China tenta driblar próprias superstições na chegada do ano do Carneiro

  • Por Agencia EFE
  • 18/02/2015 06h32

Paloma Almoguera.

Pequim, 18 fev (EFE).- A chegada de um novo ano lunar na China representa também a entrada em cena de outro signo de seu horóscopo, que influenciará os nascidos nos próximos 12 meses, neste caso o do Carneiro, estigmatizado por antigas superstições que o país agora quer desfazer.

Ser de Carneiro já não representa um problema na China. Antigamente era um sinal de infortúnio, mas o governo chinês não parece disposto agora a permitir que crenças esotéricas alterem seus planos demográficos após ter decidido relaxar a “política do filho único”.

Menos ainda quando os pedidos para ter um segundo bebê são inferiores ao esperado pelas autoridades, ao redor de um milhão em 2014, número que Pequim quer ver aumentar neste ano para combater o urgente envelhecimento da população da segunda maior economia mundial.

Mas, a poucos dias de dizer adeus na próxima quinta-feira ao período do “cavalo”, um signo acompanhado da força e do brio desse animal, nem todas as mulheres em estado avançado de gravidez no país estão dispostas a deixar seu filho perder os “privilégios” do signo.

Ping, de 27 anos e que prefere ser identificada só pelo sobrenome, como o resto dos entrevistados, já marcou com seu médico para fazer uma cesárea antes do dia 19 de fevereiro, quando oficialmente o ano do Carneiro entrará em cena.

“Não quero ter um bebê no ano do “Carneiro”. Traz azar”, disse ela à Efe.

Tom semelhante ao de Chang, casada desde outubro e que, aos 26, idade na qual as mulheres chinesas já enfrentam uma grande pressão familiar se não forem mães, garantiu não pensar em ter filhos “até que acabe o ano do Carneiro”.

“Pra mim tanto faz, o carneiro me lembra Jesus”, argumentou Zhang, católica e grávida de nove meses, um dos milhares de exemplos dos recentes adeptos ao catolicismo em um país no qual mais de 20 milhões de pessoas já se converteram.

Embora para Beng, médico do serviço de ginecologia do Hospital Liying, em Pequim, “talvez só uma em cada cem mulheres decida antecipar o parto” por causa da chegada do Carneiro, as superstições são maiores nas zonas rurais e, diante da dúvida, o regime chinês decidiu redefinir o mal visto signo.

Para trás ficaram as lendas que garantem que quem é de carneiro tem uma vida difícil porque normalmente são animais passivos que servem de alimento para os humanos, exceto os nascidos em agosto, mais fortes e independentes porque é quando têm de mais pasto para comer.

A imprensa oficial da China, um de seus principais braços da propaganda oficial, publicou vários artigos nas últimas semanas que destacam as virtudes deste signo, entre eles os que lembram que famosos como Robert De Niro, Steve Jobs e até mesmo o primeiro-ministro, Li Keqiang, também são de Carneiro.

“E veja seu sucesso”, sugere o artigo desta semana do jornal oficial “Global Times”, na mesma linha de outro que indicava que os “carneiros” ocupam o posto número seis, ou seja, bem no meio de uma lista da porcentagem de multimilionários de cada signo do país.

Como se não fosse suficiente, outros veículos de comunicação de grande alcance na China, como o “Diário do Povo”, porta-voz do Partido Comunista, e a rede de televisão estatal “CFTV” elogiaram nestes dias a “segurança, riqueza e paciência dos carneiros”, signo de personalidades de peso como o Nobel de Literatura Mo Yann e o ator Chow Yun-fat. EFE