Chegada de refugiados a Lesbos prejudica setor turístico, mas comércio lucra

  • Por Agencia EFE
  • 15/09/2015 12h19

Remei Calabuig.

Mitilene (Grécia), 15 set (EFE).- A chegada de milhares de refugiados por dia à ilha grega de Lesbos teve impacto sobre o turismo, a principal fonte de receita local, mas embora alguns hotéis tenham sofram cancelamentos, outros comércios se beneficiam.

“To Kima” é uma pequena taverna situado de frente para a praia. O que há alguns meses era um terraço com bela vista para o mar cristalino da região, agora é uma testemunha das barcas que chegam diariamente.

“Os clientes não se sentem bem vendo as crianças que chegam chorando nos botes. Não querem ver isso”, disse Paris, dono do restaurante especializado em frutos do mar, que também aluga quartos.

De acordo com o proprietário do estabelecimento, as consequências econômicas da chegada de refugiados à ilha para o negócio são evidentes.

“Muita gente não vem por esta situação. Nesse mês tivemos dois cancelamentos e em agosto mais de dez”, explicou o hoteleiro, que detalhou que apesar de alguns clientes “não se importarem com a situação”, outros “não gostam”.

A localização do estabelecimento torna inevitável que diariamente os clientes se encontrem com os refugiados que chegam até as praias do norte da ilha em botes comandados por eles mesmos, com cerca de 40 pessoas a bordo.

Paris contou que tenta ajudar os imigrantes para que tomem “o caminho correto e possam pegar o ônibus que os leve ao campo de Mitilene”.

“Não estão apenas prejudicando o hotel, mas a toda a ilha. Tivemos cancelamentos de estrangeiros e de gregos”, contou Irini, recepcionista de um dos maiores hotéis de Mitilene, situado em frente à baía.

Nesse hotel ficam hospedados a maioria dos integrantes das organizações humanitárias e muitos dos jornalistas que passaram a cobrir o dia a dia em Lesbos. Entre os hóspedes, nenhum refugiado.

“Esta ilha sempre recebeu refugiados, muita gente daqui foi refugiada, como minha avó que chegou da Turquia. Sabemos como é”, explicou uma funcionária, que lamentou que algumas crianças tenham que dormir na rua.

Quando questionados por refugiados se há vagas no hotel, os funcionários encaminham os solicitantes a outros três estabelecimentos. Pelo menos um deles aceita refugiados.

“Não tivemos cancelamentos. Aqui alojamos refugiados, não todos, mas alguns deles, especialmente com crianças. O governo está ajudando, mas na semana passada as pessoas tinham que passar dias na rua, sem comida e sem nada. A situação melhorou, ficam aqui um dia e se vão”, disse Dimitra, recepcionista desse segundo hotel. Segundo ela, o local costuma hospedar famílias de sírios e iraquianos.

Na rua mais movimentada da cidade, onde ficam os principais hotéis, as agências de viagens, as lojas e as cafeterias, há um negócio de equipamentos de acampamento, roupas esportivas e calçados.

De acordo com a dona do estabelecimento, os funcionários trabalham desde cedo até o começo da noite, e o movimento é intenso. Em poucos minutos, dezenas de pessoas entram na loja para perguntar preços e comprar produtos de todos os tipos.

“É um negócio de família e eles (os donos) não davam conta sozinhos. Eu me encarrego de dizer os preços e cuidar para que nada seja roubado”, disse Constantina, que trabalha no estabelecimento há uma semana e citou barracas, sacos de dormir e chinelos como os itens mais procurados.

Para ela, que comércios como esse, localizados perto do porto, se beneficiam com a chegada de refugiados, apesar de algumas cafeterias “não os aceitarem porque podem espantar os clientes”.

O ambiente nas ruas da ilha está dividido. Essa é a percepção de gregos como María, estudante de 22 anos que opina que, embora alguns tenham sentimentos xenófobos, a maioria acolhe com compreensão a situação e trata bem os recém-chegados. EFE