Chacarita, o centenário bairro de Assunção que sofre com o rio Paraguai

  • Por Agencia EFE
  • 17/09/2015 11h21

María Sanz.

Assunção, 17 set (EFE).- No coração de Assunção, em frente à baía que forma o rio Paraguai, está o bairro de Chacarita, o mais antigo do país, cuja história está ligada tanto ao vai e vem das cheias e das frequentes inundações, quanto às migrações de camponeses até a capital.

Nas estreitas vielas de Chacarita, que nos mapas aparece como bairro Ricardo Brugada, as crianças brincam e jogam futebol e os adultos tomam o típico tereré na porta de casa, costumes quase extintos das ruas da região.

O bairro é cortado por pelo menos três leitos que desembocam na baía, e ao redor deles se amontoam as casas com fachadas coloridas e com vista para o imenso rio Paraguai.

Rio que provocou, ao longo de sua história, mudanças forçadas por conta de seu transbordamento, como contou à Agência Efe Nidia Narcisa Noguera, de 79 anos, que vive em Chacarita há mais de 60.

Sentada na porta de uma casa feita com finas chapas de madeira e instalada na praça ao lado do Congresso paraguaio, Nidia diz que o imóvel, para onde se mudou com a família há dois meses, foi a enésima tentativa de salvar seus pertences da água.

“Teve uma cheia em 1983. Depois outra muito grande em 1997. E outra no ano passado, quando tivemos que nos refugiar aqui durante sete meses”, enumerou.

De fato, em junho de 2014 o rio ultrapassou os sete metros de altura em Assunção, afetando 200 mil pessoas em todo o país, enquanto neste ano deslocou 42 mil cidadãos de seus lares só na capital.

Antes mesmo das inundações, Nidia viveu sua primeira mudança. Aos 17 anos, assim como fizeram outras famílias do interior rural do país nos anos seguintes à instauração da ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989), ela deixou sua cidade natal no campo e foi para Assunção em busca de melhores oportunidades.

“Podia trabalhar como empregada doméstica nas casas do centro de Assunção. Começamos a viver em Chacarita, que no início era um lamaçal, mas depois fizemos ruas e se tornou um bairro lindo. Nos instalamos aqui porque estávamos perto dos lugares onde trabalhávamos”, explicou.

A proximidade com os locais de trabalho e os serviços do centro da cidade é o que, ainda hoje, segue motivando os moradores a ficar no bairro, apesar da proximidade das águas, afirmou Milda, a filha de Nidia.

No entanto, os planos da prefeitura passam por despejar os moradores da parte baixa de Chacarita, a mais vulnerável durante as inundações, e transferir essas pessoas a outras localidades da periferia de Assunção.

A iniciativa faz parte do projeto de continuação da avenida Costanera, um via que margeia a baía de Assunção e na qual se ergueu um grande morro de terra que serve como dique de contenção perante os transbordamentos do rio.

A obra, no entanto, não resolverá as inundações, na opinião de Ireneo Galli, nascido e criado em Chacarita e referência no bairro, fato que o faz ser guia de turismo vez ou outra.

Galli argumenta que Assunção, como Roma, foi construída sobre sete colinas, por cujas encostas a água escorre quando caem fortes chuvas e vai parar nos riachos que estão em Chacarita e que, somados ao transbordamento do rio, alagam as casas.

A região mais próxima a esses imóveis, a chamada Chacarita Alta, faz parte do Plano Mestre do Centro Histórico de Assunção (Plan CHA), promovido pela prefeitura. O projeto prevê “revitalizar” a região e a área próxima à estação de trens, que chegou a ser uma das primeiras da América do Sul e hoje está desativada.

Com isso, o governo pretende não só acabar com o problema das enchentes, como “eliminar o estigma” de perigo e criminalidade que o bairro carrega e que está ligado ao consumo de drogas e tráfico, segundo relatam os moradores.

À espera dos projetos começarem, os paraguaios são quase unânimes em dizer que querem um bairro do qual todos se sintam parte, mesmo que a água os desloque frequentemente de suas casas. EFE

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