JP Descomplica: Entenda o circuit breaker e seu impacto na economia

  • Por Camila Corsini e Carolina Fortes
  • 20/03/2020 10h43 - Atualizado em 20/03/2020 19h31
EFE/EPA/BIANCA DE MARCHIO JP Descomplica, podcast da Jovem Pan, listou algumas informações úteis sobre esse mecanismo da Bolsa de Valores

Ao longo das últimas semanas, o termo ‘circuit breaker‘ ficou conhecido por boa parte dos brasileiros. No mercado financeiro ele é amplamente divulgado e significa que a Bolsa de Valores teve queda maior do que 10%.

O ‘circuit breaker’ é utilizado para interromper as operações da Bolsa em momentos que as ações sofrem grandes oscilações ou quedas. Em resumo, serve para acalmar um pouco os ânimos dos investidores em momentos de muita euforia ou pânico.

O economista e sócio da Veedha Investimentos, Rodrigo Moliterno, explica:  “Ele é um mecanismo na qual a sessão é interrompida por um determinado período para que os investidores tenham um momento para respirar e pensar se os investimentos fazem sentido, rever suas posições.”

O que traz esse cenário para o Brasil e para o mundo, atualmente, é o novo coronavírus. Apenas no nosso país, sete pessoas já morreram e mais  de 600 estão infectadas. Todo o isolamento voluntário, proposto por alguns governos estaduais, e fechamentos de fronteiras tendem a gerar consequências ainda não imagináveis para a economia.

O JP Descomplica, podcast da Jovem Pan, listou algumas informações úteis sobre o mecanismo da Bolsa de Valores.

Como ele funciona?

No Brasil, especificamente na B3, que é a Bolsa de São Paulo, uma queda de 10% aciona o ‘circuit breaker’. Quando isso acontece, as negociações são interrompidas por 30 minutos. Depois, ela volta de onde parou.

Se cair mais 5%, somando 15% no total, ele é acionado por mais uma hora. Caso a oscilação chegue a 20% de queda acumulada no dia, a Ibovespa pode paralisar e suspender as atividades por tempo indeterminado — até a avaliação do comitê responsável pelo pregão.

Quantas vezes ele já foi acionado?

O diretor de câmbio da FB Capital, Fernando Bergallo, conta que a primeira vez que o ‘circuit breaker’ foi acionado foi em 1997, durante a crise dos Tigres Asiáticos.

Apenas nesta semana, até quinta-feira (19), o ‘circuit breaker’ entrou em ação duas vezes. Desde o início da pandemia do coronavírus, seis vezes. Antes disso, além de 1997, o mecanismo foi acionado em três oportunidades: em 1998, na crise russa; em 1999, no câmbio flutuante; e em 2008, na crise do subprime nos EUA.

A última vez foi em maio de 2017, no dia da delação do presidente da JBS, Joesley Batista, conhecido como Joesley Day. Ele divulgou um áudio com uma gravação do então presidente Michel Temer dando aval para comprar o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, que estava preso por conta de desdobramentos da Lava Jato. Nesta época, a economia brasileira estava se recuperando, e o cenário de incerteza ficou enorme — muitos investidores apostavam na renúncia de Temer.

Com isso, dá para entender porque os economistas estão preocupados: a situação atual é sem precedentes.

Qual a situação da Bolsa de Valores atualmente? 

Fernando Bergallo ajuda a entender a situação da Bolsa hoje:  “Nessa situação atual estamos com um ineditismo porque o ‘circuit breaker’ foi acionado seis vezes em oito dias. Isso nunca aconteceu na história da Bolsa brasileira.”

No entanto, a queda da Bolsa neste cenário que estamos vivendo é tão grande que estamos nos aproximando dos 60 mil pontos — níveis próximos de 2010, quando ela ainda não era tão forte e o mundo ainda se recuperava da crise de 2008.

Tem previsão de melhoras? Para quando?

O diretor de câmbio explica que a recuperação da economia não deve acontecer em menos de 2 anos. Ou seja, dificilmente veremos a Bovespa nos mesmos patamares que estava no início de 2020 antes de 2022.

Já para Bruno Panerai, especialista de investimentos da Warren, é difícil de prever quando o cenário vai começar a normalizar. “A gente começou com um cenário muito duro na China. É difícil pensar em uma normalização nesse sentido, qualquer pessoa que tentar prever estará muito mais dando uma opinião.”

Ele explica que o mercado precifica as expectativas. Isso significa que, se a situação for menos pior do que o esperado, a tendência é que a recuperação da Bolsa seja maior. Ou seja, se tivermos um momento positivo ou com notícias não tão negativas, podemos ver uma recuperação dos ativos e das ações.

Quais foram as medidas adotadas pelo governo até o momento?

O ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou algumas medidas para tentar conter os prejuízos econômicos. O governo vai injetar quase R$ 150 bilhões — sendo R$ 83,4 bilhões para pessoas mais vulneráveis, como idosos e pessoas com doenças crônicas.

Além disso, o Congresso aprovou na quarta-feira (18), o estado de calamidade pública. Isso significa quase  uma “carta branca” para descumprir a meta fiscal de R$ 124,1 bilhões, gastar mais no combate ao novo coronavírus e dar suporte à economia.

O projeto ainda vai para o Senado, onde deve ser votado nesta sexta-feira (20). Ao que tudo indica, ele também será bem aceito na Casa. Os Estados Unidos, a Itália e a Espanha são algumas das nações que adotaram medidas parecidas.

É um momento muito ruim para investir em ações da Bolsa?

Se você se arriscou nos negócios nos últimos meses e agora está desesperado vendo o dinheiro ir embora, tenha um pouco de paciência. Bruno, analista da Warren, explica que a situação deve voltar ao normal — e que o mais recomendado é deixar o investimento parado.

“É uma visão analisando não só o cenário atual, mas todo o histórico. Esse momento é diferente por alguns fatores, mas se formos considerar ebola, H1N1, o atentado às Torres Gêmeas em 2001 e a crise de 2008, são diversas situações que mostram uma boa recuperação após cenários duros.”

Apesar do momento não ser o mais favorável, ele também alerta que é possível aplicar o dinheiro que está hoje na conta. A recomendação, porém, é colocá-lo em fundos mais conservadores e com menos volatilidade – como o tesouro direto.

Vale destacar que tudo isso depende do perfil de cada pessoa e da sua realidade. No momento tudo está bastante imprevisível e o próprio governo estima que os próximos 60 a 90 dias serão bastante difíceis.