Pacientes com câncer aguardam cinco meses para começar tratamento de radioterapia

Além da longa espera, as pessoas ainda precisam lidar com outro problema: o deslocamento até o Hospital Geral de Guarulhos

  • Por Carolina Fortes
  • 26/12/2019 08h17 - Atualizado em 27/12/2019 13h41
Carolina Fortes/Jovem PanProblemas começaram depois de 2017, quando foi encerrada a parceria do Hospital do Servidor Público Municipal com a Beneficência Portuguesa

De cinco a seis meses para começar um tratamento de radioterapia para o câncer. Esse é o tempo estimado que os pacientes do Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM) aguardam desde que foi encerrada a parceria com o hospital da Beneficência Portuguesa, em 2017, que disponibilizava o serviço. Além da longa espera, as pessoas ainda precisam lidar com outro problema: o deslocamento até o Hospital Geral de Guarulhos, solução encontrada pelo governo para que elas pudessem seguir o tratamento.

Doracy Araújo, de 66 anos, precisou percorrer 16 vezes os 80 quilômetros que separam sua casa no bairro da Lapa, Zona Oeste de São Paulo, até o hospital de Guarulhos, na região metropolitana. Ela foi diagnosticada no HSPM com câncer de mama em junho de 2019.

Desde a primeira consulta, feita no dia 14 de outubro, até a alta, no dia 9 de dezembro, Doracy gastou em média quatro horas por dia entre ônibus e trens para se locomover de um ao outro. “Eram três trens e um ônibus, para ir e para voltar”, conta.

Normalmente, as sessões duram cinco dias seguidos e há dois de descanso. No caso de Doracy, esse tempo foi maior, já que algumas vezes ela foi até o hospital de Guarulhos e não conseguiu fazer o procedimento. O motivo? A máquina de radioterapia, que fica mais de 12 horas em funcionamento para atender a demanda, estava quebrada.

“Quebrou algumas vezes. Na véspera do feriado, no dia 21 de novembro, quebrou, teve outra semana que ficou parada três dias. Cheguei a sair de lá às 20h, 21h, sem fazer o procedimento”, diz.

Para não precisar peregrinar até Guarulhos, a servidora ainda tentou realizar o tratamento na cidade de São Paulo. Primeiro, pediu pela regulação do Sistema Único de Saúde (SUS), mas foi informada que não havia vagas na capital. No HSPM, a resposta foi que “não tinha condições, talvez para o ano que vem”. “Mas eu precisava para ontem”, explica.

Doracy ainda tentou na Unidade Básica de Saúde (UBS) perto de sua casa, na Lapa, e conseguiu uma vaga na Santa Casa. A primeira consulta seria no dia 13 de dezembro, quase seis meses depois do diagnóstico. “Eu não podia esperar, estávamos ainda em setembro, daí eu me sujeitei a ir para Guarulhos.”

A cidade de São Paulo tem apenas 35 aparelhos de radioterapia – sendo que só seis são da Prefeitura e atendem pacientes pelo SUS. Os demais estão disponíveis somente nos convênios particulares. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um aparelho a cada 300 mil habitantes – ou seja, a capital deveria ter ao menos 40 equipamentos.

Apesar da locomoção, Doracy conseguiu começar as sessões de radioterapia rápido, menos de 20 dias depois da primeira consulta. Essa não foi a realidade da servidora municipal Jacilene Ferreira de Lima, também diagnosticada com câncer de mama no HSPM.

Sua primeira consulta foi no dia 31 de julho de 2019 e, no dia 6 de setembro, fez as marcações no corpo para o início do tratamento. “Estou com as marcas até hoje. No dia 21 [de novembro] fui até Guarulhos para saber de alguma informação e quem me atendeu disse que a demanda está gigantesca e que a secretaria já sabia da situação.”

O início das sessões foi, então, agendado para o dia 5 de dezembro – mais de quatro meses depois da primeira consulta.

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, os pacientes que necessitam realizar a radioterapia foram inseridos no sistema regulador de vagas do Estado — devido à complexidade e hierarquia do SUS –, sendo encaminhados aos hospitais de referência. Foram direcionados, assim, para o município vizinho, e um trajeto que demorava aproximadamente 20 minutos – já que o Beneficência Portuguesa é muito perto do HSPM — se transformou em horas.

Lei federal

Uma lei federal que entrou em vigor em 2013 assegura aos pacientes com câncer o início do tratamento em no máximo 60 dias após a inclusão da doença em seu prontuário no SUS. O prazo máximo vale para que a pessoa passe por uma cirurgia ou inicie sessões de quimioterapia ou radioterapia, conforme prescrição médica.

No HSPM, a quimioterapia e a cirurgia continuam funcionando normalmente, sem alterações – embora funcionários da instituição aleguem que faltam remédios para a quimioterapia e profissionais especializados para auxiliar no tratamento. Porém, nos casos de radioterapia, esse prazo não é respeitado.

Uma médica que não quis se identificar disse seus pacientes estão aguardando no mínimo cinco meses para começar as sessões e que, muitas vezes, não resistem ou que o tumor volta antes da hora.

Os funcionários reivindicam a criação de um setor de radioterapia no próprio hospital. Em abril, a Secretaria Municipal da Saúde anunciou o investimento de cerca de R$ 800 milhões junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para reformar instituições de saúde em São Paulo, incluindo o HSPM. A obra faz parte do Programa Avança Saúde SP, em parceria com a prefeitura da capital.

Denúncias

Nos últimos meses, o Tribunal de Contas do Município (TCM) recebeu denúncias relacionadas ao Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM), algumas vindas do vereador Celso Gianazzi (PSOL).

Infiltrações, vazamentos, falta de acessibilidade, demora no atendimento, ausência de um canal direto de comunicação para a marcação de consultas e até baratas na cozinha eram alguns dos problemas enfrentados pelos funcionários e pacientes do HSPM.

Atualmente, Gianazzi acompanha a demora no tratamento da radioterapia. Ele afirmou que vai acionar o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), além de pautar o debate na Câmara dos Deputados. “Queremos que a prefeitura faça um contrato ou um convênio com hospitais da região para que os pacientes comecem esse tratamento no prazo legal de 60 dias”, disse.

Defesa

Em comunicado, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), por meio da Superintendência do Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM), declarou que “desde abril deste ano o hospital tem passado de forma segmentada por uma série de reformas e melhorias pontuais para minimizar transtornos aos usuários e profissionais”.

Além disso, afirmou que no setor de endoscopia o serviço está em fase de finalização. Já em relação ao PS adulto e o laboratório, informou que os espaços estão “passando por melhorias estruturais e os locais de atendimento foram transferidos provisoriamente”.

O comunicado disse, ainda, que “o Pronto-Socorro Adulto da unidade é referência em trauma na região centro-oeste da capital paulista” e “atende de portas abertas” os casos de urgência e emergência trazidos pelo SAMU e Corpo de Bombeiros. “Nenhum paciente que procura o hospital é dispensado e, por esse motivo, podem ocorrer filas em determinados momentos”.

Por fim, explicou que, com relação aos pacientes da oncologia, “não houve alteração nos serviços prestados e que continua ofertando consultas ambulatoriais, quimioterapia e cirurgia”. Além disso, esclareceu que o hospital “nunca contou com radioterapia dentro da unidade”.