Pimentel repassou R$ 800 mil da propina de campanha para sobrinho, diz delator

  • Por Estadão Conteúdo
  • 09/06/2016 11h26
Fernando Frazão/Agência BrasilFernando Pimentel - ABR

O governador de Minas Fernando Pimentel (PT) usou R$ 800 mil de propina supostamente repassada à sua campanha, em 2014, para financiar empreendimento comercial em sociedade com um sobrinho, a obra visava a abertura de um restaurante no Shopping Piracicaba, na região do médio Tietê, interior de São Paulo. A revelação foi feita pelo empresário Benedito Rodrigues de Oliveira Neto, o Bené, delator da Operação Acrônimo.

Em depoimento, no último dia 12 de maio, declarado à delegada Denisse Dias Rosas Ribeiro, na sede da Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, Bené, preso desde abril por ordem do Superior Tribunal de Justiça, relatou detalhes da transação. Segundo o informante, naquele ano, Pimentel o procurou e comentou sobre “solicitações” que vinha recebendo do sobrinho, Felipe, “sobre a necessidade de aporte financeiro” para abrir um restaurante em Piracicaba.

Bené declarou que Fernando Pimentel o incumbiu de “resolver essa demanda”. Ele disse aos investigadores que relatou ao então candidato ao governo de Minas que “a única quantia disponível naquela oportunidade era de cerca de R$ 800 mil transferidos pela empresa Caoa para a conta da empresa Colorprint para pagamento de despesas da campanha eleitoral de 2014”.

Na delação, é citado que o valor era referente ao “ajuste financeiro” entre Pimentel e os acionistas da Caoa, Carlos Alberto de Oliveira Andrade e Antonio dos Santos Maciel Neto. Tal “ajuste”, afirmou Bené, era correspondente a supostos benefícios que o petista teria concedido ao grupo empresarial quando ocupava a cadeira de ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio do governo Dilma.

Em relato anterior, ainda no âmbito de sua delação premiada, o lobista cravou que o Grupo Caoa repassou cerca de R$ 20 milhões para Pimentel, dos quais R$ 13 milhões teriam sido destinados à campanha e outros R$ 7 milhões pagos ao político no exterior.

O chefe do governo mineiro já foi denunciado pela Procuradoria da República perante o Superior Tribunal de Justiça (STJ) por supostos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Ele é acusado de receber propina da montadora de veículos Caoa para favorecê-la no Ministério que geriu.

Bené também lembro que, para atender ao pedido de Pimentel, entrou em contato com uma pessoa chamada Sebastião e com o sobrinho do político para tratarem “em conjunto” do tema e, sendo assim, Felipe foi a Brasília e apresentado a Sebastião.

Na delação, foi informado que o uso do dinheiro recebido pela Colorprint foi “autorizado” para investimento no empreendimento. Posteriormente, Felipe e Sebastião acertaram um contrato de “prestação de serviços de reforma e construção entre a Colorprint e a prestadora desses mesmos serviços ao restaurante”.

O contrato, disse Bené, foi firmado “para dar lastro” à transferência da quantia “aproximada” de R$ 800 mil. O valor, destacou, teve origem da conta da Caoa, “passando pela conta da Colorprint e custando as reformas no local”.

Defesas

“A CAOA repele com veemência qualquer irregularidade e reafirma que jamais contratou ou pagou, no Brasil ou no exterior, qualquer pessoa ou empresa para angariar vantagens junto a qualquer agente ou órgão público. Convém esclarecer ainda que a Caoa jamais celebrou contrato ou foi tomadora de empréstimos junto ao BNDES”, disse a companhia, por meio de nota.

O criminalista José Roberto Batochio, defensor da empresa, colocou, também por meio de nota, que a Caoa “desconhece esses fatos (sobre o restaurante no interior de São Paulo) e nega enfaticamente qualquer participação neles.”

O governador de Minas, Fernando Pimentel, também se manifestou: “A delação dessa pessoa, de conhecimento público e repercutida em doses homeopáticas, revela reiteradas mentiras e o desespero de quem está disposto a alimentar o imaginário acusatório e de prévia condenação do investigado”, repudiou, igualmente em nota.

“É sempre preciso lembrar que a delação, por si só, não é elemento de prova e a divulgação de parte de seu suposto conteúdo, além de ilegal, o que pode invalidá-la, não tem outro sentido senão o de influenciar a opinião pública, que, quase sempre, não se interessa mais pelas explicações da defesa. O objetivo é amplamente conhecido: uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”, finaliza.