Presidente de instituto que mapeia favelas: ‘Primeiro se salvam vidas, depois se recupera a economia’

  • Por Jovem Pan
  • 26/03/2020 12h11
MARCELO CHELLO/CJPRESS/ESTADÃO CONTEÚDOCerca de 400 moradores da favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, se apresentaram para serem voluntários na entrega de sabão em pedra e álcool em gel para todos os demais moradores da comunidade - 24/03/2020

Dados do Instituto Locomotiva estimam que há cerca de 13,6 milhões de pessoas que moram em favelas no Brasil – número que ultrapassa o total de habitantes do Rio Grande do Sul, segundo o Censo de 2010.

Em entrevista ao Jornal da Manhã 2ª edição nesta quinta-feira (26), Renato Meirelles, presidente do instituto, falou quais são as medidas já adotadas e o que ainda falta para a prevenção efetiva do coronavírus nas favelas brasileiras.

Para Meirelles, o foco dos governos deve ser as vidas humanas e não os dados econômicos.  “O debate atual é entre economia e sociedade civil, mas quando olhamos as atitudes das demais potências mundiais [contra o coronavírus] vemos que primeiro se salvam vidas, depois se recupera a economia. Não se recupera economia com corpos empilhados”, disse.

Pesquisa realizada pelo Data Favela indica que 72% dos moradores de comunidades não têm poupanças. “Eles não têm reservas financeiras para viver sequer um dia à frente, mas as favelas estão preocupadas e 97% dos moradores já tiveram mudanças de hábitos para lidar com o coronavírus, mas faltam condições básicas”, complementou Meirelles.

Entre as faltas, ele citou as estruturas básicas como água potável, moradia adequada e a estabilidade de emprego.

“Metade dos trabalhadores das favelas são autônomos. Vemos um impacto econômico e social muito maiores para eles do que para os demais profissionais que conseguem fazer home office. É fácil ficar de  quarentena com a geladeira cheia, água potável saindo da torneira e uma casa de 100m². Mas não é vivendo num barraco com até seis pessoas e o pacote de internet no fim”, explicou Meirelles.

Possíveis soluções

Renato Meirelles disse que há diversos voluntários atuando nas favelas brasileiras para ajudar na prevenção do coronavírus e minimizar os impactos econômicos nessas regiões.

“Temos um trabalho grande de voluntários da sociedade civil e a realização de campanhas informando sobre o vírus com carros de som, distribuição de panfletos. Há a distribuição de cestas básicas, mas são ações que tem prazo de validade para acabar, que durarão no máximo mais 10 dias.”

Para o presidente do instituto, é necessário ações governamentais para que a população das favelas não seja excluída e, consequentemente, mais afetada pela pandemia de coronavírus.

“O processo de retomada de economia passa por colocar dinheiro na veia e pode ser feito em duas frentes: com processos efetivos de distribuição de renda, com garantias de uma renda mínima para a população de um lado, e por outro financiando a juros muito baixos as micro e pequenos empresas para garantir a manutenção dos empresas nas comunidades.”