Canadá usa programa para monitorar downloads em busca de extremistas

  • Por Agencia EFE
  • 28/01/2015 19h10

Julio César Rivas

Toronto (Canadá), 28 jan (EFE).- Os serviços de inteligência do Canadá controlam a cada dia milhões de downloads da internet no mundo inteiro para descobrir extremistas islâmicos como parte de um programa de vigilância mundial em cooperação com os Estados Unidos, de acordo com documentos revelados nesta quarta-feira.

O programa está sendo executado pelo Centro de Segurança das Telecomunicações do Canadá (CSE, sigla em inglês), uma organização encarregada de interceptar telecomunicações no mundo todo, segundo documentos de Edward Snowden, ex-analista da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos.

Os documentos, divulgados pela televisão pública canadense “CBC”, mostram que o Canadá intercepta e controla diariamente os downloads de 10 a 15 milhões de arquivos como parte da “Five Eyes” (“Cinco Olhos”), uma rede de espionagem criada por EUA, Canadá, Reino Unido, Nova Zelândia e Austrália.

O projeto, chamado “Levitation”, permite ao CSE acessar o conteúdo de milhões de arquivos, de documentos e fotos a vídeos, que todos os dias são colocados e baixados em sites de compartilhamentos arquivos entre usuários.

Em uma apresentação do CSE datada de 2012 e divulgada por Snowden à “CBC” e ao site “The Intercept”, do jornalista Glenn Greenwald, o serviço de inteligência canadense diz ter acesso a 102 sites de upload e download, entre eles os populares “Sendspace” e “Rapidshare”.

No documento, os analistas do CSE reconhecem que a vasta quantidade de informação à qual têm acesso representa um desafio na hora de identificar os arquivos que possam significar supostos extremistas.

O autor do texto inclusive brinca na apresentação, marcada como secreta, sobre a quantidade de episódios da série de televisão “Glee” que têm que ser filtrados para eliminar material inofensivo, segundo a “CBC”.

Das centenas de milhões de arquivos analisados pelo CSE a cada mês, a agência encontra 350 “eventos de download de interesse”, de acordo com o documento.

Após identificar os downloads suspeitos, como o de um conhecido manual da Al Qaeda para preparar artefatos explosivos, o CSE pode acessar o chamada “metadata”, dados públicos sobre atividades na internet, para seguir o rastro de uploads e downloads dos documentos.

Um especialista consultado pela “CBC” definiu o projeto “Levitation” como uma “gigantesca máquina de raios X” sobre as vidas digitais de todos os usuários da internet.

A informação divulgada por Snowden também indica quando o CSE rastreia um download suspeito e repassa a informação à agência de espionagem eletrônica do Reino Unido, conhecida pela sigla GCHQ.

Utilizando uma base de dados chamada Mutant Broth, a GCHQ pode controlar o tráfego de dados desse endereço cinco horas antes e cinco horas depois do download considerado suspeito.

O Centro de Segurança não quis comentar a informação revelada por Snowden, mas, em uma declaração enviada à “CBC”, a agência de espionagem disse que todas suas atividades são legais e não são dirigidas contra cidadãos canadenses.

“O CSE é claramente destinado a coletar sinais de inteligência estrangeiras para proteger o Canadá e os canadenses contra uma variedade de ameaças à nossa segurança nacional, incluindo o terrorismo”, disse o CSE em comunicado.

O texto cita dois casos concretos conseguidos em 2012 através do “Levitation”: o descobrimento de um vídeo de um refém alemão em posse de um extremista não identificado até o momento e a intercepção de um documento sobre a estratégia de reféns de uma organização terrorista.

O CSE também esteve vinculado a outras atividades de espionagem controvertidas nos últimos anos.

Em 2013, Snowden revelou que o CSE espionou os sistemas do governo brasileiro supostamente para obter informação sobre o setor mineiro e energético. As revelações provocaram uma tempestade diplomática entre os dois países e Brasília expressou “indignação” pelas atividades canadenses.

A agência canadense também espionou, em colaboração com a NSA, seus parceiros durante a Cúpula do G20 realizada em Toronto em 2010 para “proporcionar apoio aos políticos”, segundo documentos dados a conhecer também pela CBC.

O outro famoso caso de espionagem pública do CSE através de Snowden foi revelado em janeiro de 2014.

Segundo Snowden, essa agência utiliza as redes gratuitas de internet nos aeroportos canadenses para seguir os dispositivos portáteis dos viajantes e conseguir sua “metadata”. EFE