Militar preso com 39 kg de cocaína enviou mensagem à esposa: ‘Acho que me ferrei’

Ao ser parado na Espanha, sargento da FAB afirmou que levava queijo na bagagem

  • Por Jovem Pan
  • 02/09/2019 18h08
ReproduçãoMilitar já fez viagens para Bolsonaro, Temer e Dilma Rousseff

“Amor, não manda mais mensagens. Acho que me ferrei.” Essa foi a mensagem enviada pelo sargento da Aeronáutica Manoel Silva Rodrigues para a esposa no dia 26 de junho, quando foi preso em Sevilha, na Espanha, por transportar 39 kg de cocaína em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB).

A informação foi divulgada pelo programa Fantástico, da TV Globo, na noite deste domingo (1). O advogado do militar, Carlos Klomfahs, afirmou, em entrevista ao UOL, que o cliente “não sabia que tinha cocaína na mala” e que ele estava calmo durante a viagem do Brasil até a Espanha. “Se ele não sabia o que continha na mala, ele não tinha consciência daquilo, ele não tinha consciência do crime. Então o crime não existe”, justificou.

O militar, que fazia parte do grupo especiais da FAB e atuava como comissário de bordo, já fez viagens presidenciais não só para o atual chefe do executivo, Jair Bolsonaro (PSL), como também para os ex-presidentes Michel Temer (MDB) e Dilma Rousseff (PT).

Militar disse que levava queijo na bagagem

O Fantástico teve acesso à investigação da Aeronáutica sobre o caso. Segundo o inquérito, Silva Rodrigues entrou na aeronave ainda desligada três horas antes do voo, o que chamou atenção dos colegas; colocou a mala no fundo do avião; afirmou que levava apenas uma mochila e um porta-terno e, ao pousar em Sevilha, pegou a mala e disse a uma testemunha que levava apenas “doce e queijo para uma prima”.

Além disso, segundo o relatório, os militares não passaram por raio-x ou revista nas bagagens antes do embarque, procedimento de segurança que tanto o presidente Bolsonaro, quanto o porta-voz da Força Aérea brasileira, major Daniel Oliveira, asseguraram ser obrigatório.

O militar precisou submeter a bagagem a um raio-x somente em Sevilha, onde foi detectada presença de material orgânico na mala. Questionado, ele voltou a afirmar que se tratava de queijo. Quando as autoridades encontraram a cocaína, o sargento ficou em choque e não disse mais nada no local.

O inquérito apura, agora, se os bens encontrados no apartamento de Silva Rodrigues durante mandado de busca e apreensão são compatíveis com o seu salário, de R$ 7,2 mil. A defesa do sargento justifica que, com as diárias de viagem, a sua renda mensal pode chegar a R$ 14 mil.

Os investigadores encontraram, na casa do militar, uma coleção de relógios, um celular no valor de R$ 7 mil e eletrodomésticos caros – alguns ainda lacrados. Os policiais também descobriram que ele comprou, em dinheiro, uma motocicleta no valor de R$ 34 mil.

Além disso, cães farejadores apontaram indícios de presença de drogas no armário do militar na Base Aérea.

Outro militar foi investigado

O inquérito também revelou, de acordo com o Fantástico, que outro militar, o tenente-coronel Alexandre Augusto Piovesan, passou a ser considerado investigado – e não mais testemunha. Isso porque a quebra do sigilo telefônico da mulher de Silva Rodrigues mostra que os dois mantinham contato frequente.

As conversas revelaram ainda que Piovesan trazia “coisas” – sem especificar quais – do exterior para serem vendidas aqui. Além disso, no dia da prisão de Silva Rodrigues, o tenente-coronel se encontrou com a esposa do sargento. Ele negou relações além do trabalho com o preso, o que foi desmentido. Piovesan explicou que “ficou em pânico” no primeiro depoimento e, por isso, não “respondeu de forma adequada”.

O inquérito concluiu, no entanto, que Piovesan não participou do crime de tráfico de drogas. Ainda assim, as informações do relatório foram enviadas ao comando da Aeronáutica para possível apuração disciplinar.

O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência (GSI) afirmou ainda que a indicação e a posterior substituição do tenente-coronel Alexandre Piovesan para a função de assessor militar do gabinete foram feitas pela FAB.

O advogado de Silva Rodrigues pediu à Justiça Militar o trancamento do inquérito, com base em uma decisão do STF segundo a qual o mesmo crime não pode ser investigado duas vezes, no caso, no Brasil e na Espanha.