Cidade na China vive sua “revolução das cruzes”

  • Por Agencia EFE
  • 06/09/2015 08h20

Paloma Almoguera.

Pequim, 6 set (EFE).- Chamada de “Jerusalém da China” por suas várias igrejas, a cidade litorânea de Wenzhou, na China, observa há alguns meses sua comunidade cristã, assessorada por advogados, combater com incomum determinação a demolição das cruzes de seus templos pelo governo.

À medida que as autoridades as derrubam, elas reaparecem em outros lugares: pintadas em camisetas brancas, penduradas nos carros, nas portas das casas e até no topo das colinas.

Sempre em vermelho e com grandes dimensões, substituindo de forma simbólica às mais de 1.500 cruzes que as autoridades chinesas têm retirado desde julho das igrejas de Wenzhou e de outros pontos da província de Zhejiang, centro do cristianismo na China desde a chegada de missionários ocidentais no século XIX.

“A resistência está maior agora do que antes, e é muito mais difícil de erradicar”, garantiu um religioso local em entrevista ao site “chinachange.org”.

Segundo ele, antes as cruzes estavam apenas nas igrejas, mas agora podem ser vistas em muitas outras camadas da sociedade, de intelectuais a funcionários, inclusive entre os ricos empresários.

Um dos motivos para o aumento da resposta social é o fato de que, ao contrário do ano passado, quando o regime comunista se concentrou em derrubar algumas cruzes depois de colocar abaixo a igreja de Sanjiang, agora a ordem é demolir qualquer cruz sob o pretexto de uma campanha de “embelezamento urbano”.

“Agora, com esta campanha de total demolição, todo mundo sente que já não se trata simplesmente de derrubar cruzes. Não é apenas contra os símbolos, eles querem atacar suas crenças”, acrescentou o religioso na condição de manter o anonimato.

As reações foram múltiplas e das mais diferentes formas: da “tomada” do telhado de uma igreja durante um mês por um grupo de fiéis para proteger a cruz até o bloqueio das estradas de acesso às igrejas com barricadas de pedras para impedir a chegada dos agentes do governo.

A mais audaciosa foi a carta pública escrita pelo Conselho de Cristãos de Zhejiang pedindo ao governo o fim dessa medida.

Além disso, de forma extraordinária, a emissora “Radio Free Asia” noticia os protestos tanto das igrejas “clandestinas”, em comunhão com Roma e perseguidas por Pequim, quanto das pertencentes à oficial Igreja Patriótica Católica da China, que costuma nomear seus próprios bispos e regula as atividades religiosas no país.

Perante a visível determinação dos cristãos de Zhejiang, as autoridades chinesas intensificaram a resposta. Na semana passada, prenderam Zhang Kai, advogado que trabalhava para os fiéis de Wenzhou, e seis outras pessoas, entre sacerdotes e público.

Essas detenções despertaram a crítica de organizações como a Anistia Internacional (AI), que qualifica Zhang como “uma figura muito importante na luta contra a campanha sistemática contra o cristianismo em Zhejiang”, segundo disse à Agência Efe William Nee, investigador da AI sobre a China.

Já Bob Fu, presidente e fundador da associação China Aid, com sede nos Estados Unidos, publicou recentemente nas redes sociais que as “detenções arbitrárias representam um novo golpe no Estado de direito na China”.

Mas a prisão de Zhang, que se soma à de outros 20 advogados especialistas em direitos humanos – setor com uma grande quantidade de cristãos – e de juristas que permanecem presos desde julho, não diminuiu o ímpeto de outros defensores da igreja em Zhejiang.

Yang Xingquan, dono de uma empresa em Pequim, afirmou à Efe que irá a Wenzhou na próxima semana para ajudar, e diz não temer manifestar-se publicamente.

As críticas não vêm apenas do um milhão de fiéis que estima-se que exista em Wenzhou, mas também de outros do país, que abriga cerca 100 milhões de cristãos, a maioria protestantes, segundo os números mais otimistas.

Batizada na Mongólia Interior pouco depois de nascer há 30 anos, Mei Chao disse à Efe que sente uma imensa tristeza ao ver uma cruz ser retirada. Já Xiao Lin, membro de uma das igrejas não reconhecidas da capital, admitiu não entender “por que o governo está fazendo isto”.

Outros, como Lin Li, de 26 anos e católica há cinco, acreditam que a reação das autoridades pode ser pelo medo “de não poder controlar a multiplicação de cristãos”, quando este número parece ter ultrapassado os cerca de 87 milhões de membros do Partido Comunista da China.

Um possível medo que alguns acham que já é visível no discurso do presidente da China, Xi Jinping, que em maio ressaltou que o desenvolvimento das religiões na China “deve ser alheio à influência estrangeira”.

Influência que, estranhamente, as autoridades parecem ver também em forma de cruz. EFE