polyndia] podem oferecer comissão pra aluno da comissão de formatura pelo número de vendas de ingressos que ele fizer. Isso alavancaria o negócio. E nós faríamos contatos com os palestrantes pra convidar. Eles cuidariam de preparação e promoção, nós do conteúdo pedagógico e dividiríamos os lucros”, afirmou o procurador.

Segundo as mensagens do Telegram, os procuradores cogitaram tocar o projeto sem que a empresa de eventos e palestras estivesse formalizada. “Podemos tentar alguma coisa agora em maio tvz. Ou fim de abril. Nem que o primeiro evento a empresa não esteja 100% fechada”, sugeriu Pozzobon.

Insatisfação na força-tarefa

As mensagens mostram, ainda, que, poucos antes do primeiro ano da Operação Lava Jato, em fevereiro de 2015, a dedicação de Deltan a cursos e viagens gerava um descontentamento entre colegas da Procuradoria em Curitiba. Em uma conversa, o procurador tentou se justificar, dizendo que suas atividades compensavam um prejuízo financeiro causado pela Lava Jato.

“Essas viagens são o que compensa a perda financeira do caso, pq fora eu fazia itinerâncias [trabalhado extraordinário em que, ao assumir tarefas de outro procurador, é possível aumentar o valor do contracheque] e agora faria substituições”, escreveu o procurador.

Ele continuou: “Enfim, acho bem justo e se reclamar quero discutir isso porque acho errado reclamar disso. Acho que o crescimento é via de mão dupla. Não estamos em 100 metros livres. Esse caso já virou maratona. Devemos ter bom senso e respeitar o bom senso alheio”, completou.

Outro lado

De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, o coordenador da Operação Lava Jato, Deltan Dallagnol, afirmou que realiza palestras para promover a cidadania e o combate à corrupção e que esse trabalho ocorre de uma maneira compatível com a atuação no Ministério Público Federal (MPF).

Deltan e Robson Pozzobon informam que não abriram empresa ou instituto de palestras em nome deles ou de suas esposas e que não atuam como administradores de empresas.

Em nota enviada pela assessoria de imprensa da Procuradoria no Paraná, os integrantes da força-tarefa da Lava Jato declaram que “não reconhecem as mensagens que têm sido atribuídas a eles” e que “esse material é oriundo de crime cibernético e não pôde ter seu contexto e veracidade comprovado”.

Em relação às palestras, a nota diz que é “lícito a qualquer procurador, como já decidido pelas corregedorias do Ministério Público Federal e do Conselho Nacional do Ministério Público, aceitar convites para ministrar cursos e palestras gratuitos ou remunerados”.

“Palestras remuneradas são prática comum no meio jurídico por parte de autoridades públicas e em outras profissões”, complementa a nota.

O texto diz, ainda, que Deltan Dallagnol e Roberson Pozzobon “não têm empresa ou instituto de palestras em nome próprio nem de seus familiares. Tampouco eles atuam como administradores de empresas”.

Quanto à atividade específica de Deltan, a nota afirma que ele “realiza palestras para promover a cidadania e o combate à corrupção de modo sempre compatível com o trabalho. A maior parte delas é gratuita e, quando são remuneradas, são declaradas em imposto de renda e ele doa parte dos valores para fins beneficente”.