Temer e ex-assessor preso em março mantinham ‘relações de negócios’, aponta PF

  • Por Jovem Pan
  • 27/08/2018 09h40 - Atualizado em 27/08/2018 19h56
:MARINA MALHEIROS/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/Até o fim de 2016, Yunes foi assessor da Presidência, quando pediu demissão após as primeiras delações da Odebrecht

Responsável pelo inquérito dos portos, que investiga o presidente Michel Temer (MDB), o delegado Cleyber Malta Lopes compartilhou na última quarta-feira (22) informações recebidas na investigação com o delegado responsável pelo inquérito que apura o conteúdo da delação da Odebrecht, Thiago Delabary. Esse inquérito envolve o presidente e os ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco.

Lopes, no ofício, reconhece que as informações sobre uma “possível relação de negócios” entre o ex-assessor da Presidência da República José Yunes e o presidente Temer teriam conexão com as investigações de Delabary.

José Yunes é advogado e amigo do presidente há 50 anos. Até o fim de 2016, foi assessor da Presidência, quando pediu demissão após as primeiras delações da Odebrecht. Em março de 2018, foi preso na Operação Skala da Polícia Federal. No dia primeiro de abril de 2018, foi solto após um pedido realizado pela procuradora-geral da República (PGR) Raquel Dodge.

Os delatores da Odebrecht e o doleiro Lúcio Funaro acusaram Yunes de intermediar dinheiro da empreiteira destinado ao grupo político de Temer.

Investigadores do Ministério Público Federal (MPF) apontam o recebimento de um e-mail, com remetente anônimo, contendo informações de um suposto desvio de dinheiro da Odebrecht para “Michel Temer ou José Yunes”, mostra um documento anexado ao inquérito dos portos.

Ainda de acordo com o documento, enviado em março pelo MP à Polícia Federal, a denúncia anônima afirma que a empresa do ramo imobiliário Yuny incorporadora – administrada pelos filhos de Yunes – adquiriu Cepacs (Certificados de Potencial Adicional de Construção emitidos pela Prefeitura de São Paulo) no valor de R$68 milhões em 2012 e os vendeu em 2013 para a Odebrecht por R$ 97,5 milhões, “gerando à Yuny incorporadora lucro de quase R$ 30 milhões”.

Segundo o denunciante, a empresa do ramo imobiliário não teria sequer pago os Cepacs, já que a venda para a Odebrecht ocorreu no mesmo mês em que os certificados teriam que ser pagos. A denúncia anônima incluiu em documento o contrato confidencial entre Yuni e Oderbrecht, além de dados das demonstrações financeiras da Yuni que apontam os valores recebidos e pagos no negócio.

As informações são da jornalista Andréia Sadi.

Em nota oficial, a Yuny afirmou que “lamenta que uma operação absolutamente normal, regular e inerente às suas atividades seja noticiada de forma injustificavelmente suspeita”.

Ainda de acordo com a nota, a incorporadora adquiriu em 2010 um terreno da empresa multinacional TIMKEN, com a intenção de erguer um empreendimento imobiliário na região do Morumbi em São Paulo.

Confira a nota da empresa na íntegra:

Yuny Incorporadora lamenta que uma operação absolutamente normal, regular e inerente às suas atividades seja noticiada de forma injustificavelmente suspeita. Nesse sentido, esclarece que, em 2010 adquiriu um terreno da empresa multinacional TIMKEN, com a intenção de erguer um empreendimento imobiliário na região do Morumbi em São Paulo. Na sequência, foi contratado renomado escritório de arquitetura para desenvolvimento do projeto e, em 2012, adquiridos CEPAC’s em leilão promovido pela Prefeitura da Cidade de São Paulo. O projeto foi devidamente protocolado em 2011 e os CEPAC’s vinculados a aquele empreendimento.

Em paralelo, foram contratadas empresas especializadas para promover a descontaminação do terreno, onde anteriormente havia funcionado a fábrica da TIMKEN. Após quase três anos, a Yuny desistiu do negócio, considerado demasiadamente arriscado em razão da alteração das condições de mercado (excesso de ofertas na região) e, especialmente, da complexidade da operação para descontaminação do terreno. O contrato foi rescindido e o terreno foi devolvido à TIMKEN em 2013. Na mesma época, diante da grande valorização dos CEPAC’s ao longo deste período, a Yuny decidiu vende-los a outras empresas. A Prefeitura não estava realizando leilões e o mercado secundário (venda entre empresas do setor) era a única opção para quem desejava construir em determinadas regiões.

A venda dos CEPAC’s foi realizada a duas construtoras, sendo uma delas a Odebrecht (empresa que naquele momento ainda não estava sendo investigada e era a maior construtora do Brasil). Referidas transações se deram por meio de corretores, pelo valor de mercado e foram regularmente escrituradas e contabilizadas. O fato da empresa ter auferido lucro com esta operação não envolve, portanto, qualquer irregularidade, cabendo ressaltar que o Sr. José Yunes não possui nenhum vínculo com a Yuny Incorporadora desde o ano de 2006.