Pai manda demitir Marcelo Odebrecht do grupo e briga familiar preocupa credores

  • Por Jovem Pan
  • 21/12/2019 12h59 - Atualizado em 21/12/2019 13h00
Agência BrasilEm nota, o empresário afirmou que sua demissão "é apenas a demonstração inequívoca de mais um ato de abuso de poder do atual presidente da Odebrecht"

Foi por meio de um e-mail do novo diretor presidente da Odebrecht, Ruy Sampaio, que o empresário Marcelo Odebrecht soube na sexta-feira (20) de sua demissão da própria empresa – por justa causa e sem direito a indenização.

A ordem partiu do pai de Marcelo, Emílio Odebrecht. O ex-presidente do conglomerado e um dos pivôs da Operação Lava Jato recebia algo em torno de R$ 115 mil por mês e tinha uma estrutura bancada pelo grupo. A partir de agora, ele terá de arcar com os benefícios perdidos, como secretária, motorista, advogados e assessoria de imprensa.

O Estado apurou que a justificativa para a demissão por justa causa está relacionada ao entendimento de que Marcelo cometeu crimes de extorsão e ameaça contra a empresa, como pedir contrapartida financeira do grupo para fechar acordo de delação com o Ministério Público Federal. Executivos considerados próximos ao herdeiro devem ser desligados nos próximos dias.

Embora estivesse afastado de funções executivas desde sua prisão, em 2015, Marcelo ainda constava como funcionário licenciado da empresa. A demissão do executivo foi uma das recomendações dos monitores externos independentes do Ministério Público Federal e do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Em nota, a Odebrecht afirmou que a recomendação foi acatada e aprovada em 24 de outubro pelo Conselho de Administração da holding, que era presidida por Sampaio, desafeto de Marcelo e homem de confiança de Emílio Odebrecht.

A decisão final, no entanto, só foi efetivada ontem, após Sampaio assumir a presidência do grupo no lugar de Luciano Guidolin, no início da semana – um dos motivos da troca de comando teria sido a demora de Guidolin executar o pedido de demissão de Marcelo, dizem fontes ligadas à empresa.

Em nota, o empresário afirmou que sua demissão “é apenas a demonstração inequívoca de mais um ato de abuso de poder do atual presidente da Odebrecht, que, na tentativa de paralisar a apuração pelo compliance de fatos que lhe atingem e que deveriam estar protegidos por sigilo, retalia o denunciante como forma de intimidá-lo”. Marcelo é acionista minoritário, com participação de 2,69%, da Kieppe, holding por meio da qual a família controla a Odebrecht.

Nos últimos dias, ele vinha fazendo uma série de acusações, via imprensa, contra o pai, o cunhado Maurício Ferro e Sampaio. O Estado apurou que Emílio vinha amadurecendo a ideia da demissão há algum tempo para dar um basta aos ataques de Marcelo.

Amigos próximos afirmam que o patriarca tentou falar com o filho no fim de semana para uma possível trégua, sem sucesso.

Briga familiar pública

A relação entre Emílio e Marcelo nunca foi muito amistosa, segundo fontes próximas à família. Marcelo competia com o pai pelo controle da empresa, disse um executivo que trabalhou com ambos. Nas reuniões, discordava do estilo de gestão do pai e, por vezes, causava constrangimento entre os executivos.

A situação piorou depois do início da Operação Lava Jato. Marcelo se sentiu traído ao ser condenado sozinho enquanto outros executivos ficaram livres, entre eles seu cunhado Maurício Ferro, casado com Mônica Odebrecht.

Desde que saiu da prisão, em dezembro de 2017, Marcelo vem trabalhando para reunir provas contra o cunhado e outros executivos. Em setembro, o empresário obteve a progressão da pena para o regime semiaberto e passou a frequentar a sede da empresa, em São Paulo.

Nas últimas semanas, ele voltou ao ataque com uma série de críticas em relação à condução dos negócios da empresa e acusou o pai de ter levado à companhia à recuperação judicial. A sequência de acusações gerou preocupação em relação às negociações com credores, que poderiam voltar atrás nas conversas.

A troca na presidência da Odebrecht chegou a ser considerada positiva para o plano de recuperação do grupo, que tenta negociar uma dívida de R$ 100 bilhões e manter a empresa de pé. Na próxima semana, os responsáveis pela recuperação vão ter nova rodada de conversas com bancos credores para explicar as mudanças.

*Com informações do Estadão Conteúdo