Conselho da Europa denuncia aumento da discriminação na França
Paris, 17 fev (EFE).- A França sofreu um crescente aumento dos atos de intolerância e do discurso de ódio nos últimos anos, segundo um relatório sobre direitos humanos apresentado pelo Conselho da Europa, que denuncia “deficiências graves e crônicas” no amparo aos litigantes de asilo.
O relatório, finalizado antes dos atentados jihadistas em janeiro, identifica “um grande aumento de ações antissemitas, antimuçulmanas e homofóbicas”, explicou o comissário de Direitos Humanos do Conselho da Europa, Nils Muiznieks, que visitou a França em setembro de 2014 para elaborar o estudo.
Só no primeiro semestre do ano passado, duplicaram os atos antissemitas e triplicou o número de judeus que abandonaram o país em comparação com 2012.
Enquanto isso, 80% das ações antimuçulmanas tiveram mulheres como alvo, segundo o relatório, que também indica que em 2013 foi registrado um incidente de homofobia a cada dois dias.
Na apresentação desta terça-feira em Paris, Muiznieks afirmou que a crise econômica e o auge da extrema-direita na França são dois fatores que explicam o crescimento da discriminação, assim como o discurso de certos políticos, que estigmatiza minorias.
No entanto, lembrou que essa intolerância tem “raízes profundas” na história da Europa e não pode ser atribuída apenas à conjuntura econômica.
O comissário elogiou a lei francesa contra a discriminação e a responsabilidade da maior parte da classe política, mas alertou sobre a persistência de práticas policiais discriminatórias, como os controles por fisionomia.
Muiznieks criticou a “crônica falta de capacidade de recepção” para os refugiados que pedem asilo na França e a “insuficiente atenção” aos menores de idade.
A maior crítica foi direcionada ao amparo e à reinstalação de refugiados sírios na França. Ao todo, foram 500 no ano passado e, segundo as previsões, o mesmo número em 2015, muito abaixo dos 30 mil que a Alemanha receberá neste ano.
“A França deveria ser mais generosa”, declarou o comissário, em referência à recepção de refugiados.
O relatório também aponta para a situação da minoria cigana no país, cuja maior parte “vive em condições deploráveis”. Muiznieks lembrou que, em sua visita a um acampamento cigano em Marselha, apareceram “os maiores ratos” que já viu na vida.
Por todos esses fatores, considerou positivo o debate aberto na França sobre a discriminação sofrida nos subúrbios das grandes cidades e sobre a necessidade de integração após os atentados contra a revista satírica “Charlie Hebdo” e o mercado judeu.
O comissário enfatizou que integração não é o mesmo que uma “assimilação à força”, algo que, segundo ele, “é proibido pelas leis internacionais”.
Além disso, Muiznieks convocou um debate na sociedade entre os que defendem levar a liberdade de expressão até o fim, como a “Charlie Hebdo”, e os que consideram que deve haver limites para proteger os que possam se sentir insultados. EFE
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