Serra defende maior liberdade em acordos do Mercosul

  • Por Estadão Conteúdo
  • 24/05/2016 08h37
BAS20. BUENOS AIRES (ARGENTINA), 23/05/2016.- El presidente argentino, Mauricio Macri (d), recibe al nuevo canciller de Brasil, José Serra (i) hoy, 23 de mayo de 2016, en Buenos Aires. Serra se reunió también con su homóloga argentina, Susana Malcorra, en el marco de su visita al país. EFE/Presidencia de Argentina/SOLO USO EDITORIALSerra e Macri

José Serra (PSDB-SP), atual canceler brasileiro, defendeu, na última segunda-feira (23), em Buenos Aires, Argentina, sua primeira viagem no comando do Itamaraty, que os integrantes do Mercosul tenham maior liberdade para negociar acordos bilaterais. O senador reuniu-se ao longo do dia com a ministra das Relações Exteriores argentina, Susana Malcorra, o ministro da economia, Alfonso Prat-Gay, e o presidente Mauricio Macri.

“O Mercosul é uma união aduaneira. Não é uma zona de livre comércio, que é o que eu sempre defendi. O problema da união aduaneira é fazer acordos com outros países do mundo sem ser em conjunto. A nossa estratégia é flexibilizar isso. Às vezes, um pode abrir a oportunidade e os outros vêm depois”, disse o tucano, em entrevista coletiva na embaixada brasileira, já à noite. A proposta seria permitir que um integrante do Mercosul estabeleça acordos com países de fora do grupo e, posteriormente, os outros membros do bloco se somem, de acordo com a escolha de cada um. 

Questionado se o governo Michel Temer teria legitimidade para propor mudanças profundas no bloco, o tucano disse que “decisões têm de ser tomadas” e há aval do Congresso. Ele ponderou que não via necessidade de grandes alterações no Mercado Comum do Sul antes dos seis meses que pode durar o afastamento de Dilma Rousseff.

A busca de alternativas para reativar duas economias em recessão esteve no centro de reuniões de Serra com Prat­Gay e, por último, com Macri. O intercâmbio comercial entre as nações caiu 42% entre 2011 e 2015, de US$ 39 bilhões para US$ 23 bilhões.

O governo Macri, que reconheceu a legalidade da administração Temer minutos depois de o Senado abrir o processo de impeachment, reiteradamente disse ter interesse na retomada da atividade econômica no Brasil, responsável por 40% do comércio internacional argentino. Segundo a consultoria Abeceb, nos primeiros quatro meses, o déficit bilateral argentino triplicou e chegou a US$ 1,4 bilhão, em razão da queda no consumo brasileiro.

Do salão em que o ministro falava, ouviam-se apitos de manifestantes contrários ao governo Temer. Os protestos, que ele classificou como irrelevantes, o acompanharam desde sua chegada a Buenos Aires, na noite de domingo (22), quando 35 ativistas jogaram bolinhas de papel contra seu carro. Na segunda, 150 pessoas exigiam a renúncia de Temer e chamavam sua gestão de golpista. Parte do grupo era formado por militantes kirchneristas. 

Entre as diretrizes da nova política externa brasileira, anunciadas na semana passada, Serra colocou a relação com a Argentina. Em seu discurso de posse, ele citou “referências semelhantes para reorganização da política e da economia”, ao se referir­ ao governo argentino, eleito no ano passado por uma coalizão de centro­direita. O político salientou sua intenção de “despartidarizar” seu ministério, algo que Malcorra também assumiu como compromisso ao tomar posse, em dezembro, como chanceler, após 12 anos de administração kirchnerista.

Caracas

A situação da Venezuela, que criticou o processo de impeachment brasileiro e tem sido alvo frequente de críticas pelo governo de Buenos Aires, também esteve na pauta do chefe do Itamaraty. O presidente argentino pressiona Caracas pela libertação de presos políticos e já ameaçou pedir a suspensão do país do Mercosul. Questionado se exigiria a punição ao país governado por Nicolás Maduro, Serra disse defender um processo de mediação. Ele ressaltou que a turbulência brasileira impediria Brasília de exercer esse papel de intermediário.

Serra chegou à Argentina já com a definição do novo embaixador brasileiro em Buenos Aires, Sérgio França Danese. Ele ocupa a função de secretário-­geral do Itamaraty, segundo posto na hierarquia da instituição, cargo que será exercido por Marcos Galvão.