Político em campanha só pensa na receita e não controla despesas, diz Pessoa

  • Por Estadão Conteúdo
  • 17/06/2016 10h48
A CPI da Petrobras realiza audiência pública para ouvir o empresário Ricardo Ribeiro Pessoa, da UTC (Wilson Dias/Agência Brasil) Wilson Dias/Agência Brasil Ricardo Pessoa

“Político quando está em campanha só se preocupa com receita e não controla despesas.” A opinião é do dono da empreiteira UTC, Ricardo Pessoa, ao analisar os repasses de propinas que eram feitos, em dinheiro em espécie, para políticos, afirmou no depoimento ao juiz federal Sérgio Moro, em Curitiba, na última quinta-feira (16). 

O empreiteiro foi uma das testemunhas de acusação contra o marqueteiro do PT, João Santana, e o dono da Odebrecht, Marcelo Bahia Odebrecht.

“Isso significa que eles são muito desorganizados no que toca ao conduzir de uma campanha. Como eles têm muitas despesas pequenas, que, somadas, passam a ser grandes, é muito mais fácil eles receberem em espécie”, relatou o executivo, delator da Lava Jato, em mais um depoimento prestado ao magistrado paranaense, desde que foi preso, em 14 de novembro de 2014, em alvo da 7ª fase da operação, batizada de Juízo Final.

Pessoa confirmou, em juízo, que pagava propinas ao PT via o ex-tesoureiro João Vaccari Neto por ordem do ex-diretor de Serviços da Petrobras, Renato Duque, indicado pelo partido ao cargo, relatando também que repassou valores em espécie que não eram de propina, mas pedido dos políticos.

“No caso de Vaccari, a grande, quase absoluta, maioria (da propina), era depositada na conta do Partido dos Trabalhadores, a maioria no Diretório Nacional”, detalhou. Segundo o empreendedor, pelo menos R$ 2 milhões foram repassados em cédulas para os petistas, “foram solicitações do tesoureiro, ele pediu e eu dei em espécie”, afirmou.

Pessoa também confirmou que, em 2012, a UTC fez pagamentos a uma gráfica para a campanha do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT).

Questionado por advogados, o empresário confirmou, em juízo, o conteúdo de suas delações em que relatou repasse de doações para o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), para o deputado federal Paulinho da Força (PDT-SP) e para o ex-deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP).

No caso da doação a Aluísio Nunes, líder do governo interino no Senado, Pessoa disse que pagou eem notas a pedido dele e que os repasses não eram relacionados à propina, apesar de serem feitos fora do sistema de doação oficial à campanha ou ao partido, “muitos pagamentos por fora foram feitos por solicitação dos políticos, mas não necessariamente estavam ligados à propina, muito pelo contrário.”

Sistemática

Pessoa voltar a contar que as verbas eram cobradas após fechamentos de contratos, “à medida que se ganhava um contrato, nós éramos instados a fazer um pagamento, uma parte para “Casa”, que é a Diretoria de Serviços, outra parte para o partido político”, explicou, ao ser questionado pela procuradora da República Laura Tessler, da força-tarefa da Lava Jato.

“Renato Duque sempre encaminhou para João Vaccari Neto”, delata, “à medida que você assinava um contato de uma unidade, alguma prestação de serviço da Engenharia, ao conversar com próprio diretor Duque, ele lhe encaminhava e perguntava se tinha conversado com o senhor Vaccari, ao mesmo tempo que (Pedro) Barusco (que também era diretor da estatal) nos procurava para conversar sobre a participação deles, “a procuradora quis saber o que era a participação. “Propina”, confirmou o empreiteiro.

“Ao longo do tempo isso passou a ser automático”, explica. Vaccari procurava a empresa e sabia sobre o “contrato, valores, tudo. Geralmente era 1%, meio por cento para o partido, meio por cento através do Barusco para o que eles chamavam Casa (funcionários da Petrobras”.

Moro ouviu ainda os depoimentos de Walmir Pinheiro Santana, funcionário da UTC, responsável pelas entregas de valores da empreiteira e o lobista Milton Pascowitch, operador de propinas da empreiteira Engevix.